O que é inovação social e qual o papel dela nas novas cidades?

Em novembro de 2020, o InovaSocial completa 4 anos. A nossa proposta, desde o primeiro dia, foi disseminar e fomentar temas relacionados a inovação social. Mas, afinal, o que é essa tal inovação social? Pode parecer uma pergunta retórica, mas sinto que ela ainda precisa ser respondida. Percebo que, até mesmo no campo das instituições e organizações, o termo inovação social é um pouco distorcido ou falta definições. Por isso, inicio este texto explicando, de forma simples, o que significa o termo.

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Muito confundido com filantropia, ações do terceiro setor ou uma forma acadêmica de assistencialismo, o termo carrega uma pré-definição devido ao termo “social”, mas esquecemos que ela é uma palavra muito ampla. Basta uma olhada rápida no dicionários e vemos definições como “conveniente à sociedade ou próprio dela” e “o que pertence a todos; público, coletivo”. Já a palavra inovação remete às novas tecnologias; uma definição muito restrita para uma palavra tão ampla. Quando também olhamos o dicionário, temos “aquilo que é novo,  tornar novo; renovar, restaurar”.

Logo, podemos dizer que a inovação social é criar (ou renovar) algo para a sociedade, para o coletivo. Mas vamos mais além; a inovação social é criar novas soluções para problema e necessidades da sociedade. E não precisa ser uma tecnologia, pode ser um processo. A Escola de Negócios (GSB, em inglês) da Universidade de Stanford define o termo como sendo um “processo de desenvolvimento e implantação de soluções eficazes para questões sociais e ambientais, muitas vezes sistêmicas, em apoio ao progresso social.” A universidade é responsável pelo Stanford Social Innovation Review (SSIR), uma referência mundial sobre o tema.

No podcast que abre o mês, conversamos com Fábio Deboni, diretor de programa no CIAT, sobre inovação social e o futuro do cenário no Brasil. Ouça no player abaixo ou acesse via Spotify, Apple Podcasts ou seu agregador preferido.

Inovação social é (também) sobre como transformamos nossas cidades

Antes de continuar, vale ressaltar que não quero trazer a resposta definitiva para a inovação social. Longe disso, como falamos no podcast n. 64, o cenário é muito amplo — principalmente no Brasil — e, ao contrário do Velho Guerreiro, não vim para confundir, mas para explicar. Ou, pelo menos, tentar explicar um campo que é tão vasto e reúne tantas oportunidades, deixando que você, caro leitor(a) tire as próprias conclusões.

Para quase tudo nesta vida é necessário um ponto de partida. No caso da inovação social, neste texto vamos partir pelas nossas cidades. É onde vivemos, onde nossas ações impactam diretamente nossas vidas. Com a pandemia de Covid-19, tudo mudou e continua a mudar.

Ouvi de uma parceria de negócios que a pandemia tinha “nos ensinado a se adaptar, rever paradigmas e aprender que a zona de conforto precisa ser quebrada [o que antes dava certo, agora não dá mais].” Ela praticamente resumiu o ato de inovar. O contexto da fala era uma conversa sobre trabalho remoto, o modelo tradicional de casa e nossa relação com o trânsito. Algo que já falamos bastante no InovaSocial e sugiro que veja o texto “Futurability: Morar – Como será o futuro das nossas casas” e ouça o podcast n. 62.

Mas voltando ao conceito de inovar e de cidades, existe um termo que vem ganhando força — reforçado pelo contexto atual, que é a cidade de 15 minutos. O termo, criado pelo cientista franco-colombiano Carlos Moreno, refere-se à uma cidade onde tudo o que precisamos está a apenas 15 minutos de distância a pé. Quem vive em grandes centros urbanos sabe que isso é muito mais do que inovar, é uma revolução.

Em entrevista para o UOL Notícias, Moreno explicou que “esse conceito consiste em redescobrir a proximidade geográfica e a proximidade familiar. Redescobrir o bairro para que a cidade não seja socialmente segmentada.” Segundo ele, essa transformação pode acarretar benefícios ambientais e, se bem implementada, não representa nenhum custo suplementar para a comunidade. Ainda de acordo com o texto, “Moreno explica que ‘após a Segunda Guerra Mundial, o planejamento urbano passou a ser concentrado em uma cidade funcional e produtiva, abandonando a noção de bem-estar’. No entanto, ele insiste que ‘a vida urbana deve permitir que cada pessoa acesse 6 coisas fundamentais: morar com dignidade, trabalhar em boas condições, ter acesso à saúde, à educação, à diversão e aos produtos que precisa’. E, para ele, a qualidade de vida se concretiza apenas quando se reduz da distância para se alcançar essas condições”.

Durante a Countdown, uma iniciativa global promovida pelo TED para apoiar e acelerar soluções contra a crise climática (leia mais sobre no texto “Countdown: Nós podemos mudar a mudança climática?”), Moreno explicou um pouco mais sobre o conceito da cidade de 15 minutos — veja abaixo.

A ideia de Moreno não é algo novo, mas pode ser essencial para o nosso futuro. De acordo com Victor Andrade, professor da pós-graduação em urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenador do Laboratório de Mobilidade Sustentável (Labmob) da instituição e organizador do livro Cidades de Pedestres, em entrevista para o portal UOL Tab, “isso já vem desde uma discussão da década de 1960, aproximadamente. Não é de forma nenhuma uma discussão recente, mas ela emerge com muita força nessa tentativa de reabertura, neste momento de pandemia, com ações para que a gente tenha deslocamentos mais seguros.”

Baixe gratuitamente aqui o livro “Cidades de Pedestres: A caminhabilidade no Brasil e no mundo”

Além dos pesquisadores, vários setores têm falado sobre micromobilidade e como a inovação social pode remodelar nossas cidades. No texto “Repensar a cidade: Fazendas verticais e a mobilidade além dos carros”, mostrei como as fazendas verticais podem redesenhar as cidades, principalmente aquelas que dependem de “cinturões verdes” da agricultura. Já no texto “Citroën Ami: Uma alternativa para mobilidade urbana” e “Micromobilidade: Spin expande para a Europa e patinetes da Uber chegam a São Paulo” falávamos, antes da pandemia, sobre como as montadoras automotivas estão entendendo o futuro das cidades e buscando se posicionar como empresas de mobilidade, algo bem longe das tradicionais linhas de montagem de carros.

Seja com distâncias de 15 minutos a pé ou pequenas rotas movidas por veículos elétricos individuais, o futuro das cidades está sendo remodelado e a inovação social fará parte dela, seja como filosofia central do projeto no desenvolvimento de novas tecnologias, na gestão pública e/ou nas soluções de reestruturação das megacidades.

Imagem Destaque: tostphoto/Shutterstock

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