Na “dobradiça da história”: Estamos em um momento único da humanidade?

Na “dobradiça da história”: Estamos em um momento único da humanidade?

O que foi o ano de 2020 para você? Com o ano chegando ao fim ou o novo ano se iniciando, é comum pararmos para reflexões e planejamentos para os próximos meses. Mas, se você está lendo este texto, saiba que — possivelmente — estamos vivendo um dos períodos mais decisivos e influentes da raça humana. Então, não é apenas um planejamento anual, é um período único. Segundo a BBC, “quem diz isso são alguns filósofos e pesquisadores que têm se unido em torno da ideia de que vivemos o período da ‘dobradiça da história’. O termo vem do livro On what matters (‘Sobre o que importa’, em tradução livre) do filósofo britânico Derek Parfit.

Em 2011, Parfit afirmou que, “dadas as descobertas científicas e tecnológicas dos últimos dois séculos, o mundo nunca se transformou tão rapidamente. Pode ser que logo tenhamos maiores poderes para transformar não apenas nosso entorno, mas a nós mesmos e a nossos sucessores.” Basta olharmos para o desenvolvimento da vacina contra COVID-19. Independente de qualquer resultado (a necessidade uma segunda “versão”, por exemplo), é a primeira vez que criamos uma vacina em tão pouco tempo.

Mas a nossa “dobradiça da história” não se resume apenas às vacinas. Mudamos a forma como trabalhamos; aumentamos a expectativa de vida a tal ponto, que é necessário repensar completamente nossos objetivos de vida; e — até mesmo um sistema econômico, como o capitalismo, está sendo colocado em xeque. 

Leia também: Trabalho remoto, mudanças climáticas e muitos mais: Um balanço das tendências de 2020

Ainda segundo a BBC; de acordo com a editora do portal Vox, Kelsey Pipe, trata-se de identificar o que nossa sociedade deve priorizar para garantir o futuro da nossa espécie a longo prazo. Pipe afirma que, “a ficção científica de 2019 pode ser os verdadeiros problemas sociais de 2100”. Isso mostra que a inovação social se faz mais do que necessário, devendo se aplicada de forma ampla. Estamos em um momento da história, onde precisamos observar e entender nossos impactos como uma sociedade única e aplicar, nas palavras do filósofo escocês Will MacAskill, “o chamado altruísmo eficaz, um movimento com o propósito de aplicar a razão e as evidências em prol do bem comum.”

Leia também: O que é inovação social e qual o papel dela nas novas cidades?

De acordo com MacAskill, existem 3 argumentos centrais que precisam ser abordados na sociedade e que são fundamentais para a “dobradiça da história”. O primeiro é a possibilidade de aniquilarmos a raça humana. Agora, mais do que nunca, temos ferramentas e meios para uma catástrofe global. Guerras nucleares ou pandemias mais agressivas que o COVID-19 são improváveis, mas não são impossíveis. Este primeiro tema ainda é tão factível, que o Relógio do Juízo Final — dispositivo criado em 1947 para calcular a possibilidade de uma tragédia mundial — foi adiantado para “100 segundos para a meia noite” em janeiro de 2020. O avanço dos ponteiros foi decidido pelo Boletim de Cientistas Atômicos, um painel internacional de especialistas que controla o dispositivo e conta com a participação de 13 ganhadores do prêmio Nobel.

“Passamos a contar em segundos o quanto estamos próximos de uma catástrofe, não em horas ou minutos”, disse Rachel Bronson, presidente do organismo. O Relógio do Juízo Final foi inicialmente criado para medir os riscos de uma catástrofe nuclear, mas desde 2007 passou a incluir também as mudanças no clima do planeta e seus efeitos, por isso a evolução do relógio simbólico. Foi neste ajuste que, pela primeira vez, o Brasil foi incluído como um dos fatores para atingir a “meia-noite”. Segundo o jornal alemão DW, “o Brasil foi citado pela primeira vez como um dos causadores do aumento do nível de perigo em razão das políticas ambientais do governo e do desmantelamento da proteção à Amazônia.” 

As mudanças climáticas é o segundo tema citado por MacAskill. De acordo com o filósofo, “as mudanças climáticas não tornarão a Terra inabitável, mas certamente a tornarão mais frágil, menos resiliente e mais vulnerável a impactos no ecossistema e no ambiente geopolítico.” Ou seja, não teremos um planeta inabitável, mas teremos um cenário propício a guerras (resultado da disputas de recursos naturais) e um ecossistema que não consegue se recuperar, gerando catástrofes climáticas e impulsionando as migrações ambientais. De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), a escassez de água é um dos fatores responsáveis pelos fluxos migratórios atuais. Conhecidos como “refugiados do clima”, esses grupos estão presente em diversos países pelo mundo, entre eles países do norte da África, mas, também, na Espanha e Portugal.

Por fim, o terceiro item importante para a nossa história é a inteligência artificial. Neste campo, ainda existe uma grande divergência se a IA transformadora, ou seja, aquela que vemos em filme de ficção científica, estará presente no nosso cotidiano em 10 ou 100 anos, mas um ponto é consenso entre especialistas, estudiosos e — até mesmo — o Papa: A menos que ela seja cuidadosamente projetada, a IA tem potencial para ser catastrófica. E não estamos falando de máquinas como o Exterminador do Futuro; estamos falando em serviços digitais que podem conter, por exemplo, ações discriminatórias e que podem impulsionar a desigualdade social. Foi baseado neste último item, que o Papa Francisco divulgou em novembro de 2020, um vídeo falando sobre o tema (veja abaixo).

A pedido do líder da Igreja Católica, um órgão ligado à Santa Sé criou seis princípios que a inteligência artificial deve seguir. O documento “Chamado de Roma por ética na IA” foi elaborado pela Academia Pontifícia para a Vida, braço da Igreja Católica para promover princípios morais e teológicos em diversos assuntos, da biotecnologia à tecnologia. São eles:

  1. Transparência: Os sistemas de IA devem ser explicáveis, ou seja, ele deve ter suas decisões explicadas de forma razoável para que leigos em tecnologia possam entender; também deve ser exposta a motivação para a criação das regras que irão guiar o serviço;
  2. Inclusão: Ao criar uma IA, as necessidades de todos os seres humanos devem ser levadas em consideração;
  3. Responsabilidade: Os desenvolvedores de máquinas inteligentes devem trabalhar com responsabilidade e transparência;
  4. Imparcialidade: Os criadores de IA devem atuar sem qualquer viés para resguardar a justiça e a dignidade;
  5. Confiabilidade: Os sistemas de IA devem trabalhar de maneira confiável;
  6. Segurança e privacidade: Os sistemas de IA devem ser criados tendo foco na segurança dos dados e respeitar a privacidade dos usuários.

Talvez você ache que este não é o momento mais importante da história; ou talvez concorde com os filósofos citados acima. Não dá para afirmar com certeza se estamos na “dobradiça da história” da humanidade, mas podemos dizer que com certeza estamos na nossa dobradiça, na dobradiça desta e das próximas gerações. Estamos passando por ações e decisões que moldarão as próximas décadas e terão impactos diretos em nós, em nossos filhos e nossos netos. A necessidade de entendermos que impactos e ações precisam conter um propósito focado em prol do bem comum não é algo para amanhã. Pelo contrário, deveria ter começado ontem.

A ideia não é concluir o texto de hoje com um ponto final, mas trazer alguns textos para que você possa refletir em que momento estamos, ou melhor, em que momento você está e qual será a sua “dobradiça.” Confira abaixo!

Imagem Destaque: Viacheslav Lopatin/Shutterstock