Afinal, o que é Green New Deal, o protagonista da eleição presidencial nos EUA?

Para entendermos o que é o Green New Deal, precisamos — antes de tudo — entender o que foi o New Deal. Para isso, vamos fazer uma rápida recapitulação daquelas aulas pré-vestibular. Durante a década de 30, o mundo tentava se recuperar da Grande Depressão, um dos piores momentos do sistema capitalista no século XX.

Nos EUA, Franklin Roosevelt assume a presidência com a proposta de implementar uma reforma na economia, que incluíam: investimento maciço em obras públicas, entre elas a construção de usinas hidrelétricas, barragens, pontes, hospitais, escolas, aeroportos etc. com foco na geração de milhões de empregos; destruição dos estoques de gêneros agrícolas, como algodão, trigo e milho, a fim de conter a queda de seus preços; controle sobre os preços e a produção, para evitar a superprodução na agricultura e na indústria; e diminuição da jornada de trabalho, com o objetivo de abrir novos postos. Além disso, fixou-se o salário mínimo e foram criados o seguro-desemprego e a Lei de Seguridade de 1935 (para os maiores de 65 anos).

Eram medidas urgentes para uma realidade onde a economia era a maior emergência naquele momento, afinal, grande parte do mundo nem imaginava estar a beira da Segunda Guerra Mundial. Com este brevíssimo resumo, vamos voltar para 2020.

New Deal Verde: O nosso futuro no planeta

Uma das nossas maiores preocupações atuais é o meio ambiente. Não à toa, sem ele a vida deixa de existir no planeta e seria o nosso fim. Simples assim. Grandes empresas têm criado iniciativas próprias (leia aqui, por exemplo, os motivos que fizeram a Apple retirar os carregadores dos seus produtos), em grande parte, por pressão da opinião pública, dos mercados e/ou de investidores e consumidores.

Já na gestão pública, apesar das diversas iniciativas focadas no meio ambiente, nenhum governo desenhou um plano tão audacioso, emergencial ou gigantesco. Até agora… É aqui que entramos no Green New Deal.

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Apesar de ser uma das bandeiras de Joe Biden, ex-vice presidente dos EUA e atual candidato à presidência, o “Novo Acordo Verde” não é algo recente. O conjunto de propostas foi apresentado em março de 2019 pelo deputado Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, e pelo senador Edward J. Markey, de Massachusett (ambos democratas), e consiste em um pedido ao governo federal para que afaste os Estados Unidos dos combustíveis fósseis e reduza as emissões de gases de efeito estufa que causam o aquecimento do planeta em toda a economia.

Longe de ser a salvação da destruição planetária, como alardeado por democratas; ou uma conspiração comunista da “extrema esquerda”, como alardeado por republicanos (e reforçado por Donald Trump), o Green New Deal é um plano para tentar colocar o planeta um pouco no eixo — principalmente quando o assunto é política ambiental nos EUA. Além disso, a resolução não é vinculativa, ou seja, mesmo que o Congresso americano aprove, nada na proposta se tornará lei.

As propostas do Green New Deal

Assim como foi o New Deal original, a nova resolução também se propõe a ser uma reforma econômica e cultural, mas agora são somados aos esforços ambientais. Levando em conta o “Relatório Especial sobre o Aquecimento Global”, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado em 2018, a proposta afirma que precisamos manter as temperaturas globais abaixo do acréscimo de 1,5 ºC do período pré-industrial. Para isso, teremos que: reduzir as emissões dos gases que causam o efeito estufa, produzidos por fontes humanas, de 40% a 60% até 2030; e fazer com que o planeja chegue a emissões líquidas zero até 2050 — ou seja, toda emissão de carbono precisa ser absorvido. 

O Green New Deal propõe que os EUA não só implemente ações, como também assuma um “papel de liderança” nas metas previstas, visto que “o país é historicamente responsável ​​por uma quantidade desproporcional de emissões de gases de efeito estufa, tendo emitido 20% das emissões globais até 2014”.

Além disso, a resolução afirma que os EUA precisa criar o Green New Deal para criar milhões de empregos bem remunerados, investir em infraestrutura e garantir para as próximas gerações ar e água limpa; alimentação saudável, acesso à natureza, meio ambiente sustentável e promover a justiça e a equidade, prevenindo o futuro e reparando a opressão histórica dos povos indígenas, comunidades de todas as raças, comunidades migrantes, comunidades desindustrializadas, comunidades rurais despovoadas, pobres, trabalhadores de baixa renda, mulheres, idosos, desabrigados, pessoas com deficiência e jovens.

Para atingir essas metas, o plano prevê o lançamento de uma “mobilização de 10 anos”, com o fornecimento de 100% da eletricidade do país a partir de energia renovável e de emissão zero, digitalizando a rede elétrica do país, atualizando todos os prédios do país para serem mais eficientes em termos de energia e reformando o sistema de transporte do país, investindo em veículos elétricos e de alta trilho de velocidade.

Para tratar da justiça social, a resolução diz que é dever do governo fornecer treinamento profissional e promover o novo desenvolvimento econômico, especialmente para as comunidades que atualmente dependem de empregos nas indústrias de combustíveis fósseis.

Quais os custos de tudo isso?

Muito mais do que falar em custo, precisamos falar em retorno. Veja o exemplo de Vermont, no nordeste dos EUA, onde a meta de atingir 90% de energia renovável até meados do século tem custo estimado em US$ 33 bilhões. O estado está vendo um crescimento do emprego nos setores de energia limpa e espera que a transição estimule a economia de custos para os consumidores.

Já a modernização da rede elétrica dos EUA pode custar até US$ 476 bilhões, mas deve retornar US$ 2 trilhões em benefícios, de acordo com um estudo de 2011 publicado pelo Electric Power Research Institute.

Em resumo, o Green New Deal está longe de custar os US$ 100 trilhões que Donald Trump afirma prever. E mesmo que chegasse próximo desta cifra, isso significaria que o país teria retornos — não só econômicos — bem acima destes valores. Seja qual for o investimento necessário para implementar um Green New Deal por completo, algo que duvido que aconteça (não só por questões de investimentos, mas por questões políticas, independente de quem for o próximo presidente dos EUA), na teoria, o mundo só sairia ganhando.

Créditos: Imagem Destaque – Rachael Warriner/Shutterstock

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