Trabalho remoto, mudanças climáticas e muito mais: Um balanço das tendências de 2020

Quando o assunto são tendências para um futuro próximo, 2020 foi o ano para embaralhar as cartas e deixar qualquer especialista em futurismo perdido nas projeções. Com o fim do ano a nossa porta, acho que já está na hora de falarmos o que realmente virou realidade, o que ficou para 2021 e o que a pandemia ressignificou. Em dezembro de 2019, quando o vírus ainda é algo que passava despercebido, publicamos no InovaSocial os textos Tendências para 2020: Ideias que mudarão o mundo – Parte 1  e Parte 2. A lista, composta por 20 itens, apresentava tendências para 2020 feitas pelos editores do LinkedIn e comentada por nós.

Assim como esta lista, tantas outras foram feitas. Entre elas, o Relatório Anual de Tendências Tecnológicas (“Annual Tech Trends Report” – ATTR, em inglês); do Future Today Instiitute, da futurista americana Amy Webb. O objetivo do texto abaixo é comentar cada uma das tendências, visualizada no passado, e comentá-las. Não se estão certas ou erradas, mas o que mudou em cada uma.

O benefício mais desejado no trabalho será o tempo

“O trabalho flexível não é mais um subsídio concedido a alguns funcionários; é uma demanda de todos. A geração Z e os millennials estão liderando o caminho ao estabelecer uma nova relação com o escritório, de acordo com reportagem  de Claire Cain Miller e Sanam Yar, do New York Times.” — Esta tendência talvez resuma bem o que foi 2020. O home office ou trabalho remoto virou realidade de muitos, não por opção, mas por necessidade. No entanto, aprendemos que, com o modelo de trabalho, muita coisa precisa ser adaptada. Das leis trabalhistas às formas como mensuramos o trabalho, todo o cenário mudou e está mudando. Aprendemos que o tempo é uma medida que precisa ser melhor dividida no nosso dia a dia. Mesmo estando no mesmo espaço, precisamos ter tempo para trabalhar e viver; e ambos são bem diferentes. Ouça abaixo o nosso podcast sobre 100 dias de home office.

Ainda sobre trabalho: Recapacitação, transformação social, foco, neurociência, saúde mental e o valor do trabalho

Trabalho foi o tema de 2020, mas também foi o foco de reflexões (item n.20). Tenho visto muitas pessoas falando que “a minha profissão não define quem eu sou”, passando por uma ressignificação sobre o valor do trabalho e o que ele representa em nossas vidas. Além disso, com o home office, o foco (item n.14) e a saúde mental (item n.05) ganharam destaques em nossa vida profissional. Se antes de 2020, a depressão e a ansiedade custavam à economia global 1 trilhão de dólares a cada ano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o cenário pós pandemia deve se agravar e nos levar a rever a forma com trabalhamos. Ouça abaixo o nosso podcast sobre saúde mental.

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Sobre a recapacitação profissional (item n.04), ela ainda não é uma preocupação de governos e longe de ser abordada como um “novo ensino básico”, mas já vemos entidades (como, por exemplo, o Sebrae) e instituições (em grande parte, já focadas no ensino privado) fornecendo subsídios para recapacitação e orientação para pessoas que buscam a mudança de profissão. 

No campo da tecnologia, o ATTR afirmou que “em breve todas as empresas terão acesso a robôs”. Talvez ainda esteja longe de ser todas, mas muitas empresas já adotaram robôs com inteligência artificial como suporte aos trabalhadores humanos. Em julho, a Ford anunciou a implementação de dois cães-robôs para mapear suas plantas fabris. Por fim, a neurociência passou a ser uma aliada de empresas (item n.19) de várias empresas. No sexto episódio do Gravidade Zero, podcast sobre futurismo do Com limão/Citrus, conversei com Carla Tieppo — neurocientista e expert da SingularityU Brazil, sobre o tema. Ouça abaixo no player abaixo.

O século asiático sob nuvens escuras e o capitalismo no banco dos réus: Em 2020, o início de uma mudança acentuada

No fim de 2019, a economista do MIT e ganhadora do Prêmio Nobel do mesmo ano,  Esther Duflo, alertava sobre que “a desaceleração do crescimento na Ásia testará o sistema capitalista” (item n.06). A especialista não era a única em falar sobre o capitalismo no “banco dos réus” (item n.08). “O sistema que faz o capitalismo funcionar bem para a maioria das pessoas está quebrado”, afirmou o bilionário e gestor de fundos hedge, Ray Dalio. Por aqui, publicamos o texto “O capitalismo está morto! Uma carta aberta à humanidade e o impacto dos bancos na mudança climática”. Tudo isso antes de qualquer sinal de pandemia!

Leia também: Novo ciclo do capitalismo e seu impacto na sociedade

Antes do COVID-19, uma recessão global — já prevista há alguns anos — perdia fôlego, mas não desaparecia totalmente (item n.16). Com o surgimento de um novo coronavírus no centro de uma das maiores economias mundiais, em janeiro de 2020, os impactos econômicos acendiam a luz amarela, mas nós nem imaginávamos o que seria a economia deste ano. A recessão, que perdia aceleração, agora ganhou um foguete propulsor e, com isso, o PIB do Brasil deve encolher 5% em 2020

As Big Techs em 2020: Controlando superpoderes, LGPD, reconhecimento facial e agricultura

Nas previsões de 2020, falamos como as Big Techs seriam “regulamentadas” (item n.17). Antes da pandemia, os superpoderes de Facebook, Apple, Google e Amazon era algo que tirava o sono de alguns políticos. “E a razão é que os setores que mais crescem em nossa economia — equipamentos de tecnologia, redes sociais, pesquisa e comércio eletrônico — estão sob o controle de uma ou duas empresas. Uma ação antitruste poderia resolver isso”, afirmou na época Scott Galloway, professor de marketing da NYU. Nos EUA, nem mesmo com as eleições presidenciais, o tema ganhou tanto destaque como deveria. Já no Brasil, vimos o início da LGPD (ouça nosso podcast abaixo) 

Reconhecimento facial (item n.09) e sistemas de pontuação também eram tendências para 2020. O ATTR afirmou que “nossos dados estão sendo minerados, refinados e produzidos para nos classificar, etiquetar e catalogar.” Na pandemia não foi diferente, serviços e pessoas ganharam “selos” sobre o nível de segurança que representavam. Na China, pessoas com o QR Code vermelho deveriam se manter em quarentena total, enquanto as classificadas com o selo verde poderiam transitar pelas ruas. Já o reconhecimento facial tem sido aplicado em inúmeras soluções, mas — no Brasil — esbarra na Lei Geral de Proteção de Dados. Como disse Amy Webb, em entrevista para o portal EXAME, “o desafio com a regulação é que ela sempre parece agir reativamente e tende a não projetar o futuro.”

Leia também: 100 Startups to Watch: As empresas brasileiras mais inovadoras

Já no campo da agricultura, as Big Techs (ou seus donos bilionários) têm investido em soluções de fazendas verticais, impulsionando o mercado da agricultura do futuro. Leia mais sobre o tema no texto “Repensar a cidade: Fazendas verticais e a mobilidade além dos carros”.

No meio ambiente: Mudanças climáticas e as carnes cultivadas

Junto com a pandemia, talvez o meio ambiente tenha sido o tema mais discutido em 2020. “Greta Thunberg não é um fenômeno isolado. Apesar da garota sueca ganhar as capas de jornais (e o título de Pessoa do Ano, pela revista Times), ela é apenas um reflexo de uma geração que entendeu a urgência da crise climática.” Mesmo sem as queimadas no Brasil, o meio ambiente já era considerado uma tendência não só para o ano, mas para a década. Falar que uma contagem regressiva da mudança climática já começou (item n.03) não é, nem de longe, um exagero.

Além disso, ter o New Green Deal como um dos protagonistas das eleições presidenciais dos EUA não é só um discurso político, mas um anseio das novas gerações. Arrisco em dizer que, se não fosse o COVID-19, a discussão em torno das questões ambientais seriam não só mais acaloradas, como também mais volumosas.

“Em novembro [de 2019], um cliente da gigante imobiliária americana Redfin desistiu de comprar uma casa em um bairro nobre de Houston, conta o CEO Glenn Kelman. A franquia do seguro contra inundações para a propriedade era alto demais. Essa é uma das formas bastante reais pelas quais as mudanças climáticas estão remodelando a nossa geografia urbana” (item n.15). Este talvez seja apenas um dos vários exemplos que devem ocorrer nos próximos anos. Você sabe o que acontece quando eliminamos a proteção ambiental de áreas de mangue e restinga? A imagem abaixo é apenas um dos efeitos. A Luiza Caires, editora de ciência do Jornal da USP explica de forma didática os impactos no meio ambiente e em nossas cidades em uma série de tweets. Leia mais neste link.

Impactos da retirada de mangues

Por fim, começamos a dissecar o que significa comer carne (item n.07). O assunto não é trivial: o mercado de alternativas à carne poderá chegar a US$ 140 bilhões no final da década, segundo estimativas do banco de investimento Barclays. Também conhecido como alimentos plant-based, este tipo de produto tem se mostrado como uma alternativa para quem quer colaborar com a redução do impacto ambiental que, principalmente, a pecuária de larga escala exerce no planeta. No brasil, a pecuária em larga escala tem sido tema central na disputa por territórios e culpa das queimadas na Amazônia e no Pantanal.

Por aqui, no texto “Soluções plant-based inovadora: Muito além da carne de planta”, mostramos que o termo “plant-based” (à base de plantas) foi um dos termos mais falados de 2019, segundo o Dicionário Oxford. Mas uma das coisas mais interessantes é que as “carnes que não são carne” não são o limite das possibilidades de invenções plant-based e reunimos no texto 3 projetos, que vão de roupa de cama à bebidas.

Imagem Destaque: HQuality/Shutterstock

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