Como o “Efeito GameStop” pode ser o começo da guerrilha social

Como o “Efeito GameStop” pode ser o começo da  guerrilha social

No nosso podcast n.66, “Outras tendências para 2021 – Home office, Economia, China e Millennials”, comentei sobre o novo ciclo do capitalismo, empreendedorismo social e Millennials investindo. Este texto é para nos aprofundarmos nessas tendências e observarmos o que já aconteceu em 2021 neste cenário. Para isso, precisamos começar pelas ações da GameStop e uma pequena ação de guerrilha social que aconteceu no início deste ano.


Apenas um parênteses, quando falo em “guerrilha social”, minha inspiração é o marketing de guerrilha. Este tipo de ação, utilizado para promover produtos e serviços de forma pouco convencional, muitas vezes utiliza ferramentas e ações criativas, além de terem um grande potencial viral. No campo da inovação social, podemos dizer que uma “guerrilha social” são ações que tomam de assalto alguma oportunidade, gerando grandes impactos momentâneos e com potencial de viralização.


Se você não está ambientado com o mercado de games, talvez nem imagine (ou imaginava) o que era a GameStop até janeiro de 2021. Criada na década de 80, a rede chegou a ser uma das maiores varejistas de jogos eletrônicos, mas vem passando por grandes desafios nos últimos anos. O principal ponto é que a rede não se inovou e ficar vendendo jogos eletrônicos já não é mais um grande negócio. Atualmente, muitos consoles e produtoras vendem seus games sem mídia física e o modelo de negócio da GameStop, que também inclui revenda de jogos usados, já não faz tanto sentido neste mercado. Fazendo um paralelo, a GameStop é uma Blockbuster em um mercado com várias Netflixs.

Então, como uma empresa obsoleta conseguiu ganhar mais de US$ 20 bilhões em valor de mercado, passando dos US$ 1,3 bilhão (valor de mercado em dezembro de 2020) para US$ 22,5 bilhões no final de janeiro? Tudo começou em um fórum de discussão do Reddit, o r/WallStreetBets. Administrado por sete moderadores e um bot, o espaço de discussão — assim como a maioria dos fóruns do Reddit que contam com milhões de usuários — é uma grande confusão de informações para quem não está acostumado com este modelo de rede social. A questão é que, no meio deste emaranhado de postagens, os integrantes do WallStreetBets conseguiram se organizar para desafiar os grandes investidores de Wall Street.

Em uma carta aberta publicada pelo usuário u/Ssauronn conta a história de como ele e sua família foram impactados pela crise de 2008 e pelas ações dos grandes investidores de Wall Street. Este talvez seja um dos diversos motivos, mas a questão é que os usuários do fórum se organizaram para comprar ações daqueles que apostaram na perda (e, até mesmo, falência) das empresas. Tudo isso com o objetivo de inflar os valores das ações dessas companhias, provocando prejuízo nas instituições que apostavam na desvalorização. Não vou entrar em detalhes desta operação, mas você encontra inúmeras explicações na internet de como funciona este tipo de compra/venda de ações.

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No caso da GameStop, a Melvin Capital, um dos fundos que apostavam na desvalorização da rede, teve que injetar US$ 2,75 bilhões para cobrir as perdas causadas pela ação dos usuários WallStreetBets. O mercado financeiro é assim, se uns ganham, outros estão perdendo. A questão é que, quase sempre, quem ganha são os grandes… mas não desta vez. Desta vez, pessoas como o engenheiro em segurança cibernética ferroviária Alex Patton, o estudante Myron Sakkas e a enfermeira Melissa Holdren foram um dos milhares de responsáveis pela confusão que se formou em Wall Street e fez com que os sharks (“tubarões” em português, termo para se referir aos grandes investidores) ficassem perdidos, sem saber o que estava acontecendo. O desenrolar da história é longo e já envolve promotores federais, novas regras em Wall Street e por aí vai. Vou deixar alguns links, se você quiser se aprofundar na ação: link 1; link 2 e link 3.

Mas, onde quero chegar com toda essa história? Tirando o fato de mostrar como pessoas normais podem dar uma lição em grandes investidores que apostam na falência de empresas, é como uma confusão financeira começou por causa de um grupo orquestrado dentro de um fórum de discussão. Isso nunca tinha acontecido! Não estamos falando de grandes empresas manipulando o mercado; estamos falando de pessoas simples, que tentaram fazer a diferença diretamente do sofá. Os Millennials e as novas gerações têm claro conhecimento de seus valores e não medem esforços para mostrar que o jogo virou. Seja deixando de comprar uma marca que explora o meio ambiente ou agindo como “justiceiros não violentos”, que apenas aprenderam as regras do jogo do investimento.

O exemplo da GameStop não termina aí. Um pequeno investidor anônimo, afirmou que ganhou uma boa quantia com as ações da rede americana. O que ele fez? Comprou 10 Nintendo Switch e doou para um hospital infantil no Texas. O melhor de tudo: todos os videogames foram comprados na GameStop! Dá para entender o tamanho da loucura (positiva) que foi toda essa história? Um mundo onde empreendedores sociais, somado a gerações com fortes valores sociais, decidem fazer a diferença de formas criativas que podem reinventar mercados é algo que estamos vendo aumentar cada vez mais.

Talvez muitos dos que entraram no “Efeito GameStop” não fazem ideia dos impactos gerados. Talvez até mesmo o investidor que comprou videogames para um hospital não entenda todo esse contexto, e só tenha feito isso como um gesto de agradecimento. Talvez muitos ganharam dinheiro com toda essa movimentação. Mas a questão é que as regras do jogo mudaram e uma luta contra sharks de Wall Street seja apenas um exemplo do que as novas gerações podem fazer para gerar impacto positivo, mas quebrando antigos processos, usando o “sistema conta o sistema”.

Sobre a GameStop, uma última atualização. Jim Bell, vice-presidente executivo e diretor financeiro da rede, vai deixar a empresa em 26 de março. Segundo a agência Bloomberg, a saída de Bell é encarada pelos investidores como um passo para que a empresa ganhe em inovação.

Imagem Destaque: Jonathan Weiss/Shuttertstock