Agricultura vertical: Impactos e desafios do plantio urbano

Agricultura vertical: Impactos e desafios do plantio urbano

O ano é 2026. A agricultura vertical torna-se viável para a produção de alimentos nas principais megacidades. Se você é leitor recorrente do InovaSocial, deve ter percebido que nos últimos textos estamos revisitando algumas tendências e nos aprofundando em temas que resultam em impactos diretos no nosso cotidiano. Nos parágrafos a seguir falaremos mais sobre agricultura vertical, técnica que não muda apenas nossa forma de consumir, mas também como nos relacionamos com o meio ambiente.

Há pouco mais de duas décadas, o microbiologista Dickson Despommier cunhou o conceito de “fazendas verticais” em uma aula de graduação. Professor emérito de microbiologia e saúde pública na Universidade de Columbia, Despommier define a técnica como “uma tecnologia que faz uso dos conceitos e práticas adotadas em sistema de estufas, porém no formato de edifício de vários andares que se transforma em campos agrícolas verticais.”

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Uma solução que parece tão simples, pode ser a saída para a falta de alimentos no mundo. Segundo Despommier, cidades autossuficientes podem reduzir a fome e restaurar florestas devastadas pela agricultura, além de eliminar as emissões de CO2 causadas pelo plantio, colheita e transporte de alimentos por longas distâncias. Vale lembrar que, para 2030, o 2º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”. Com a população mundial tornando-se cada vez mais urbana, segundo informações da UNWTO (Organização Mundial de Turismo, agência especializada da ONU), será neste mesmo período em que veremos “cerca de 60% da população mundial vivendo em áreas urbanas” e a agricultura vertical tem se mostrado como uma solução essencial para prover a alimentação.

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A boa notícia é que não faltam exemplos práticos no mundo. Cidades como Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, uma das regiões mais ricas do globo, mas que emergiu do deserto, onde aproximadamente 80% dos alimentos são importados, tem investido em agricultura vertical como forma de suprir suas demandas. Segundo a Bloomberg, em novembro de 2020, “o Escritório de Investimentos de Abu Dhabi (ADIO, sigla em inglês) anunciou que vai investir cerca de US$ 41 milhões com outras empresas para desenvolver tecnologias para a produção de alimentos em condições áridas. (…) Os gastos se somam a um investimento de US$ 100 milhões no início do ano para incentivar agtechs a construir centros de pesquisa e desenvolvimento em Abu Dhabi, o que atraiu empresas de agricultura vertical como a AeroFarms.”

No futuro, voltaremos a ser agricultores?

Olhando para o futuro além de 2030, é bem capaz que nossos filhos, netos ou bisnetos voltem a ser agricultores, assim como nossos antepassados foram em algum momento. Na história, a agricultura foi a responsável pela formação de aldeias, fazendo com que a nossa espécie deixasse de ser nômade. Agora voltaremos a plantar, seja por necessidade ou simples luxo (quem não gosta de um chá de hortelã colhida na hora ou um pesto com manjericão da própria horta?). Mas, para isso, a agricultura vertical terá que ser ainda mais barata e simples.

Talvez, com os meus exemplos, você esteja pensando naquele vaso esquecido no canto da casa, mas estamos falando em algo maior, estou falando em colher o próprio alface. E, para isso, algumas coisas ainda precisam mudar. “As microgreens e ervas cultivadas em fazendas caseiras só serão opção para a elite rica do mundo por muitos anos. Produtos cultivados verticalmente são muito mais caros do que os produtos cultivados convencionalmente e até mesmo mais caros do que a maioria dos produtos orgânicos”, afirma Michael Dent, analista da IDTechEx. “Por exemplo, o quilo da couve produzida pela Bowery Farming, com sede em Nova York, é quase três vezes mais cara do que a opção de couve do Whole Foods Market, e seu coentro é cinco vezes mais caro do que o equivalente da mesma rede de supermercados.”

Um dos desafios para a agricultura vertical está na energia. As lâmpadas atuais gastam muita energia, quando comparado com o processo tradicional. “[Para suprir suas fazendas verticais dentro do Yas Mall, shopping na ilha de Yas, em Abu Dhabi] o Carrefour está tentando encontrar um fornecedor de lâmpadas que possa reduzir o consumo de energia em até 65%, afirma Miguel Povedano, diretor de operações da Majid Al Futtaim, empresa que administra a franquia Carrefour no Oriente Médio, África e Ásia.

A energia solar tem sido alternativa para empresas especializadas em fazendas verticais, como a Plenty, de São Francisco. Mas, como bem sabemos, este tipo de energia ainda está longe de ser comum em espaços residenciais pelo mundo, que dirá no Brasil. Isso faz com que a “agricultura familiar vertical” ainda esteja longe de virar realidade. Isso não quer dizer que seja impossível. Segundo o Estadão, “é possível miniaturizar o projeto grandioso de alimentar uma cidade inteira para pequenos locais, transformando a agricultura vertical em uma horta, que serve muito bem a uma família ou a um grupo de vizinhos. São muitos os alimentos hidropônicos (cultivados somente na água), como agrião, alface, batata, brócolis, cenoura, melancia, pimentão, rúcula e tomate. Ainda assim, os hidropônicos não são a única solução. Também é possível cultivar vegetais em porções mínimas de terra. Existem até cursos que ensinam a cultivar alimentos e montar esse tipo de horta utilizando garrafas pet como matéria-prima, como o da Universidade Federal de Minas Gerais” (veja o vídeo abaixo). Talvez este tipo de solução esteja longe das fazendas verticais high techs, mas já funciona como o primeiro passo de um cenário que deve evoluir bastante nos próximos anos.

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