Categories Soluções de ImpactoPosted on 08/06/202608/06/2026Como reviver o hábito de ler por prazer e incentivar jovens leitores no Brasil O ato de ler por prazer está em queda no Brasil e no mundo. Entenda os dados, os desafios e caminhos para formar leitores. Hoje pela manhã, enquanto eu rolava o feed do TikTok ao invés de ler um livro, assisti a um vídeo da Laura Brand e tive aquela sensação de que alguém puxou um fio que estava solto havia tempo. Ela conta que, ao terminar “The Witch” (de Marie NDiaye), encontrou nas páginas finais uma carta alertando para a queda da leitura por prazer entre crianças e jovens. No vídeo, Laura lê a carta com números que dão peso ao susto: em 2024, apenas 1 em cada 3 (34,6%) crianças e jovens britânicos de 8 a 18 anos disseram que gostam de ler no tempo livre, segundo a National Literacy Trust. Em 2025, a mesma organização estimou que 10,3% dos jovens de 5 a 18 anos não tinham um livro próprio em casa, algo como “1 em cada 10”. Esses dados despertaram minha curiosidade para pesquisar sobre o aqui no Brasil: se um país com tradição editorial e campanhas nacionais de leitura está preocupado com o básico – crianças terem livro em casa e gostarem de ler no tempo livre – o que os nossos dados dizem? E, principalmente, o que dá para fazer para a leitura por prazer voltar a ser um hábito possível, sem bronca, sem nostalgia e sem transformar o livro em prova de virtude? O retrato brasileiro: quando a impressão vira dado A minha curiosidade que nasceu daquele vídeo encontrou, no Brasil, uma resposta desconfortável. A 6ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada em 2024, registrou pela primeira vez desde o início da série histórica, em 2007, uma inversão simbólica: o país passou a ter mais não leitores do que leitores. A proporção ficou em 53% de não leitores e 47% de leitores. O dado chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pelo critério. Na pesquisa, “leitor” não é sinônimo de alguém que lê literatura por vontade própria, nem de alguém que mantém uma relação frequente com livros. Entra nessa categoria quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro de qualquer gênero nos três meses anteriores à entrevista. Pode ser romance, livro religioso, leitura escolar, obra técnica, material profissional. É uma definição ampla. Mesmo assim, a prática recente de leitura ficou minoritária. Entre 2019 e 2024, a estimativa é de uma perda de 6,7 milhões de leitores no país. A pesquisa foi feita com 5.504 entrevistas domiciliares em 208 municípios, com pessoas de 5 anos ou mais. Ou seja: não estamos falando de sensação de bolha, nostalgia de quem cresceu em livraria ou impressão enviesada por algoritmo. Estamos falando de série histórica. Quando o recorte é leitura por prazer, a conversa fica ainda mais delicada. Porque uma coisa é ler para cumprir tarefa, estudar, trabalhar, acompanhar uma religião ou para algum trabalho da escola. Outra é ler porque se quer estar ali. Porque aquele texto oferece companhia, descanso, imaginação, curiosidade ou alguma forma de espelho. É nessa diferença que mora boa parte do problema. Ler não é uma coisa só Falar de leitura no singular costuma simplificar demais o debate. A mesma palavra serve para muitas práticas diferentes: ler uma mensagem, uma legenda, um contrato, um livro didático, um romance, uma reportagem longa, uma fanfic, um poema antes de dormir. Tudo isso é leitura, mas nem tudo ocupa o mesmo lugar na vida de uma pessoa. A leitura funcional resolve tarefas. A leitura escolar ou profissional responde a demandas externas. Já a leitura por prazer depende de outro tipo de vínculo: ela precisa fazer sentido quando ninguém está cobrando. Por isso, o tema muda quando a pergunta deixa de ser “as pessoas sabem ler?” e passa a ser “as pessoas querem ler no tempo livre?”. A primeira pergunta olha para competência. A segunda olha para desejo, ambiente e hábito. E desejo não se instala por decreto. No Brasil, muitas vezes defendemos a leitura com argumentos corretos, mas insuficientes. Dizemos que ler melhora o vocabulário, ajuda na escrita, amplia repertório, favorece a concentração. Tudo isso pode ser verdade. Mas, se a leitura aparece apenas como ferramenta de melhoria pessoal, o livro vira uma espécie de suplemento: algo que você deveria consumir para funcionar melhor. Só que ninguém constrói uma relação duradoura com uma prática cultural apenas porque ela “faz bem”. O prazer não é um enfeite, ele é um motor. A explicação mais fácil seria culpar o celular. Ela também é a menos interessante. Não porque as telas sejam irrelevantes, mas porque “o celular” virou uma palavra-cesto onde jogamos problemas diferentes: cansaço, falta de tempo, excesso de estímulo, ansiedade, trabalho invadindo a casa, notificações permanentes, redes sociais desenhadas para capturar atenção e uma rotina cada vez mais fragmentada. A leitura longa exige quase o oposto disso. Ela pede continuidade. Pede um começo meio desconfortável, aquele intervalo em que o corpo ainda quer checar alguma coisa, responder alguém, abrir outra aba, fazer um café, olhar uma mensagem que talvez nem exista. Ler um livro envolve atravessar esse ruído até entrar no ritmo do texto. Quando esse território não existe, a pessoa não necessariamente escolhe “não ler”. Muitas vezes, ela apenas vai ficando sem espaço mental para uma prática que não entrega recompensa imediata. O livro perde não porque seja menos valioso, mas porque chega em desvantagem numa disputa de atenção que já foi decidida antes mesmo de começar. Essa distinção muda a solução. Se o problema fosse apenas falta de disciplina, bastaria mandar as pessoas se esforçarem. Mas, se o problema é também ambiente, então a pergunta fica mais concreta: que condições tornam a leitura por prazer possível? Cinco caminhos para ler mais e formar leitores Se a leitura por prazer depende de desejo, tempo e ambiente, a pergunta prática não é “como vencer a preguiça?”, mas “como diminuir a distância entre a pessoa e o livro?”. Aqui vão alguns caminhos são simples, mas que podem mudar tudo: 1. Começar pelo desejo, não pelo status. A forma mais rápida de matar a leitura por prazer é transformar o livro em prova de caráter. Quando a pessoa sente que só “vale” ler clássicos, livros difíceis ou títulos socialmente respeitáveis, a leitura deixa de ser experiência e vira performance. Para voltar a ler, muitas vezes é preciso escolher pelo interesse real: romance curto, thriller, quadrinho, fantasia, terror, crônica, biografia, ensaio, mangá. O gênero importa menos do que a faísca. Ler por prazer começa quando o livro encontra uma vontade, não uma obrigação. 2. Abandonar sem culpa. Muita gente para de ler porque fica presa a um livro que não engatou. Como se abandonar fosse falhar. Mas um livro pode ser bom e não ser bom para você agora. Pode ter chegado cedo demais, tarde demais, pesado demais. Trocar de livro não é desistir da leitura; pode ser justamente o gesto que preserva o hábito. Às vezes, conseguir ler de novo começa com fechar um livro. 3. Criar micro-hábitos, não metas heroicas. A leitura não precisa esperar uma tarde livre, uma poltrona perfeita e silêncio absoluto. Quando depende do cenário ideal, vira evento raro. Dez minutos antes de dormir, algumas páginas no transporte, um conto no intervalo, um capítulo curto no fim do dia: pequenas repetições mantêm o livro vivo na rotina. O objetivo não é transformar prazer em planilha, mas fazer a leitura caber na vida real. 4. Proteger um território de atenção. A leitura longa pede continuidade, e a rotina atual foi desenhada para interromper. Isso não significa declarar guerra às telas, mas reconhecer que o livro precisa de chance. Pode ser deixar o celular longe por quinze minutos, ler antes de abrir redes sociais, carregar um livro fácil de retomar ou escolher leituras mais breves em fases de cansaço. A leitura por prazer não costuma voltar em grandes promessas. Ela volta em gestos pequenos, repetidos até virarem caminho. 5. Incentivar jovens sem transformar livro em castigo. Com crianças e adolescentes, o erro mais comum é tratar o livro como antídoto moral para as telas. Jovem percebe quando a leitura vira uma punição elegante. Claro, dar o exemplo é básico (por isso, se preocupar em ser um bom leitor é essencial para incentivar novos leitores), mas formar leitores também passa por escolha, mediação e pertencimento. Interesses pessoais são portas: filmes, séries, jogos, mistério, romance, fantasia, quadrinhos, capas chamativas, temas próximos da vida deles. Depois da entrada, o percurso se amplia. Também é importante lembrar que alfabetização não é a linha de chegada. A criança aprende a decodificar palavras, mas ainda precisa de adultos que leiam junto, conversem, indiquem, escutem e façam do livro um objeto vivo. A pergunta “o que o autor quis dizer?” tem seu lugar, mas não pode ser a única. Também vale perguntar: o que você sentiu? Que parte te irritou? Qual personagem você defenderia? Que cena ficou na cabeça? A leitura por prazer cresce quando vira conversa, não uma prova oral, uma sabatina. E, muitas vezes, cresce ainda mais quando vira experiência coletiva: clube de leitura, roda na biblioteca, indicação entre amigos, projeto em que jovens escolhem e apresentam livros para outros jovens. Para muita gente, o livro só deixa de parecer obrigação quando vira também pertencimento. Biblioteca não é cenário. É infraestrutura de desejo Quando a conversa chega nas dicas individuais, existe o risco de transformar um problema coletivo em responsabilidade privada. Como se bastasse força de vontade, organização e uma lista de bons hábitos. Mas nem todo mundo tem livros em casa. Nem todo mundo mora perto de livraria. Nem toda escola tem biblioteca viva. Nem toda biblioteca tem acervo atualizado, mediação, circulação fácil, horário possível, liberdade de escolha. E, sem acesso, o prazer vira privilégio. O Reino Unido se alarma com a quantidade de jovens sem um livro próprio em casa. No Brasil, onde desigualdade estrutura o cotidiano, essa discussão precisa ser ainda mais ampla. A biblioteca pública e escolar não deve ser tratada como um enfeite, mas sim como política cultural, educacional e democrática. Ela deve ser o lugar onde uma pessoa pode encontrar um livro sem depender de renda, algoritmo ou indicação de mercado. Nesse sentido, iniciativas digitais como o MEC Livros também são bem-vindas. A plataforma, descrita pelo Ministério da Educação como uma biblioteca digital pública e gratuita, reúne obras em domínio público e obras contemporâneas licenciadas, disponíveis para leitura em computador, tablet ou celular. É uma ferramenta interessante porque amplia o alcance: uma biblioteca física atende um território; uma biblioteca digital pode chegar ao Brasil inteiro. Mas ela também mostra os limites da solução digital. Para acessar, é preciso ter internet, dispositivo, algum letramento tecnológico e disponibilidade no acervo. É um avanço importante, mas não substitui biblioteca escolar e pública viva, com espaço, mediação e presença cotidiana. Uma biblioteca viva faz mais do que emprestar exemplares. Ela cria encontro. Apresenta caminhos. Autoriza descobertas. Permite que alguém experimente sem comprar, abandone sem prejuízo, volte sem vergonha. Para quem já lê, ela amplia o território. Para quem ainda não lê, pode ser o primeiro lugar em que o livro aparece sem cara de obrigação. No fim, a carta encontrada por Laura Brand no final do livro “The Witch”, do jeito que ela descreve, é curiosa justamente porque aparece onde a gente não esperaria: no fim de um romance adulto, como se a editora abrisse uma fresta para lembrar que nenhum livro existe sozinho. Há um ecossistema inteiro antes de alguém chegar até ele. Mercado editorial, escola, família, biblioteca, políticas públicas, influenciadores, professores, amigos, plataformas, rotina: tudo isso participa da formação de leitores. E justamente por isso nenhuma dessas partes resolve o problema sozinha. No Brasil, os dados não pedem pânico moral. Pedem desenho de ambiente. Menos culpa e mais condições concretas. Menos “as pessoas deveriam ler” e mais perguntas honestas: onde estão os livros? Quem apresenta esses livros? Que tempo existe para eles? Que liberdade existe para escolher? Que conversas nascem depois da leitura? Que espaços públicos sustentam esse hábito? Ler por prazer não se recupera mandando as pessoas lerem. Recupera-se tornando o encontro com o livro possível outra vez. Prazer não se impõe. Ele se cultiva. Créditos: Imagem Destaque – eamesBot/Shutterstock 💬 Faça parte da nossa comunidade Receba em primeira mão nossos artigos, tendências e inspirações sobre inovação e impacto social direto no seu celular. Quero participar → Compartilhe esse artigo: