Iniciativa do Observatório do Clima debaterá as emissões de gases de efeito estufa na Região Norte

Iniciativa do Observatório do Clima debaterá as emissões de gases de efeito estufa na Região Norte

A conversão de florestas para uso agropecuário está por trás dos altos níveis de emissão de gases de efeito estufa registrados no Norte do Brasil. Em aproximadamente 75% dos 450 municípios da região, a maior parte das emissões ocorreu devido a mudanças de uso da terra, decorrentes principalmente do desmatamento, de acordo com dados da primeira edição do SEEG Municípios, uma iniciativa do Observatório do Clima.

No dia 16 de abril (sexta-feira), às 10h, o SEEG Municípios fará um webinar para debater as emissões de gases de efeito estufa na Região Norte. Para participar, clique aqui.

O Norte é campeão na liberação de poluentes na atmosfera quando comparado ao resto do país, revela o levantamento. Em 2018, estima-se que a região emitiu ao menos 625,5 milhões de toneladas brutas de gás carbônico equivalente (CO2e), o equivalente a 31,5% do total nacional. O cálculo leva em conta o CO2 e outros gases de efeito estufa, como o metano (CH4).

O SEEG Municípios alocou as emissões de gases de efeito estufa em todos os 5.570 municípios brasileiros. O estudo cobre todos os anos de 2000 a 2018 e abrange mais de uma centena de fontes de emissões organizadas em cinco categorias: agropecuária, energia, processos industriais, resíduos e mudança de uso da terra.

É a primeira vez que se observa com lupa as emissões no âmbito municipal, de uma só vez, para todo o país. No sul do Pará, por exemplo, destaca-se São Félix do Xingu, município responsável pela emissão de 29,7 milhões de toneladas de CO2e em 2018. Desse total, a alteração no uso da terra responde por 25,4 milhões de toneladas. “É o município que mais emitiu carbono no Brasil em 2018”, informa Bárbara Zimbres, bióloga do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), uma das entidades que participaram do levantamento. 

Baseando-se nesses números, se fosse um país, São Félix do Xingu seria o 111o do mundo em emissões, à frente de Uruguai, Noruega, Chile, Croácia, Costa Rica e Panamá, de acordo com dados do ranking global de emissões do World Resources Institute (WRI), centro de análise de assuntos ambientais com sede nos Estados Unidos.

“O desmatamento se intensificou muito em São Félix do Xingu nas últimas décadas”, afirma Zimbres. Ela explica que a razão disso é a expansão da fronteira agrícola, puxada pelo cultivo de soja, em conjunto com a abertura de pastos para a pecuária.

Não por acaso, São Félix do Xingu também desponta como o maior emissor no setor de agropecuária, com 4,2 milhões de toneladas de CO2e emitidas em 2018. Contribui para esse resultado o fato de que o município paraense contabiliza mais de 2,5 milhões de cabeças de gado – o maior rebanho do país.

“Cerca de 42% das emissões provenientes de atividades agropecuárias têm origem no sistema digestivo do rebanho bovino”, explica Renata Potenza, engenheira florestal do Imaflora, organização responsável por compilar as informações sobre o setor. Durante a chamada fermentação entérica, os animais liberam gás metano via eructação – arrotos, em linguagem coloquial.

“Dentro da agropecuária, a fermentação entérica é o principal emissor em 78% dos municípios da região Norte”, analisa Potenza. Além da adoção de estratégias para melhorar a eficiência da digestão bovina, por meio do balanceamento de alimentos, a engenheira ressalta a importância de ações de remoção de gases da atmosfera.

Nesse aspecto, a região Norte traz boas notícias. Algumas das maiores cidades dos Estados do Pará e Amazonas, onde ainda há grandes extensões de florestas públicas em áreas protegidas, conseguem remover volumes consideráveis de carbono da atmosfera – reduzindo as chamadas emissões líquidas.

O campeão de remoções é Altamira, no Pará, o maior município do país em área. Foram estimadas remoções de mais de 22 milhões de toneladas de CO2e em 2018. Já São Félix do Xingu teve remoções estimadas na ordem de 10 milhões de toneladas de CO2e nesse ano. “Por isso é fundamental desenvolver estratégias municipais de manejo para a criação e manutenção de unidades de conservação e reservas indígenas, que preservam a biodiversidade local e podem barrar o avanço do desmatamento”, comenta Zimbres.

Dos 15 municípios mais emissores na região Norte, Manaus é o único, cujas principais fontes de emissão estão no setor de energia, e não no de mudanças de uso da terra. “A capital amazonense é o maior centro urbano da região e, portanto, onde há maior circulação de veículos automotores para transporte. Além disso usinas termelétricas que queimam combustíveis fósseis operam no município”, diz Felipe Barcellos e Silva, pesquisador do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema).

Em Manaus, a geração de energia nessas usinas é a principal fonte de emissão (49%). Em geral, municípios mais populosos têm no setor de energia sua principal fonte de emissões, devido especialmente ao consumo de combustíveis fósseis (diesel e gasolina principalmente) na atividade de transporte. É o caso das capitais Belém (PA), Porto Velho (RO), Boa Vista (RR) e Macapá (AP).

No tocante às emissões por processos industriais, chama a atenção a preponderância das emissões geradas na produção de cimento no município de Primavera, no Pará. “O uso de combustíveis fósseis em fornos da indústria de cimento se destaca nessa cidade”, pontua Barcellos. Barcarena, no Pará, também se destaca pelas emissões de gases de efeito estufa em processos industriais por ser uma grande produtora de alumínio – cuja fabricação demanda muita energia elétrica.

Cidades grandes e populosas da região Norte também são aquelas onde o tratamento de resíduos é uma fonte de emissões importante – ainda que essa categoria responda por apenas 4% das emissões brutas do Brasil. Manaus, por exemplo, está entre os dez municípios brasileiros que mais emitem poluentes pela disposição final de resíduos sólidos em aterros sanitários, controlados ou lixões.

“Mais da metade das cidades da região Norte tem como principal fonte de emissão no setor de resíduos a disposição final do lixo”, assinala Íris Coluna, engenheira ambiental do ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade.

Para ela, um dos méritos do SEEG Municípios é disponibilizar dados locais para que cada município possa elaborar suas próprias estratégias de redução de emissões. “Primavera é um dos 28 municípios da região Norte onde os efluentes industriais são uma fonte poderosa de poluentes”, diz Coluna. “Ter acesso a essa informação é importante para que cada uma dessas cidades compreenda suas realidades ambientais e enfrente os problemas de maneira mais efetiva.” 

Na visão do engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador-geral do SEEG, o levantamento fornece informações para que gestores municipais e outros atores sociais possam se concentrar na elaboração de planos e políticas públicas.

“Até hoje, menos de 5% dos municípios brasileiros tinham algum inventário de emissões de gases de efeito estufa. Como os dados são disponibilizados de forma aberta e gratuita, significam também uma enorme economia de recursos públicos, que podem ser direcionados em ações para reduzir emissões”, observa Azevedo.

Os dados completos estão disponíveis na plataforma; para conferi-los na íntegra, clique aqui.

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Créditos: Imagem Destaque – Toa55 / Shutterstock