10 livros para ler no inverno

10 livros para ler no inverno

Otimismo, descanso e impacto. Confira uma curadoria com 10 obras de ficção e não ficção que unem o prazer da leitura no inverno a reflexões urgentes sobre o planeta, as estruturas sociais e o futuro da nossa década.

Ficção como laboratório: Como narrativas sobre luto, inteligência artificial e envelhecimento investigam a resiliência humana diante de sistemas em crise.

Sistemas em xeque: Entenda de que maneira obras sobre a Amazônia e o mito da branquitude desmascaram estruturas históricas de desigualdade.

Imaginários éticos: O impacto das perspectivas decoloniais que desafiam a ideia do “fim do mundo” e propõem novas formas de habitar o planeta com dignidade.

Existe um tipo muito específico de otimismo envolvido em escolher os livros que queremos ler durante as férias. Principalmente no inverno, porque poucas coisas combinam tanto com o frio quanto encontrar um lugar quentinho, preparar alguma coisa para beber e abrir um livro sem pressa.

A pessoa olha para os dias livres, calcula o tamanho da mala e conclui que finalmente lerá aquele romance de 500 páginas, dois ensaios sobre a humanidade e, quem sabe, uma obra capaz de alterar para sempre sua relação com o planeta. Depois passa metade da viagem tentando descobrir a senha do Wi-Fi.

Ainda assim, sempre vale a pena colocar um livro na mala (ou baixar uma pequena biblioteca no Kindle).

Não porque as férias precisem se transformar em uma extensão disfarçada da escola ou do trabalho. Muito menos porque todo descanso deva vir acompanhado de uma grande jornada de transformação pessoal. Às vezes, um livro pode ser apenas uma boa companhia para uma tarde em que nada acontece.

Para facilitar sua escolha, reunimos dez livros de ficção e não ficção que passam por temas como cuidado, natureza, desigualdade, memória e inteligência artificial.

Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz

Na sociedade imaginada por Afonso Cruz, tudo possui um valor mensurável. Cada espaço da casa é medido com precisão. Os afetos precisam demonstrar utilidade. Até os pensamentos parecem obrigados a apresentar um relatório de resultados.

É nesse mundo organizado como uma planilha que uma menina pede ao pai um presente bastante inconveniente: um poeta.

As famílias costumam manter artistas como animais de estimação, embora eles ocupem espaço, consumam comida e não produzam nada que possa ser facilmente contabilizado. O poeta escolhido pela menina ainda tem o péssimo hábito de espalhar metáforas pela casa.

Aos poucos, aquele homem sem utilidade aparente começa a bagunçar a lógica da família.

Com uma leitura curta e acessível, “Vamos comprar um poeta” cabe em uma tarde de leitura e ainda rende boas conversas com adolescentes.

Água fresca para as flores, de Valérie Perrin

Violette Toussaint cuida de um cemitério em uma pequena cidade da Borgonha, na França. Abre e fecha os portões, acompanha enterros, cultiva uma horta e oferece café aos visitantes. Algumas pessoas chegam para conversar com os mortos. Outras acabam conversando com ela.

Sua rotina muda quando um policial aparece com um pedido estranho. A mãe dele deixou instruções para que suas cinzas fossem colocadas no túmulo de um homem que ele desconhecia.

A investigação dessa história faz passado e presente começarem a se misturar. E revela que a vida aparentemente pacata de Violette também está assentada sobre perdas que ela aprendeu a carregar em silêncio.

Mas não se deixe enganar, este não é um livro dominado pela morte. É um romance sobre as tarefas discretas que mantêm os vivos de pé: preparar um café, cuidar de um jardim, ouvir uma história que alguém já contou muitas vezes.

É o livro mais longo da lista e pede certa entrega. Em troca, oferece personagens que ficam com a gente mesmo depois da última página.

A cabeça do santo, de Socorro Acioli

Após a morte da mãe, Samuel atravessa a pé o sertão cearense para cumprir os pedidos que ela lhe deixou: acender três velas para os santos de sua devoção e procurar, em Candeia, a avó e o pai que nunca conheceu.

Ao chegar à cidade quase abandonada, ele encontra uma enorme estátua inacabada de Santo Antônio. O corpo está em um lugar; a cabeça, esquecida no chão, em outro. Sem ter onde dormir, Samuel decide se abrigar dentro dela.

É então que começa a ouvir vozes.

São as preces das mulheres que pedem ajuda ao santo casamenteiro. Samuel escuta desejos, promessas, segredos; e percebe que aquela habilidade pode mudar sua vida e movimentar uma cidade que parecia condenada a desaparecer.

Socorro Acioli mistura realismo fantástico, religiosidade popular e humor em uma história de leitura ágil e muito visual. Candeia não aparece apenas como retrato da escassez: é uma cidade habitada por fé, afetos, contradições e pessoas tentando inventar novas possibilidades.

Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro

Klara passa os dias em uma vitrine, observando a rua e esperando que alguém a escolha.

Ela é um Amigo Artificial, espécie de companhia tecnológica criada para crianças e jovens. Enquanto aguarda uma família, tenta compreender o mundo exterior: a trajetória do Sol, os movimentos dos pedestres e os sentimentos humanos, que parecem obedecer a regras muito menos previsíveis do que as suas.

Klara acaba indo morar com Josie, uma adolescente de saúde frágil. Para protegê-la, passa a observar cada silêncio, cada mudança de humor e cada tensão dentro daquela casa.

Há inteligência artificial no livro, mas quase nada da ficção científica barulhenta que costumamos associar ao tema. As grandes questões aparecem em salas, refeições e conversas interrompidas. O futuro de Ishiguro é inquietante justamente porque não parece tão distante.

A certa altura, já não estamos apenas tentando descobrir se Klara consegue sentir. Estamos nos perguntando por que os humanos ao redor dela têm tanta dificuldade de fazer o mesmo.

O Clube do Crime das Quintas-Feiras, de Richard Osman

Toda quinta-feira, quatro moradores de uma comunidade para aposentados se reúnem para investigar crimes antigos que a polícia não conseguiu solucionar.

Elizabeth possui um passado misterioso e muitos contatos. Ibrahim é um psiquiatra atento aos detalhes. Ron foi líder sindical e não perdeu o gosto pelo confronto. Joyce, a integrante mais recente, parece apenas uma senhora simpática. E “parece” é uma palavra importante nessa frase.

Quando um empreiteiro ligado à expansão do lugar onde vivem é assassinado, o clube finalmente recebe um caso fresquinho.

“O Clube do Crime das Quintas-Feiras” é um mistério bem-humorado, de capítulos curtos e personagens que nos fazem ter vontade de frequentar as reuniões – ainda que isso provavelmente envolvesse examinar fotografias de cenas de crime enquanto alguém oferece um pedaço de bolo.

É a leitura mais recreativa da seleção, mas existe algo interessante escondido além da diversão. Os protagonistas passam boa parte do tempo sendo subestimados por causa da idade. Eles sabem disso. E aprenderam a usar essa distração coletiva a seu favor.

O sentido das águas: Histórias do rio Negro, de Drauzio Varella

Chegando às indicações de não ficção, o primeiro livro nos leva à Amazônia. Durante mais de três décadas, Drauzio Varella percorreu bacia do rio Negro e acumulou histórias, paisagens e encontros que agora reúne em “O sentido das águas”.

Há rios tão largos que alteram nossa noção de distância, comunidades que organizam a vida de acordo com as águas e pessoas que desenvolveram maneiras próprias de habitar um território complexo.

Drauzio entra nessa paisagem como médico, viajante e, sobretudo, curioso. Não tenta transformar cada encontro em uma lição instantânea. Ele observa, pergunta e escuta.

A Amazônia que aparece no livro não é um imenso fundo verde à espera de alguém que venha salvá-la. É um lugar habitado, diverso e atravessado por conhecimentos construídos durante gerações.

Em uma época na qual tanta gente fala sobre a floresta sem ouvir quem vive nela, talvez a principal qualidade do livro seja esta: antes de explicar, ele presta atenção.

Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak

Este é um livro pequeno o suficiente para caber em praticamente qualquer mala de mão. O que ocupa muito espaço são as ideias dentro dele.

Resultado de duas conferências e uma entrevista realizadas em Portugal entre 2017 e 2019, o livro reúne reflexões de Ailton Krenak, escritor, filósofo, ambientalista, ativista e liderança indígena do povo Krenak. O autor questiona a ideia de uma humanidade separada da natureza, como se rios, florestas e montanhas fossem apenas o cenário onde nossa espécie desenvolve seus projetos.

Krenak também mostra como certa ideia de progresso tornou aceitável transformar territórios em recursos e pessoas em obstáculos. Se o mundo existe apenas para ser explorado, seu fim parece menos uma tragédia inesperada e mais o resultado de um projeto.

A leitura é breve, mas não exatamente rápida. Algumas ideias pedem uma pausa; outras obrigam a voltar algumas páginas.

Existem livros de 500 páginas que terminam quando chegam ao fim. Este continua acontecendo depois.

O perigo de uma história única, de Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda Ngozi Adichie cresceu na Nigéria lendo livros britânicos e americanos. Por isso, quando começou a escrever suas próprias histórias ainda criança, seus personagens eram brancos, brincavam na neve e comiam maçãs, embora ela nunca tivesse visto neve e comesse mangas.

A lembrança abre caminho para uma reflexão sobre as histórias que aprendemos a reconhecer como universais e aquelas que somos ensinados a enxergar como exceção.

Uma história única não precisa ser completamente falsa para causar estrago. Basta que seja repetida tantas vezes que passe a representar tudo o que sabemos sobre uma pessoa, um país ou um grupo inteiro.

É assim que um continente vira apenas pobreza. Uma comunidade vira apenas violência. Uma pessoa deixa de ter contradições e passa a existir como exemplo de alguma coisa.

Adaptado de uma TED Talk conhecida mundialmente, o livro leva essa reflexão para redações, escolas, organizações e outros espaços onde decisões cotidianas ajudam a definir quais histórias circulam e quais continuam fora do enquadramento.

O pacto da branquitude, de Cida Bento

Quando uma empresa, fundação ou organização permanece majoritariamente branca em seus espaços de poder, costuma surgir uma coleção de explicações convenientes. Faltaram candidatos. Ninguém estava pronto. A escolha foi técnica. Aconteceu sem querer.

Cida Bento desconfia desse acaso tão persistente.

Em “O pacto da branquitude”, a autora analisa como privilégios raciais são preservados dentro das instituições por meio de alianças, critérios supostamente neutros, silêncios e escolhas que raramente se apresentam como racistas.

O foco não está apenas no preconceito declarado. Está nos mecanismos capazes de reproduzir desigualdades mesmo quando quase todos afirmam desejar o contrário.

É a leitura mais analítica desta seleção e, provavelmente, a menos parecida com descanso. Ainda assim, oferece algo valioso: um vocabulário para enxergar estruturas que costumam se esconder atrás da normalidade.

Depois disso, certos “acasos” ficam bem mais difíceis de engolir.

Encantamento, de Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino

Existem formas de permanecer vivo que não cabem na palavra sobrevivência.

É desse ponto que partem Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino. Escrito durante a pandemia, “Encantamento” observa como o processo colonial produz “sobras viventes” e trata pessoas, territórios e saberes como existências descartáveis quando deixam de servir ao sistema.

Os autores propõem o encantamento como resposta. Não no sentido de fugir da realidade ou cobri-la com uma camada de otimismo, mas de reafirmar a vida onde existe um projeto de apagamento.

Isso envolve memória, ancestralidade, natureza, comunidade, festa, criação e tudo aquilo que permite a uma pessoa fazer mais do que resistir ao dia seguinte.

O ensaio é curto, poético e conceitual. Algumas passagens escorrem com facilidade. Outras exigem releitura. É um ótimo livro para fechar nossa lista porque não encerra a conversa. Abre mais algumas.

O que volta conosco

Não existe obrigação de regressar das férias como uma pessoa renovada, com novas convicções, quinze hábitos saudáveis e uma compreensão definitiva dos problemas da humanidade.

Você pode apenas descansar. Pode começar três livros e terminar um. Pode abandonar aquele que todo mundo jurou ser maravilhoso. Pode passar uma tarde inteira lendo e o dia seguinte inteiro sem abrir página alguma.

Livros não precisam justificar sua presença na mala.

Mas, de vez em quando, uma história encontra uma fresta. Depois dela, um cemitério deixa de ser apenas um lugar de morte. Um aposentado deixa de parecer alguém que já encerrou sua participação no mundo. Um rio deixa de ser paisagem. Uma inteligência artificial nos faz desconfiar dos próprios humanos.

A viagem termina, mas as perguntas voltam conosco.

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