Home office ou não, eis a questão! Conseguiremos e queremos trabalhar de casa?

A ideia era não falar sobre pandemia, isolamento social ou “novo normal” no Inova+ de hoje, mas é difícil ignorar o nosso cotidiano. Com as grandes capitais brasileiras permitindo a reabertura de vários serviços, ao mesmo tempo em que experimenta a ascensão do coronavírus (e a China registra 57 casos de Covid-19, em menos de 24 horas, no mercado de Xinfadi, em Pequim), falar sobre outra coisa seria ficar alheio a uma realidade explícita, algo que — particularmente — já havia criticado alguns influenciadores de estarem fazendo, ao publicar o texto “Negação e Aceitação: O coronavírus e a cultura de influenciadores digitais”. Mas eu queria falar de outro aspecto deste cenário, então vamos falar sobre home office.

O que antes era visto como tendência, virou a nova discussão entre empresas e empregados. Ainda que essa discussão esteja sendo feita em um volume bem baixo, arrisco dizer que muito em breve isso deve aumentar. Isso porque existem dois lados de uma mesma moeda, duas realidades que apontam para caminhos opostos. E ambos possuem impactos sociais consideráveis, mas que muitos ainda não perceberam.

Em Manhattan, home office impactaria restaurantes, aluguéis e impostos

Vamos começar falando do lado das empresas. Com o isolamento social se alongando por meses, muitas empresas aprenderam a integrar o trabalho remoto em seus processos. O grande desafio da produtividade foi sobreposto por videochamadas, aplicativos de gestão e equipes mais integradas — ao mesmo tempo em que estão longe fisicamente. Em entrevista para o The New York Times, Diane Ramirez, diretora executiva da Halstead, empresa imobiliária com 32 agências e mais de mil agentes na cidade de Nova York e região, afirmou “é necessário [ter um escritório]?”. Ela completa, “estou pensando muito sobre isso. Olhando para o futuro, as pessoas vão querer entrar nos escritórios?”

No mesmo texto, o jornal afirma que “a empresa de pesquisa Nielsen chegou a uma conclusão semelhante. Mesmo depois que a crise passar, seus 3.000 trabalhadores na cidade não precisam mais permanecer no escritório em tempo integral e podem trabalhar em casa a maior parte da semana.” Segundo o NY Times, “David Kenny, executivo-chefe da Nielsen, disse que a empresa planeja converter seus escritórios em Nova York em espaços de reunião de equipe, onde os trabalhadores se reúnem talvez uma ou duas vezes por semana.”

Times Square vazia durante a pandemia de Covid-19 – Créditos: Por MISHELLA/Shutterstock

Para as empresas, isso significa uma redução considerável nos custos fixos e nos investimentos com escritórios. Já para a ilha, isso significa bem menos pessoas transitando pelas ruas de Manhattan. O problema é que economias inteiras foram moldadas em torno dos escritórios e do fluxo das pessoas. Algo bem semelhante ao que vemos, por exemplo, na zona sul de São Paulo, região que abriga escritórios de algumas das empresas mais importantes do país. No caso americano, existe mais um ponto importante no aspecto econômico: Os impostos imobiliários de Manhattan fornecem cerca de um terço da receita de Nova York e a mudança para o home office poderia significar na queda da receita tributária.

Ainda segundo o artigo do NY Times, “Steven Roth, presidente do Vornado Realty Trust, um dos maiores proprietários comerciais da cidade, disse em uma teleconferência da empresa este mês: ‘Não acreditamos que trabalhar em casa se torne uma tendência que prejudicará a demanda de escritórios e os valores imobiliários. A socialização e colaboração do escritório tradicional é o golden ticket’.” Será mesmo?

No Brasil, o Banco BMG anunciou home office até o início de 2021. Segundo Ana Karina Bortoni Dias, presidente do banco, a produtividade dos funcionários se manteve igual, e em alguns casos até aumentou, durante o período de isolamento social. “Uma das explicações é que o banco se manteve muito próximo dos colaboradores, como sempre foi. Fizemos uma comunicação transparente, nos comprometemos a não demitir ninguém por questões relacionadas à crise e oferecemos todas as ferramentas para que a pessoa mantivesse sua rotina de trabalho em sua casa”.

Assim como outras empresas, logo quando o home office foi adotado, o banco liberou as cadeiras de trabalho para que os funcionários as levassem para casa, proporcionando maior conforto no dia a dia da nova rotina, e substituiu o vale transporte por um valor mensal para auxílio com a conta de internet. A instituição também passou a oferecer aulas de ginástica laboral, de forma gratuita, para os colaboradores. Para 2021, o BMG planeja um esquema híbrido de serviço, que abrangerá tanto a presença física do funcionário no escritório, em dias variados da semana, quanto o trabalho em home office. “Temos que levar em conta as necessidades dos funcionários. Alguns preferem um, dois ou três dias de casa, outros querem comparecer todos os dias”, diz Ana Karina.

Home office: Trabalhar em casa foi uma desilusão para o brasileiro?

Segundo o jornal Valor Econômico, “um levantamento feito com 2 mil profissionais, de diversos estados e gerações, 73% dos trabalhadores, que entraram recentemente no mercado, disseram que prefeririam não trabalhar tempo integral em casa após a Covid-19.“ Ainda segundo a reportagem, “‘o trabalho entrou dentro de casa, invadiu um espaço deles sem que o patrão pagasse a conta de luz’, diz o antropólogo Michel Alcoforado, sócio da Consumoteca [consultoria responsável pela pesquisa].”

Além disso, segundo pesquisa do LinkedIn, o home office deixa os profissionais mais ansiosos e estressados. Dos 2 mil profissionais ouvidos pela pesquisa, 39% dos entrevistados se sentem solitários devido à falta de interação com os colegas de trabalho e 30% afirmam estarem estressados pela ausência de momentos de descontração no trabalho. Publicado pelo G1 Economia, a pesquisa afirma que o home office também tem significado horas extras de trabalho para muitos profissionais. Segundo o estudo, 68% dos entrevistados que estão trabalhando de casa têm trabalhado pelo menos 1 hora a mais por dia e 21% dos profissionais chegam a trabalhar até 4 horas a mais por dia.

Na contramão dos dados acima, de acordo com pesquisa da ISE Business School, após o choque inicial, 80% dos gestores disseram gostar da nova maneira de trabalhar. 51% das empresas que adotaram o trabalho remoto durante a pandemia não tinham como realidade do seu cotidiano o formato e, segundo o UOL Economia, “das empresas que ainda não adotavam o home office, 65% são de controle familiares e de capital nacional. Os outros 35% são multinacionais.”

Mas, afinal, o brasileiro gostou ou não de trabalhar no formato de home office? A resposta está em uma outra pergunta: o que é home office? Nas palavras de Lisiane Lemos, gerente de Novos Negócios do Google e Forbes Under 30, “[o atual formato] é diferente de home office. Estamos trabalhando de casa em tempos de pandemia.” Para Adriana Santana, diretora de recursos humanos da Elanco para Brasil e Cone Sul, o isolamento social tem exigido constante adaptação. “Já trabalhávamos de forma mais flexível na empresa, mas esse é um desafio, porque agora os quatro estão em casa”, disse ela, que é casada e tem dois filhos, de 9 e 10 anos. No LinkedIn não é difícil encontrar pessoas que compartilham desta opinião. Alice Ferman, coordenadora de mídia e web analytics da Fundação Getúlio Vargas, comentou: “Ao meu ver, o que estamos vivendo é um período de exceção, de confinamento forçado. Então, acredito que seja injusto chamarmos essas condições atuais de trabalho de ‘home office’.”

Em resumo, o brasileiro não experimentou o home office de verdade. Ele foi obrigado a trabalhar de casa, ao mesmo tempo em que foi privado do convívio social. O home office ou o trabalho remoto virá neste cenário pós-pandemia, e — sejam positivos ou negativos — os impactos serão maiores do que imaginávamos, pois será mais abrupto do que uma tendência, pois virou uma necessidade.

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