Negação e Aceitação: O coronavírus e a cultura de influenciadores digitais

Em um momento que o Brasil acumula milhares de mortes pelo coronavírus, algumas pessoas parecem sofrer de um luto pela realidade. Uma realidade e um estilo de vida que deixou de existir com a pandemia e os seus efeitos colaterais. Mas para entender melhor a situação, precisamos olhar para o Modelo de Kübler-Ross. Proposto pela psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross e publicado no livro On Death and Dying (“Sobre A morte e o morrer”, em português), publicado em 1969 e traduzido em mais de trinta idiomas, a mente humana passa por cinco estágios ao lidar com a perda, o luto e/ou a tragédia:

  • Negação: “Isto não pode estar acontecendo”;
  • Raiva: “Por que eu? Não é justo”;
  • Negociação: “Deixe-me viver apenas até ver os meus filhos crescerem”;
  • Depressão: “Estou tão triste. Por que devo me preocupar com qualquer coisa?”;
  • Aceitação: “Vai tudo ficar bem” ou “Eu não consigo lutar contra isso, então é melhor me preparar”.

Vale ressaltar que a própria autora observa que os cinco estágios não são lineares e cada pessoa lida com a perda de uma forma. Além disso, no livro On Grief and Grieving: Finding the Meaning of Grief Through the Five Stages of Loss, em co-autoria com David Kessler, Kübler-Ross expandiu seu modelo para incluir qualquer forma de perda pessoal; como a morte de um ente querido, a perda de um emprego (ou renda), o fim de um relacionamento, toxicodependência, reclusão, entre outros.

A negação e o #LookDoDia: Como alguns influenciadores refletem a pandemia no conteúdo das redes sociais

A negação tem sido um dos principais estágios da perda deste estilo de vida. Você provavelmente já ouviu alguém próximo falar “daqui a pouco volta tudo ao normal”. A questão é que, e isso é quase um consenso entre vários especialistas, sejam eles economistas, médicos ou futuristas; existirá um novo normal. São praticamente nulas as chances da sociedade sair sem quaisquer efeitos. Talvez, com a criação de uma vacina, algumas ações cotidianas voltem ao velho normal, mas ainda existirá resquícios do momento pelo qual passamos.

Vamos pegar uma sessão de cinema 3D como exemplo. Não é uma aglomeração de pessoas como um show musical, mas ainda é uma aglomeração. A sala de cinema possui ar-condicionado (algo que já foi validado é que o vírus não fica no ar, mas ele pode ser carregado pelo fluxo do ar). E, por fim, mas não menos importante, existem os óculos 3D. Vamos dizer que o cinema venda metade das cadeiras — para manter uma distância entre as pessoas — e desligue o ar-condicionado, ainda tem o óculos. Você se sentirá confortável em colocar algo no rosto e que, mesmo higienizado, tenha passado pelo manuseio de outras pessoas desconhecidas? Viu como existe um novo normal?

Voltando a negação e aos influenciadores, a grande maioria destes profissionais ganham a vida mostrando seus estilos de vida. Blogueiras de moda, por exemplo, ganham a vida mostrando glamour, riqueza, closets, penteados, festas de luxo e viagens pelo mundo. Em tempo de quarentena, festas e viagens não existem. E, enquanto muitos lutam por um auxílio emergencial do governo, ainda é válido ostentar riqueza, closets e penteados? A resposta de alguns influenciadores é sim. Não culpo elas, esse é o ganha-pão delas, mas faz sentido esse estilo de vida como oferta de conteúdo? Segundo o comunicólogo e consultor em moda Jackson Araújo, em entrevista para o site UOL Universa, “a primeira leitura que faço quando vejo essas imagens é de completo anacronismo”. Ele continua, “nesse mundo que se configura com isolamento social, a distância, a solidão doméstica e o medo de perder fontes de renda como efeitos cascata da pandemia são fatores que não parecem estar sendo levados em conta por elas. Estão tomadas de pânico de perder o status quo conquistados por likes“.

Sem contar que, nós bem sabemos, o piquenique de luxo da Camila Coelho, com cachos de uva e produção hollywoodiana, ou o banho de sol da paulista Camila Quintão, vestindo suas sandálias Valentino, são apenas uma forma de conteúdo digital (ou será que sandálias de salto são confortáveis em casa?). Não representam o cotidiano, muito menos uma conexão com grande parte dos milhões de seguidores. É o estado de negação da realidade. O já conhecido “vamos seguir fazendo aquilo que sabemos, que logo tudo volta ao normal”. Mas isso não é exclusividade dos “influenciadores” brasileiros. Tanto que, há pouco mais de um mês, a Wired publicou o texto Could the Coronavirus Kill Influencer Culture? (“O coronavírus poderá matar a cultura de influenciadores [digitais]?”, em tradução livre), que questiona a influência dos famosos do Instagram no meio da pandemia.

Vale ressaltar que os exemplos acima não estão fazendo nada de errado. É mais um questionamento em torno de empatia e negação da realidade, do que apontar o dedo para suas atitudes. Coelho e Quintão estão longe de serem como Gabriela Pugliesi, a influenciadora fitness que foi diagnosticada com a Covid-19 depois da festa de casamento da irmã (diga-se de passagem, festa de casamento que foi responsável por diversos casos confirmados); deu entrevista para o Fantástico, da Rede Globo, falando como era ruim os efeitos do vírus e, semanas depois, promoveu uma festa com amigos em casa. Festa que, segundo o portal F5, da Folha de S. Paulo, pode ter custado R$ 3 milhões em contratos para “musa fitness”.

A aceitação e o caso Chiara Ferragni: Mais de € 4.4 milhões em doações

Enquanto brasileiros e americanos sofrem de negação, os italianos sentiram o amargo gosto de subestimar a Covid-19. Até o fechamento deste texto, o país contabilizava 219.070 casos confirmados e 30.560 mortes. Foi no ápice deste cenário que a influenciadora italiana Chiara Ferragni (@chiaraferragni) e seu marido, o rapper italiano Fedez, iniciaram uma campanha de arrecadação de fundos para o hospital San Raffaele, de Milão. Iniciada no dia 09 de março, com uma doação de € 100.000 do casal, a campanha arrecadou € 3 milhões em 48 horas e, passado dois meses, acumula quase € 4.5 milhões.

Apesar de ter mais do que o dobro de seguidores que suas colegas de profissão brasileiras (atualmente Chiara possui 19.9 milhões de seguidores), a italiana mostra que é possível fazer conteúdo deixando de lado a ostentação. Considerada pela Forbes uma das principais influenciadoras de moda do mundo, Chiara não se preocupa em parecer “normal” em suas redes sociais. Enquanto as fotos das brasileiras são milimetricamente pensadas, o conteúdo da italiana reúne de tudo um pouco, humanizando a personalidade intangível. Além disso, outro ponto que chama atenção são as máscaras de proteção. É possível ver fotos e vídeos em que Chiara usa a máscara. Já no perfil das brasileiras, elas são totalmente ausentes, afinal, é difícil mostrar a maquiagem ou construir o #LookDoDia com um item que não faz parte do cotidiano. Talvez seja comum no novo cotidiano, mas não no antigo, onde muitos influenciadores digitais se negam em abandonar e agarram com unhas e dentes, esperando que ele volte, para que possam seguir o mesmo estilo de vida.

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