Qual a efetividade das aceleradoras para o impacto social no Brasil?

Qual a efetividade das aceleradoras para o impacto social no Brasil?

A Move Social, empresa especialista em avaliações de impacto socioambiental, apresentou recentemente os resultados do estudo Avaliação da Efetividade de Aceleradoras de Impacto, realizado entre 2020 e 2021. Em quase um ano de trabalho, o projeto contemplou a participação de 11 organizações intermediárias (aceleradoras) e 73 negócios de impacto e organizações da sociedade civil (OSCs) que foram “aceleradas” pelas parceiras.

“Nosso interesse foi investigar em que medida organizações intermediárias (aceleradoras) contribuem com o fortalecimento de negócios e OSCs e alavancam impactos sociais e ambientais positivos. A partir disso, elaboramos uma abordagem inédita para compreender a efetividade dessas iniciativas no fortalecimento de organizações e na produção de impacto positivo nas pessoas e no planeta. A inovação está em conhecer estas mudanças a partir da perspectiva das organizações aceleradas, o que compõe um universo diverso de áreas de atuação, públicos priorizados e temas de impacto”, explica Daniel Brandão, sócio-consultor da Move Social e idealizador do estudo.

O crescimento exponencial de negócios de impacto socioambiental no Brasil veio acompanhado de uma onda de iniciativas de aceleração destinadas a qualificar produtos e serviços oferecidos, bem como desenvolver organizações (incluindo as da sociedade civil) e contribuir com os impactos pretendidos. Estas organizações intermediárias dedicadas à aceleração passaram a ser parte integral e relevante do ecossistema de impacto no Brasil, facilitando o amadurecimento de ideias, a articulação de redes e – para o impact investing – se constituindo como elo determinante para o fluxo de investimentos.

Ouça aqui nosso podcast sobre métricas do impacto social

Reconhecida a relevância destas organizações para o ecossistema e a maturidade já estabelecida no contexto brasileiro, torna-se necessário – para aprimorar ainda mais o papel que exercem – conduzir estudos que investiguem os avanços que foram capazes de produzir, bem como os pontos que precisam de atenção e ajuste em suas estratégias. A esta ambição associa-se a motivação de contribuir com o debate sobre métricas e abordagens avaliativas para este setor, aspecto reconhecido como um desafio para diversas organizações.

Entrevistas, revisão de literatura e atenção a padrões internacionais – com destaque ao Impact Management Project – permitiram à Move Social: a estruturação de uma Teoria de Mudança da atuação de organizações intermediárias (aceleradoras), a produção de um catálogo de métricas, um instrumento de coleta de informações e a elaboração de relatório que consolida os dados coletados.

Painel de estudos

A partir dos estudos apresentados num webinar realizado no dia 24 de junho, que teve mediação de Fernanda Bombardi (gerente executiva do ICE) e participações de Abigayle Davidson (pesquisadora sênior da ANDE) e Maure Pessanha (diretora-executiva da Artemisia), Daniel Brandão sinteza:

  1. As acelerações têm sido efetivas para fortalecer negócios, como observado pelos estudos apresentados – Global Accelerator Learning Initiative (GALI – ANDE), Move Social e pesquisa CDE para a Artemisia.
  2. Não existem fatores organizacionais que ampliem a efetividade das acelerações. Entretanto, segundo o GALI, o fortalecimento é experimentado de maneira desigual entre as organizações, sendo que aquelas que têm mais recursos financeiros tiveram maior capacidade de crescimento.
  3. É desafiador traçar o perfil de uma aceleração ideal ou super eficiente, mas o GALI destaca as características que colaboram para ampliar o impacto de acelerações.
  4. A percepção das organizações é que produzem impacto longevo, estruturado mas não sustentável. Esta percepção considera diferentes concepções e formas de medir impacto. Se reconhece a contribuição das aceleradoras para esta geração de transformações positivas para as pessoas e o planeta.
  5. Há inquietações debatidas sobre o desafio de financiamento e a real capacidade de acelerações em gerar pipelines de negócios robustos. Debateu-se que estamos focados no modelo de Venture Capital e isso pode limitar os caminhos de financiamento de negócios. Investir nas agendas de blended finance, crowdfunding e outros mecanismos parece ser relevante. Isso em si é um debate que precisa ser aprofundado em novos encontros e até estudos.
  6. As aceleradoras têm cumprido um papel relevante na sociedade e existe demanda para ampliar seu trabalho. Atuar para fortalecer a escala e a qualidade de ação dessas organizações dinamizadoras é estratégico para o ecossistema.

Metodologia do projeto

A principal premissa foi a viabilidade do estudo da Move Social. Neste sentido, adotou-se uma abordagem não experimental ancorada em três técnicas de pesquisa. A primeira foi a revisão de literatura para informar sobre resultados de estudos semelhantes, conceitos básicos e indicadores que poderiam ser adotados, instrumentos de coleta de dados já testados e conclusões defendidas por outros autores e autoras.

Informada por referências bibliográficas, a avaliação buscou conhecer o comportamento dos programas de aceleração, por meio de entrevistas semiestruturadas com gestores destes programas.

A terceira e fundamental etapa do estudo foi a coleta de dados junto a negócios e organizações da sociedade civil que participaram de programas de aceleração empreendidos pelas aceleradoras parceiras no ano de 2019.

A estrutura do estudo foi definida antes da pandemia do COVID-19 e adaptações foram necessárias no curso do trabalho, principalmente relacionadas com a ampliação do tempo de coleta de dados. Entretanto, os impactos específicos desta pandemia na dinâmica organizacional não foram incorporados no escopo da avaliação.

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Créditos: Imagem Destaque – Love the wind