Lives, QR Code e outras soluções para o “novo” cotidiano

A quarentena tem servido como aprendizado para alguns pontos bem interessantes, principalmente no campo da filantropia e das “tecnologias deixadas de lado”. Começando pelas ações sociais, o mundo aprendeu que dá para arrecadar doações sem ter que fazer um telethon (estou falando da maratona televisiva idealizada por Milton Berle, não pelo Homem do Baú — se você assistiu à segunda temporada de The Marvelous Mrs. Maisel, sabe o que estou falando). Muito mais do que isso, dá para doar com apenas um clique e sem ter que ligar para algum número específico.

Já para as marcas, o formato de live filantrópica tem servido como oportunidade para se vincular a um artista ou outro. A Casas Bahia, por exemplo, via Fundação Casas Bahia, promoveu um show da dupla Sandy & Junior, via YouTube, onde foram arrecadados: Mais de mil toneladas de alimentos (320 doadas pelo público via PicPay); 5 mil máscaras para profissionais da saúde; 1 milhão de testes rápidos para Covid-19; R$ 500 mil para a Central Única das Favelas (CUFA) e 5 toneladas de ovos. Também via YouTube, mas na noite anterior (20), a live do projeto “Amigos” (com shows de Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Leonardo) arrecadou mais de R$ 1.7 milhão, valor destinado ao Hospital do Amor de Barretos e ao projeto Amigos do Bem.

Em escala global, o festival “One World: Together at Home” (“Um Mundo: Juntos em Casa”, em tradução livre), idealizado pela cantora Lady Gaga, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), conseguiu arrecadar US$ 127.9 milhões. Em vídeos gravados e sem sair de casa, artistas como os veteranos Elton John, Rolling Stones e Green Day dividiram espaço na programação com talentos mais novos como Billie Eilish, Taylor Swift, Camila Cabello e Shawn Mendes. Além de ser transmitido via YouTube, diversos canais pelo mundo fizeram transmissões com traduções simultâneas (no Brasil, o canal Multishow dedicou horas ininterruptas para a transmissão).

Para alguns, o Together at Home foi chamado de Live Aid da nova geração. Apesar de números bem menores — o show de 1985, que contou com artistas como Queen e David Bowie, é considerada uma das maiores transmissões de todos os tempos, com quase 2 bilhões de telespectadores em mais de 100 países, além de arrecadar 40 milhões de libras na época —, o valor arrecadado pelo evento do último dia 18 é bem substancial e longe de ser considerado um fiasco.

QR Code, NFC e Crowdfunding: As tecnologias que ganharam um fôlego

O QR Code é uma tecnologia do final da década de 90, mas até os últimos anos era utilizado apenas em ações pontuais, a grande maioria era pouco conhecida pelo grande público. De alguns meses para cá, o QR Code virou o queridinho das transmissões, tanto que tem se tornado comum ver alguém falando “aponte o celular para o QR Code no canto da tela.”

Canais como Globo e Globonews têm uma parcela de “culpa” nesta popularização. A rede tem usado o QR Code como solução para divulgar conteúdos digitais e, indiretamente, tem educado uma grande parcela do público. Nas lives filantrópicas, o QR Code no canto da tela substitui a necessidade do apresentador ficar lembrando o canal para doações. Além disso, na grande maioria, feitas para um público mais jovem, as lives permitem que o QR Code seja um elemento natural e sua presença constante seja algo normal. Unido as fintechs, acabam se tornando numa solução simples e direta para quem quer doar.

Outra solução que vinha caminhando lentamente era o crowdfunding. Apesar de ser um importante modelo para financiamento coletivo, as plataformas acumulavam a dúvida do público geral (não é novidade encontrar projetos que financiaram projetos, mas nunca entregaram) e — principalmente no Brasil  — sofria com a falta de oferta por projetos com apelos que extrapolam alguns nichos. Com a necessidade de doações, as plataformas de financiamento viram uma oportunidade de impulsionar o impacto, principalmente de questões sociais relacionadas ao combate da Covid-19. A Benfeitoria, por exemplo, criou a iniciativa Enfrente, um fundo colaborativo composto pela Fundação Tide Setubal e parceiros (com capacidade de aportar mais de R$ 4 milhões), que multiplica o valor do apoio de algumas iniciativas selecionadas.

A Acreditar, organização social do interior de Pernambuco, é uma das selecionadas no fundo. O projeto de financiamento busca arrecadar R$ 23.500 para manter a organização durante 3 meses, fornecendo cestas básicas e assessoria a mais de 300 micronegócios da região. Para quem quiser conhecer mais sobre a iniciativa, o InovaSocial já produziu um podcast sobre a ONG e a sua relação com o microcrédito e o empoderamento feminino – Ouça no player abaixo o episódio 45.

Por fim, outra tecnologia que ainda estava “travada”, mas que a pandemia deve impulsionar é o NFC. Velho conhecido de crachás e do Bilhete Único, a solução usada no pagamento sem contato (contactless) engatinhava no comércio tradicional — apesar dos esforços de empresas como Apple e Samsung —, mas tem sido incentivada no delivery, a fim de evitar o contato dos consumidores com a máquina de débito/crédito.

Seja pelas doações via QR Code, as transmissões filantrópicas de artistas famosos, impulsionando o crowdfunding e/ou incentivando o pagamento sem contato, uma coisa é certeza, a pandemia tem nos servido como aprendizado em vários níveis e, antes de acabar, vale sempre lembrar… #FiqueEmCasa!

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