Como usar inteligência artificial no terceiro setor com segurança

Como usar inteligência artificial no terceiro setor com segurança

A inteligência artificial pode reduzir tarefas administrativas e liberar tempo no terceiro setor, mas seu uso exige critérios, revisão humana e cuidados com dados, decisões e relações de confiança. No artigo a seguir, você vai ler sobre:

Como a inteligência artificial pode aliviar tarefas administrativas, de comunicação, captação e prestação de contas.

Quais atividades podem receber apoio tecnológico e quais precisam permanecer sob responsabilidade humana.

Que cuidados ajudam organizações sociais a adotar IA sem expor dados, relações ou comunidades.

São 22h47. A planilha ainda está aberta. O edital vence no dia seguinte. Uma pessoa tenta transformar a ata da última reunião em relatório de atividades. Outra revisa o orçamento. No WhatsApp, chegam fotos de uma oficina realizada no sábado, a dúvida de uma voluntária, o áudio de uma liderança comunitária e a mensagem que ninguém queria receber naquele horário: “vocês conseguem mandar uma versão resumida para o financiador ainda hoje?”.

Se você faz parte de uma organização do terceiro setor ou de um negócio de impacto, provavelmente se identificou com alguma parte dessa cena (ou com ela por completo).

O trabalho social acontece em duas frentes simultâneas: uma tem o território, a escuta, o cuidado, a articulação comunitária e a presença; e tem também o bastidor que sustenta tudo isso: editais, relatórios, indicadores, notas fiscais, listas de presença, reuniões, textos para redes sociais e prestações de contas.

E é justamente nesse bastidor onde a inteligência artificial (IA) encontra espaço. Ela pode reduzir tarefas repetitivas, organizar informações dispersas e acelerar etapas operacionais. Para equipes pequenas, algumas horas poupadas por semana podem significar uma atividade mais bem preparada, uma resposta mais cuidadosa ou uma noite sem expediente estendido.

Mas esse ganho vem com limites. E, antes de tudo, é importante ter em mente que quanto mais sensível for a tarefa, menor deve ser a autonomia da ferramenta.

A IA chega pelo cansaço

Antes da tecnologia, existe a sobrecarga.

Profissionais do terceiro setor acumulam funções, trabalham com recursos limitados e convivem com a urgência das causas que defendem. Uma mesma pessoa pode cuidar da captação, da comunicação, dos indicadores e de parte da atuação em campo. Cada financiador pede um modelo de relatório. Cada edital exige anexos, formulários e comprovações diferentes.

Nesse ambiente, a IA ajuda a sair da página em branco, reorganiza materiais já existentes e reduz parte do trabalho mecânico. Aqui, o benefício aparece quando a tecnologia processa informações sem assumir decisões que exigem experiência, contexto e responsabilidade ética.

A adoção costuma começar de maneira informal. Uma pessoa usa uma ferramenta gratuita para resumir um documento. Outra recorre a uma conta pessoal para revisar uma proposta. Um voluntário cola a transcrição de uma reunião em uma conversa com o ChatGPT ou no Gemini. Em pouco tempo, a organização já utiliza IA, embora nunca tenha discutido quais dados podem ser compartilhados ou quem deve revisar as respostas.

E isso cria novos riscos, porque a ferramenta pode inventar informações, reproduzir vieses, gerar textos genéricos e expor dados sensíveis.

Onde a IA pode ajudar

Os melhores resultados aparecem em tarefas específicas, com materiais fornecidos pela própria organização. A IA funciona melhor como ferramenta de transformação do que como fonte autônoma de conhecimento sobre uma comunidade.

Entre os usos mais práticos estão:

Editais e captação

resumir chamadas, destacar prazos e critérios de elegibilidade, comparar requisitos e apontar lacunas em propostas.

Relatórios e prestação de contas

organizar capítulos, criar sumários executivos, revisar coerência e adaptar a mesma base a formatos diferentes.

Reuniões e gestão interna

transformar transcrições em atas, encaminhamentos, responsáveis e prazos.

Comunicação

desdobrar um relatório em newsletter, post, apresentação, roteiro de vídeo ou atualização para doadores.

Pesquisa e repertório

sintetizar documentos, comparar metodologias e preparar perguntas para entrevistas ou diagnósticos.

Memória institucional

transformar explicações orais em manuais e registrar processos que poderiam se perder com a saída de integrantes.

Essas aplicações partem de conhecimento humano já produzido. A ferramenta resume, compara, organiza ou adapta. Ela não precisa inventar a experiência da organização nem ocupar o lugar de quem conhece o território.

Um relatório de campo, por exemplo, pode gerar três entregas: uma versão curta para o conselho, outra para financiadores e uma terceira para comunicação pública. O conteúdo central continua sendo da equipe. Enquanto isso, a IA ajuda na mudança de formato.

O mesmo vale para editais. A ferramenta pode extrair datas, documentos obrigatórios e critérios de seleção de uma chamada extensa. Mas a decisão de concorrer continua dependendo de análise humana: alinhamento com a missão, viabilidade do orçamento, capacidade de execução e pertinência das contrapartidas.

A qualidade da matéria-prima faz diferença. Sem um contexto, a IA tende a produzir frases vagas, promessas grandiosas e uma linguagem que poderia pertencer a qualquer instituição. O texto pode estar correto e ainda assim não dizer nada.

Informações verificadas, exemplos concretos, público definido, limites claros e voz institucional ajudam a evitar esse efeito; além de também reduzirem o risco de transformar a revisão em uma reconstrução completa.

O que precisa continuar humano

A confiança é um dos principais patrimônios de uma organização social. Qualquer promessa de ganho de produtividade perde valor quando vem acompanhada de uma ameaça a essa relação.

Uma ferramenta pode resumir uma reunião comunitária, desde que o registro seja autorizado e os dados estejam protegidos. Mas ela pode substituir a presença de quem escuta.

Pode organizar indicadores. Mas não deve decidir sozinha se uma iniciativa teve impacto.

Pode apoiar a triagem de informações. Mas definir quem receberá uma bolsa, um atendimento prioritário ou um recurso emergencial é algo totalmente fora de cogitação.

O trabalho social depende de elementos que raramente aparecem por inteiro em formulários. Um silêncio pode indicar medo. Uma resposta curta pode esconder uma situação de violência. Uma liderança reconhecida pode representar parte do território, mas não toda a comunidade. Um indicador positivo pode conviver com consequências percebidas apenas em uma conversa presencial.

Escuta comunitária, mediação cultural, acolhimento de denúncias e decisões sobre benefícios precisam permanecer sob responsabilidade direta de pessoas. O mesmo vale para situações de violência, luto ou crise de saúde mental, para a interpretação de conflitos e para a validação final de avaliações de impacto.

A IA pode oferecer apoio técnico nessas áreas, desde que sua participação seja limitada, documentada e compreensível para a equipe.

Em uma denúncia, pode ajudar a organizar registros. Em uma avaliação, pode comparar resultados e identificar padrões. A resposta, o encaminhamento e o julgamento final exigem preparo humano e responsabilidade institucional.

Delegar essas decisões integralmente a um sistema reduziria uma realidade complexa ao que foi possível registrar em dados.

O risco cabe na palma da mão

O celular vibra com uma mensagem da família e, logo abaixo, aparece a foto da oficina de sábado; na sequência, o aplicativo do banco, uma planilha com nomes de pessoas atendidas e um áudio de quatro minutos em que alguém conta uma história que provavelmente não gostaria de ver circulando por aí.

Está tudo no mesmo aparelho.

Em muitas organizações sociais brasileiras, o telefone usado para trabalhar não pertence à instituição. É da coordenadora, do educador, da voluntária, de quem conseguiu instalar mais um aplicativo sem apagar as fotos do aniversário da sobrinha.

A pesquisa TIC Organizações Sem Fins Lucrativos coloca números nessa cena. Em 2022, 82% das organizações brasileiras do terceiro setor usavam internet, acima dos 71% registrados em 2016. O avanço não alcançou todo mundo: 18% das entidades continuavam desconectadas, principalmente entre as menores e aquelas que atuavam no desenvolvimento e na defesa de direitos.

Nas organizações conectadas, o celular estava presente em 89% delas. O detalhe mais revelador aparece quando se olha para o dono do aparelho: em 76% dos casos, o telefone pertencia a funcionários ou voluntários, não à instituição. A infraestrutura digital de uma organização inteira, muitas vezes, cabe literalmente no bolso de alguém.

É por esse mesmo aparelho que chegam os documentos, os pedidos urgentes, as fotografias, as listas de presença e os relatos de atendimento. Também é nele que alguém abre uma ferramenta de inteligência artificial para tentar ganhar meia hora no expediente.

A cena parece até inofensiva. Uma pessoa precisa resumir dez histórias para o relatório de um financiador. Copia os relatos, abre o chatbot e pede uma síntese. Em poucos segundos, recebe um texto organizado, com introdução, conclusão e palavras que parecem ter saído de uma reunião de planejamento estratégico.

Só que, junto com o texto, podem ter sido enviados nomes, endereços, diagnósticos, detalhes familiares e relatos de violência. Informações entregues à organização em uma relação de confiança passam a circular em uma plataforma que a equipe talvez nem saiba como armazena ou utiliza aqueles dados.

É uma exposição sem barulho. Não há pasta esquecida no ônibus nem computador roubado. Há apenas um comando digitado com boa intenção.

A LGPD oferece proteção especial a informações sobre saúde, origem racial ou étnica, religião, opinião política, vida sexual, biometria e outros dados sensíveis. No terceiro setor, esse conteúdo não vive apenas em grandes sistemas. Está no formulário de inscrição, no áudio do WhatsApp, na fotografia da atividade, no prontuário, na planilha e na história usada para explicar a importância de um projeto.

Apagar o nome antes de enviar o texto também pode não resolver. Uma mulher de determinada idade, moradora de um bairro pequeno, com uma condição de saúde específica e uma composição familiar incomum talvez continue facilmente identificável. Às vezes, o nome é justamente a informação menos reveladora da história.

Por isso, uma regra precisa ser curta o bastante para ser lembrada no meio da correria: dados identificáveis e histórias de vida não entram em ferramentas públicas de IA.

Quando o uso da tecnologia for necessário, a equipe precisa retirar informações pessoais, avaliar se a ferramenta é adequada, limitar quem terá acesso ao material e definir quem fará a revisão. Não basta confiar que o sistema “sabe lidar” com informações sensíveis. Sistemas não assumem a responsabilidade quando alguma coisa dá errado.

O risco cabe na palma da mão porque o trabalho também cabe. A diferença está nos limites que a organização estabelece antes que a pressa transforme uma tentativa de economizar tempo em uma quebra de confiança.

Como começar com segurança

Governança não precisa virar um manual de 40 páginas. Para uma organização pequena, uma página de orientações claras pode ser mais útil do que um documento que ninguém consulta.

Um ponto de partida pode reunir:

  • Ferramentas autorizadas e finalidades permitidas;
  • Tipos de dados que nunca devem ser inseridos;
  • Responsáveis pela revisão de cada material;
  • Tarefas que exigem supervisão reforçada ou não podem ser automatizadas;
  • Comandos padronizados para atividades recorrentes;
  • Procedimentos para registrar erros, incidentes e aprendizados;
  • Situações em que o uso de IA deve ser informado a parceiros, financiadores ou comunidades.

Uma biblioteca interna de comandos ajuda a reduzir o improviso. A equipe pode criar modelos para resumir editais, organizar atas, revisar propostas e adaptar relatórios. Cada instrução deve pedir que a ferramenta preserve o sentido original, não invente informações e sinalize pontos que precisam de confirmação.

A revisão humana continua indispensável. Esse cuidado também protege a voz institucional e evita que erros automáticos ganhem aparência de informação confiável. A IA pode sugerir, estruturar e acelerar. A responsabilidade pelo conteúdo, pela decisão e pelo tratamento dos dados permanece com a organização.

A equipe das 22h47 talvez consiga fechar a planilha mais cedo. A ata pode chegar organizada. O edital pode ser lido com menos pressa. O relatório pode começar por um rascunho consistente, em vez de uma página vazia.

O tempo liberado não precisa se transformar em outra camada de demandas. Pode voltar para o território, para o planejamento, para o descanso e para as conversas que exigem atenção verdadeira.

A tecnologia cumpre melhor seu papel quando assume parte do peso do bastidor e preserva, no centro do trabalho social, quem escuta, decide e cuida.

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