Poluição do ar e o que aprendemos com a quarentena

Vou começar este texto com uma afirmação que parece, até certo ponto, bem óbvia. A diminuição da poluição do ar tem melhorado a saúde das pessoas, principalmente aquelas que sofrem com alguma doença crônica; como asma ou rinite. Eu sei disso porque sinto na pele, sou uma dessas pessoas. Além de sentir, consigo observar. A poluição de São Paulo, assim como em outras tantas super metrópoles, é quase palpável. Dá para observar no horizonte. Olhando da janela do meu home office, no décimo sexto andar, apelidei “carinhosamente” a mancha de poluição no horizonte de “Grande Algodão Cinza de Poluição.” A imagem panorâmica abaixo mostra bem essa mancha.

Poluição do ar e o que aprendemos com a quarentena

No entanto, desde que o isolamento social começou, a poluição — não só de São Paulo; já falamos sobre o cenário chinês no texto “Covid-19: Primeiros casos no Brasil e emissões de CO2 na China” — tem caído consideravelmente. Segundo a Agência Brasil, em publicação do dia 30 de março, “desde o dia 20 de março, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) tem registrado, em todas as 29 estações de monitoramento da região, qualidade do ar boa para os poluentes primários, que são emitidos diretamente pelas fontes poluidoras.” Ainda de acordo com a Cetesb, enquanto escrevia este texto, apenas duas unidades de monitoramento apresentavam condições moderada ou ruim, respectivamente, em Osasco e Cubatão. Esta última, diga-se de passagem (para quem não conhece), possui um grande parque industrial e já foi chamada de “Vale da Morte” na década de 80, quando foi considerada pela ONU como a “cidade mais poluída do mundo”.

Ainda na primeira semana de quarentena, a poluição em São Paulo diminuiu 50% e o índice de poluentes que desencadeiam doenças respiratórias também diminuiu cerca de 30% durante o período. Em declaração para o portal G1, Maria de Fátima Andrade, professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG – USP), comparou os períodos de 15 a 21 de março e 22 a 28 de março. “Esse céu mais limpo que pode ser notado em São Paulo já no início da quarentena é resultado da redução na circulação de veículos, a principal fonte de emissão de poluentes na cidade”, afirma a pesquisadora. Sobre essa poluição visível, no dia 07 de abril, eu registrei — em uma série de 3 fotografias — detalhes desta redução da poluição. Com uma câmera fotográfica, consegui captar o Farol Santander, prédio ícone de São Paulo e que, em linha reta, está a mais de 6km de distância da minha posição (veja abaixo).

 
 
 
 
 
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Uma Nikon D90, uma lente 18-105mm e um horizonte sem poluição. O resultado é uma foto do @farolsantandersp direto da zona leste de São Paulo. #fotografia #saopaulo #city #quarentena #zoom

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Voltando aos efeitos da poluição, nos EUA, depois que quatro usinas a carvão em Louisville, no Kentucky, retiraram o uso do carvão ou foram modernizadas com rígidos controles de emissões, as hospitalizações locais relacionadas à asma caíram e os indivíduos até usaram seus inaladores com menos frequência – mostrando como uma queda abrupta nas emissões relacionadas ao carvão podem impactar na saúde das pessoas. As descobertas vêm de um estudo, publicado na Nature Energy, desenvolvido pela Universidade de Columbia, Harvard, Departamento de Saúde Pública e Bem-Estar do Metrô de Louisville, Propeller Health e outros parceiros.

Onde quero chegar com toda essa informação? Será que, mesmo depois desta amostra (de como a natureza pode se recuperar, como a diminuição da poluição pode nos afetar e tudo mais) vamos voltar a persistir no “erro”? Não está na hora de olharmos para o futuro — agora de verdade — e aproveitarmos os aprendizados dessa quarentena para remodelarmos o futuro? Nós, brasileiros, ao contrário de alguns países, não vamos aprender algo de bom com este momento tão difícil e evitar que a poluição do ar atinja condições extremas? Em novembro de 2019, publicamos no InovaSocial, o texto “Poluição do ar: Vulcões, o estado de emergência em Nova Délhi e o transporte público na Suécia”, onde mostramos o cenário de Nova Délhi, na Índia, que — na época da publicação — teve escolas fechadas, voos cancelados e rodízio extremo de veículos devido a poluição do ar.

Falamos tanto em futuro e cenários pós Covid-19, será que este não é o momento para repensarmos a forma como vivemos, consumimos e poluímos o planeta, para que possamos melhor o bem estar não só das futuras gerações, mas também da atual? Caso queira aprofundar mais na discussão sobre poluição, já publicamos alguns textos aqui no InovaSocial. Abaixo uma lista de algumas referências.

Imagem Destaque: estudio Maia/Shutterstock

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