O distanciamento social no transporte público é impossível

Tenho acompanhado o drama diário das pessoas nos transportes públicos de São Paulo. Sei que sou privilegiado, pois hoje não preciso mais sair de casa e me locomover quilômetros de metrô e ônibus, mas nem todos são assim (aliás, a maioria não tem esse privilégio). Como passageiro, conheço muito bem este cenário. Além de morar ao lado de uma das principais estações de metrô da cidade, com um terminal de ônibus responsável por um grande volume de passageiros, não tenho CNH ou automóvel, ou seja, minha única alternativa era o transporte público. É neste ponto que iniciamos nossa conversa sobre mobilidade urbana.

De acordo com site da prefeitura de São Paulo, com dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e o Metrô, em 2018, somavam mais de 7.8 milhões de usuários diários. Para efeito de comparação, o The Guardian publicou em maio a matéria intitulada “O que aconteceria se os londrinos tentassem voltar ao normal em um metrô socialmente distanciado?”, onde falava que seria impossível executar o distanciamento no transporte sobre trilhos da cidade. Só existe um detalhe: Segundo o jornal, em um dia agitado, Londres transporta “apenas” 4 milhões de passageiros pelas linhas de metrô.

Não vamos levar em conta que a malha férrea do metrô de Londres é muito maior do que a de São Paulo (veja o comparativo abaixo), ou que o número de passageiros seja quase a metade. Vamos olhar para o exemplo londrino e tentar imaginar um cenário para a capital paulista. Segundo o The Guardian, na estação Clapham North, cerca de 1.005 pessoas utilizam o metrô entre as 8 e 9 horas de um dia normal. Com as novas regras de distanciamento social, apenas 10% por trem (segundo o jornal, apenas 4 das 42 pessoas embarcariam por veículo). O resultado seria uma filha de 1.8 km — levando em conta 2 metros de distância entre cada pessoa na fila. Ainda segundo o The Guardian, a fila seria quase que a distância entre três estações; Clapham North, Clapham Commom e Clapham South.

Caso você queira experimentar o desafio de administrar e projetar a malha metroviária de São Paulo, Londres ou Seul, sugiro que experimente o game Mini Metro (veja o vídeo abaixo), disponível para Android, iOS e Steam.

Agora vamos voltar ao Brasil, mais precisamente a São Paulo. Na semana passada (8), o prefeito Bruno Covas afirmou que “o secretário [de transportes, Edson Caram] tem até sexta (12) para conseguir fazer isso [que os ônibus não tenham pessoas em pé]. Se até sexta ele não conseguir fazer isso, a partir de segunda é outro secretário que vai tentar fazer”. Covas não precisou esperar nem até segunda, na sexta-feira o secretário apresentou o seu pedido de exoneração. A capital paulista tem um dos maiores sistemas de transporte coletivo do mundo; com 14.500 ônibus, 1.300 linhas, 200 mil viagens nos dias úteis e 20 mil pontos de paradas. Veja bem, o ultimato de Covas era relacionado ao distanciamento social nos ônibus, o Metrô e a CPTM são responsabilidades do Governo Estadual e vamos voltar a eles mais para frente.

Em Curitiba, a URBS — empresa responsável pelo sistema de transporte público da cidade — anunciou que os ônibus só poderiam transitar com 50% da capacidade. Para isso, cada coletivo deveria sair do terminal com, no máximo, 30% da sua capacidade. No caso de ônibus biarticulados, seriam no máximo 75 pessoas (do total de 253). Só que isso não resolve o problema e ele não é exclusivo de Curitiba ou São Paulo, ele se arrasta por quase todas as cidades brasileiras. Segundo o jornal Nexo, “pesquisadores apontam que redução da frota de ônibus em grandes cidades tende a criar aglomerações e lotações, expondo trabalhadores pobres, negros e periféricos a maior risco de contágio”. Além disso, segundo a Rede de Pesquisa Solidária, em boletim do dia 11 de junho, “no caso do metrô e trem em São Paulo e Rio de Janeiro, nas regiões periféricas, as mudanças no sistema de transporte elevaram em até 80% a frequência nas estações”.


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Ainda segundo o boletim da Rede de Pesquisa Solidária, “as atividades voltadas para trabalho são as que mais motivam os deslocamentos urbanos e representam cerca de 45% das viagens diárias nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Essa proporção é ainda maior quando se considera a população economicamente ativa (em que as viagens com destino a locais de trabalho respondem por cerca de 50% das viagens diárias), ou a que tem rendimento (que respondem por cerca de 80% das viagens).

Aproximadamente 40% da população economicamente ativa que se deslocam do ou para o trabalho utilizam transporte público. Esse volume é maior nos estratos inferiores (até 60% entre os primeiros 4 decis de renda) e menor nos estratos superiores (menos de 20% entre o último decil). Isso significa que os residentes da periferia, além das condições de trabalho mais precárias e de menor remuneração, também se deslocam por mais tempo e em piores condições.”

Voltando ao trem e metrô de São Paulo, como podemos resolver a questão da mobilidade urbana, acrescentando mais um elemento (o distanciamento social), se — ao contrário dos ônibus, não conseguimos adicionar mais veículos? A resposta está no título do texto, é praticamente impossível. A mobilidade urbana e o transporte público já eram um imenso desafio antes mesmo da pandemia, agora tornaram-se um trabalho hercúleo. Não será sem criatividade, inovação e, acima de tudo, responsabilidade social que vamos ultrapassar estes desafios. E, muito menos, de um dia para o outro.

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