Categories Saúde Mental & Bem-EstarPosted on 13/10/202609/10/2026Pobreza de tempo: Quando o dia acaba antes de chegar a hora de cuidar de si • Horas desiguais: deslocamentos, trabalho e cuidado deixam pessoas com possibilidades muito diferentes de decidir o que fazer com o próprio dia. • Saúde adiada: consultas, exames, descanso e atividade física podem se tornar difíceis de encaixar mesmo quando existem serviços disponíveis. • Acesso de verdade: políticas e organizações também precisam considerar quantas horas exigem das pessoas que pretendem atender. Uma consulta marcada para as dez da manhã ocupa um pequeno espaço na agenda. Mas a agenda não mostra o trajeto, a espera, o retorno ao trabalho ou quem ficará com as crianças. Uma consulta que dura meia hora pode consumir boa parte do dia. Isso vale também para um curso gratuito do outro lado da cidade, uma atividade física ou se dedicar a um hobby. Aproveitar qualquer uma dessas oportunidades exige horas que algumas pessoas já não conseguem liberar. Essa falta persistente de horas disponíveis tem um nome: pobreza de tempo. A pobreza de tempo aparece quando trabalho remunerado, deslocamentos, tarefas domésticas, cuidados e outras obrigações ocupam tanto espaço que descanso, saúde, estudo, lazer e convivência acabam comprimidos. É um conceito que procura enxergar situações em que as exigências cotidianas deixam pouca margem real de escolha. A mesma jornada, dias muito diferentes Duas pessoas podem trabalhar oito horas e chegar ao fim do dia em condições opostas. Uma mora perto do emprego, divide as tarefas de casa e consegue contar com alguém para buscar o filho na escola. A outra atravessa a cidade, passa no mercado no caminho, prepara o jantar e acompanha um familiar que precisa de ajuda para tomar banho ou com a lição de casa. O relógio marcou a mesma jornada remunerada para ambas; mas, ao mesmo tempo, o restante das horas tomou rumos diferentes. Nessa conta entram atividades quase invisíveis: lavar uniforme, resolver um cadastro, acompanhar uma consulta, esperar um ônibus que não vem, marcar um exame por telefone. Até tarefas breves podem fragmentar o dia. No Brasil, o transporte ajuda a dimensionar essa diferença. Segundo os resultados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE em 2025, cerca de 1,3 milhão de pessoas levavam mais de duas horas apenas para chegar ao trabalho. O levantamento mede o percurso de ida, não a soma diária. Para quem enfrenta esse trajeto, uma atividade oferecida perto de casa pode estar longe demais se acontecer no horário errado. Por isso, calcular pobreza de tempo envolve olhar para o conjunto das obrigações, e não apenas para as horas de trabalho. Para identificar a pobreza de tempo, os pesquisadores usam critérios diferentes; ou seja, não existe um número de horas que, sozinho, sirva como diagnóstico universal. Também é importante saber se a pessoa pode negociar sua agenda, dividir responsabilidades ou contar com serviços que aliviem parte da carga. O cuidado frequentemente acontece junto com outra tarefa: vigiar uma criança enquanto cozinha, acompanhar alguém enquanto resolve assuntos da casa. E as pesquisas nem sempre registram essa sobreposição. O que a gente deixa para depois Quando as horas ficam apertadas, algumas obrigações vencem a disputa quase automaticamente. É preciso comparecer ao trabalho, alimentar quem depende de nós, pagar uma conta que vence hoje. Já a consulta de rotina, uma noite inteira de sono ou a caminhada recomendada para a saúde parecem sempre ser algo que pode ser adiado mais um pouco. O problema é que a prevenção depende justamente dessas decisões repetidas. Fazer um exame pode exigir conseguir o encaminhamento, agendar, se deslocar, esperar, voltar para buscar o resultado e, talvez, retornar ao serviço. Cada etapa disputa espaço com o trabalho e com as necessidades de outras pessoas. Mesmo quando a consulta é gratuita, o custo em tempo continua existindo. Uma pesquisa com moradores de bairros de baixa renda de São Paulo encontrou barreiras de acesso à saúde que combinavam transporte, segurança, distância e qualidade do atendimento. Os relatos mostraram que esperar muito ou viajar mais longe em busca de um serviço considerado adequado altera as decisões sobre onde e quando procurar cuidado. Então, sozinha, a distância no mapa explicava pouco. Em uma análise de trabalhadores nos Estados Unidos, jornadas mais longas estiveram associadas a menor utilização de alguns serviços preventivos, como exames de rastreamento e consultas odontológicas. Apesar de esta ser uma evidência de outro país, que não permite estimar quantas pessoas deixam de se prevenir por falta de tempo no Brasil, ela ainda assim ajuda a iluminar uma pergunta prática: quanto esforço um atendimento exige antes mesmo de começar? Fora dos serviços de saúde, a pobreza de tempo aparece de formas menos evidentes. Ela pode mudar o que cabe no cotidiano: Descanso e alimentação: dormir menos, comer com pressa ou recorrer ao que é possível preparar entre uma tarefa e outra. Formação e trabalho: deixar passar um curso, uma entrevista ou a busca por uma vaga melhor porque não há como liberar a agenda. Convivência e participação: faltar a encontros, atividades culturais ou reuniões sobre decisões do bairro que acontecem quando outras obrigações exigem presença. Ainda falando de cenários fora do Brasil (mas que contribuem muito para a nossa análise), uma pesquisa publicada em 2024 com trabalhadores de Barcelona encontrou, entre as mulheres, associação entre maior carga total de trabalho remunerado e não remunerado e piores indicadores de sono, saúde mental e atividade física no lazer. O estudo é observacional e não demonstra que a falta de tempo, isoladamente, provocou esses resultados. Mas ele reforça a importância de investigar as horas disponíveis quando se fala em saúde. Quem consegue comprar algumas horas O tempo é contado da mesma forma para todo mundo, mas as obrigações não são distribuídas igualmente. No caso das mulheres, essa diferença aparece com especial nitidez dentro de casa. Pela PNAD Contínua de 2022, do IBGE, elas dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas; os homens, 11,7 horas. São médias dessas atividades, não uma contagem de mulheres que vivem pobreza de tempo. Dentro de casa, o tempo não pesa igual Tempo médio semanal dedicado a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas no Brasil, em 2022. 9,6 h a mais por semana Mulheres 21,3 h por semana Homens 11,7 h por semana Os números mostram médias de tempo dedicado a essas atividades, não uma contagem de mulheres que vivem pobreza de tempo. Fonte: IBGE, PNAD Contínua 2022. E a desigualdade continua mesmo quando existe emprego remunerado na equação. O trabalho que mantém a casa funcionando precisa acontecer antes, depois ou entre os compromissos profissionais. Com frequência, é a disponibilidade para estudar, descansar, procurar outra ocupação ou participar da vida pública que acaba cedendo. O marco conceitual da Política Nacional de Cuidados reconhece essa sobrecarga como uma barreira à autonomia e às oportunidades das mulheres. Nós até poderíamos imaginar que a pobreza de tempo tem apenas um rosto, mas isso não seria totalmente correto. Isso porque ela também pode atingir um pai que cria os filhos sozinho, alguém que cuida de um familiar que precisa de ajuda no dia a dia ou quem passa horas diariamente no transporte. A configuração da família e a possibilidade de pedir ajuda contam tanto quanto a carga formal de trabalho. O dinheiro também muda a equação. Enquanto uma família pode pagar por creche, diarista, entrega de compras ou transporte mais rápido, outra precisa fazer essas atividades por conta própria ou se adaptar aos serviços e horários disponíveis. O tempo poupado em uma casa pode corresponder ao trabalho remunerado de alguém em outra. Por isso, pensar em formas de aliviar essa sobrecarga também exige considerar as condições de quem presta esses serviços. Em uma pesquisa do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, apresentada pelo Jornal da USP em 2025, pessoas nas faixas mais baixas de renda familiar per capita gastavam cerca de 28 horas semanais em trabalho não remunerado, contra 17 horas entre as de maior renda. O dado mede trabalho não remunerado, não uma taxa de pobreza de tempo; mas ajuda a mostrar como a falta de dinheiro pode vir acompanhada da falta de horas. Um serviço só funciona quando cabe na rotina Se o acesso depende também do tempo, a maneira de organizar serviços passa a fazer diferença. Uma unidade de saúde perto de casa economiza deslocamentos, mas talvez continue inacessível para quem trabalha durante todo o seu horário de funcionamento. O mesmo vale para uma inscrição que exige comparecimento presencial, várias idas ao mesmo endereço ou uma fila cujo tempo de espera é imprevisível. E existem respostas possíveis em diferentes áreas. Na saúde, as próprias diretrizes da atenção básica do SUS orientam que horários e formas de agendamento sejam pensados a partir das necessidades da população. Transportes mais eficientes, serviços próximos e procedimentos resolvidos em menos visitas também podem poupar horas sem reduzir o cuidado oferecido. Na área do cuidado, creches e serviços de apoio a pessoas idosas ou com deficiência ampliam a rede de quem sustenta essas responsabilidades. Um exemplo concreto são as Cuidotecas, espaços públicos de acolhimento noturno para crianças de três a doze anos, pensados para apoiar responsáveis que precisam trabalhar, estudar ou se qualificar nesse período. Organizações também fazem escolhas que interferem nesse cenário. Um processo seletivo que exige sucessivas entrevistas presenciais, uma formação oferecida apenas em horário comercial ou reuniões comunitárias marcadas sem consultar participantes podem restringir quem consegue comparecer. Flexibilidade, previsibilidade e escuta ajudam, mesmo que nenhuma delas substitua infraestrutura e divisão mais justa do cuidado nas famílias. Algumas soluções ainda exigem cuidado para não criar novas exclusões. O atendimento digital, por exemplo, pode poupar uma viagem, desde que exista alternativa para quem tem dificuldade de conexão ou precisa de atendimento presencial. Ampliar horários exige equipes e condições dignas de trabalho, não simplesmente transferir a sobrecarga para outros profissionais. Para a inovação social, esse olhar acrescenta uma medida importante de acesso. Além do preço, da vaga disponível ou da distância, vale observar quantas etapas, deslocamentos e horas um serviço consome – e de quem elas são retiradas. Uma oportunidade pode existir no papel e continuar distante de quem mais precisa dela. 💬 Faça parte da nossa comunidade Receba em primeira mão nossos artigos, tendências e inspirações sobre inovação e impacto social direto no seu celular. Quero participar → Compartilhe esse artigo: