3 tendências de negócios de impacto social pós-pandemia

3 tendências de negócios de impacto social pós-pandemia

A pandemia pode levar mais de 150 milhões de pessoas à pobreza global e extrema em 2021, de acordo com o relatório Pobreza e Prosperidade Compartilhada, conduzido pelo Banco Mundial. O mapeamento indica para a importância de combater esse cenário via iniciativas voltadas à redução da pobreza; a recomendação é que os países se preparem, no período pós-coronavírus, para a implementação de uma economia distinta – capaz de permitir que capital, trabalho, habilidades e inovações se desloquem para novos negócios e setores. Na prática, devemos construir uma retomada do crescimento de maneira sustentável e inclusiva. Nesse contexto, os empreendedores de negócios de impacto social podem protagonizar uma transformação sistêmica, promovendo melhorias na qualidade de vida da população de menor renda.

Mapeamento conduzido pela Artemisia, organização pioneira no Brasil no fomento e aceleração de negócios de impacto social, destaca as três tendências na temática, que abrem reais oportunidades para que empreendedores sociais inovadores colaborem com a transformação necessária para combater o recrudescimento do abismo social no país, cuja desigualdade endêmica foi agravada pela pandemia. As tendências identificadas com base em estudos conduzidos pela organização – incluindo as Teses de Impacto Social – estão ligadas, profundamente, aos desafios do presente e do futuro da nação. “A crise afeta um contingente enorme de pessoas, então, precisamos de soluções que estejam à altura dessa demanda”, salienta Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemisia e coordenadora do mapeamento.

A executiva ressalta que não defende que o empreendedorismo seja a única resposta para os grandes desafios socioeconômicos. “O empreendedorismo não resolverá todos os problemas sociais ou substituirá a atuação do poder público, porque a resposta a desafios da magnitude que enfrentamos está na construção de ações conjuntas, articuladas e implementadas por coalizões estratégicas entre vários setores e atores. E, nessa articulação, o empreendedorismo, em especial o de impacto positivo socioambiental, é uma das peças-chave”, defende.

Segundo Maure Pessanha, os negócios de impacto social são empresas que oferecem, de forma intencional, soluções para apoio na resolução de problemas sociais e ambientais. Entre as características principais estão o foco na população em situação de vulnerabilidade econômica (produtos e serviços desenhados de acordo com as necessidades e características dessa população); intencionalidade (possuem a missão explícita de causar impacto social e são geridos por empreendedores éticos e responsáveis); potencial de escala (podem ampliar o alcance por meio da expansão do negócio, da replicação em outras regiões por outros atores, ou pela disseminação de elementos inerentes ao negócio por outros empreendedores, organizações e políticas públicas); rentabilidade (possuem um modelo robusto que garante a rentabilidade e não depende de doações ou subsídios); impacto social relacionado à atividade principal (o produto ou serviço oferecido diretamente gera impacto social ou se trata de projeto/iniciativa separada do negócio – sim, da atividade principal); distribuição ou não de dividendos (um negócio pode distribuir ou não dividendos a acionistas; decisão que não é um critério para definir o impacto social).

Saúde

Em um futuro próximo, o país terá um problema enorme associado à falta de cuidados preventivos de várias doenças. Na prática, o Brasil registrará um gap gigantesco no atendimento a doenças cujos tratamentos foram negligenciados durante a pandemia – hipertensão, diabetes, dislipidemia e alterações cardiovasculares, além do câncer. Esse cenário demandará soluções desenvolvidas por negócios de impacto social, sobretudo, voltadas à qualificação dos profissionais da saúde. De acordo com análise da Artemisia, haverá um mercado enorme e com muitas oportunidades para que os empreendedores sociais colaborem com a melhoria do atendimento da saúde pública.

“Diante da pandemia, houve uma maior clareza sobre a necessidade de inovar e acelerar as transformações na saúde pública do Brasil. A Atenção Primária à Saúde (APS), por exemplo, é o acesso da população aos cuidados iniciais, sendo responsável por suprir de 80% a 90% das necessidades de atendimento médico de um indivíduo ao longo da vida, de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS-Brasil). Em síntese, isso ocorre por possuir uma oferta abrangente de serviços que vão da promoção básica de saúde e prevenção ao monitoramento de doenças crônicas e cuidados paliativos. Por conhecer a população ao redor das unidades, tornou-se o nível que apresenta maior rapidez na resposta às mudanças econômicas, tecnológicas e demográficas que podem impactar no bem-estar das pessoas. É eficaz tanto ao lidar com causas e riscos à saúde quanto em responder aos desafios emergentes que podem ameaçar o futuro da população. Portanto, a APS exige soluções inovadoras que podem ser oferecidas pelos empreendedores e pelas empreendedoras de impacto social”, analisa Maure.

Habitação

A habitação, que o mapeamento aponta como a segunda tendência, é um setor no qual 75% da demanda habitacional, até 2027, será de brasileiros com renda de até cinco salários-mínimos. “Como desenvolvemos soluções de melhoria habitacional, de crédito, de habitação social que enderecem o desafio desses cidadãos? E, até levando em consideração novos formatos que não são mais centrados na casa própria, mas modelos como compartilhamento, aluguel social, entre outros. Há muito espaço para empreendedores sociais pensarem fora da caixa para endereçar soluções para um problema gravíssimo do nosso país”, defende Maure, acrescentando que a pandemia escancarou os desafios habitacionais enfrentados pela população brasileira mais vulnerável.

Inclusão Produtiva

As soluções de inclusão produtiva também serão muito demandadas, de acordo com o levantamento da Artemisia, porque o Brasil precisa de soluções para os empreendedores que buscam atuar no mercado digital, ampliando sua renda e, consequentemente a receita. “Temos muitas pessoas sem empregos; cidadãos que a ‘revolução digital’ jogou para fora do mercado de trabalho. Com isso, vamos precisar de negócios de impacto social que enderecem, por exemplo, o problema do letramento digital; soluções para preparar os jovens para as áreas técnicas do futuro e habilidades interpessoais e socioemocionais (soft skills); ferramentas que ajudem as grandes empresas a conduzirem um processo seletivo mais inclusivo”, afirma a executiva.


As Teses de Impacto Social da Artemisia podem ser acessadas neste site.


Créditos: Imagem Destaque – Drazen Zigic / Shutterstock