Vacinas e TikTok: A importância da inovação local

Antes de iniciar o texto abaixo, quero deixar um aviso. O objetivo dele é criar mais reflexões, do que trazer uma fórmula pronta com respostas simples. Até, porque, o assunto não é nada simples. Fomentar a inovação local depende de diversos fatores, que passam pela construção de uma cultura de inovação, espaços/times de P&D, além de investimento. Dito isso, vamos começar pela inovação mais esperada dos últimos tempos, uma vacina contra a Covid-19 (ou seria o TikTok?).

Vale dizer que neste ponto, o Brasil está caminhando bem. Segundo a Quartz, o país já possui mais de 220 milhões de doses da vacina contra Covid-19 reservadas, sendo 100 milhões produzidas pela Universidade de Oxford e AstraZeneca, e 120 milhões da chinesa Sinovac, desenvolvida pelo Instituto Butantan. Apesar de ser um número bem expressivo, estamos bem longe 1 bilhão de doses dos EUA.

Mas a situação dos EUA é diferente do Brasil. Enquanto, por exemplo, temos o Instituto Butantan — uma instituição pública ligada à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo —, a vacina nos EUA está mais mais ligada ao poder de compra, do que inovação. Este é outro ponto importante neste cenário: ou você tem um poder de compra gigantesco, ao ponto de sobrepor qualquer proposta do mercado (e isso se aplica a qualquer cenário), ou você cria a própria inovação; do contrário você é carta fora do baralho dos early adopters.

Enquanto o Brasil tem suas 220 milhões de doses reservadas; em um só acordo, os EUA vão pagar US$ 1.95 bilhão para comprar as 600 milhões de doses produzidas pela farmacêutica Pfizer e BioNTech. Essa é toda a capacidade de produção das empresas e não é a primeira vez que o país governado por Donald Trump faz algo do tipo. No auge da pandemia, o presidente americano bloqueou toda a produção de máscaras N95 da 3M, buscando comprar toda a produção da empresa, o que gerou declarações como a de Andreas Geisel, ministro alemão, que chamou a atitude de um “ato de pirataria moderna”. Além disso, suspeita-se que o governo americano ofereceu um valor superior aos R$ 42 milhões, que seriam pagos por Estados do nordeste brasileiro, por uma carga de 600 respiradores, fazendo com que os aparelhos ficassem retidos em Miami — onde o produto fazia escala, durante sua entrega vinda da China para o Brasil.

Ilegal? Muito provável que não. Imoral? Depende muito por qual ótica observamos. Se olharmos com perspectiva que é um governante querendo cuidar da população do seu país, seria algo bem lógico. Mas sabemos que lógica e sensatez não são qualidades do governo americano atual. 1 bilhão de doses e bloqueios de máscaras que poderiam ajudar outros países está bem longe do que podemos chamar de empatia. Mas é aqui que está o centro do nosso texto. Quando incentivamos a inovação local, nos protegemos destas atitudes. Que podem vir de um governante, uma empresa ou um grupo de pessoas, não importa.

TikTok: Um espião digital ou apenas um bode expiatório numa guerra comercial?

Quando o governo americano acusou dois hackers chineses de roubarem dados de pesquisas para vacina contra a Covid-19, violando assim, a propriedade intelectual de empresas americanas e fazendo com que a embaixada chinesa fosse fechada em Houston, pouco foi dito sobre a veracidade das acusações e nada tinha a ver com o TikTok. Mas uma coisa captou minha atenção na declaração do Departamento de Estado dos EUA. Propriedade intelectual de uma vacina que pode salvar bilhões? Vale dizer que o país rejeitou uma decisão da Organização Mundial da Saúde (OMS) que apoiava a quebra de patentes de produtos contra Covid-19. Isso foi em maio deste ano, dois meses antes dos hackers chineses e toda confusão em Houston. Enquanto os 194 Estados-membros da OMS aprovaram a resolução, por considerar essencial o acesso global igualitário a futuros tratamentos, só os EUA foi contra e, apesar de não concordarem, também não bloquearam a medida.

A questão é que temos uma guerra sem bombas ocorrendo há meses entre EUA e China. Se antes o EUA podia apontar o dedo para o inimigo, atacar e se aproveitar os espólios (foi assim após a Segunda Guerra Mundial, quando trouxeram cientistas nazistas para trabalhar na NASA — sugiro que veja a série Hunters, com Al Pacino — ou com o petróleo no Oriente Médio), mas é bem diferente com a China. Não dá para entrar em um conflito real com os chineses, sem explodir o planeta ou arriscar perder território para eles. Mais fácil (e seguro) uma guerra comercial.

Eis que chegamos ao TikTok. A rede social que superou os 2 bilhões de downloads em abril de 2020 e tem “roubado” os mais jovens do Facebook, está no meio de uma discussão desta guerra comercial EUA x China. Na última sexta-feira (31), o presidente Donald Trump anunciou que vai proibir o aplicativo nos EUA. Segundo o governo do país, o aplicativo chinês seria usado para “coletar dados pessoais de americanos e compartilhá-los com o governo chinês”.

Sejamos sinceros, essa justificativa não faz o menor sentido, já que o Facebook faz isso há anos, só não compartilha com o governo. Além disso, se você gosta de teorias conspiratórias, todos os iPhones são produzidos na China e, para o governo chinês, não seria mais fácil implantar um chip para controlar todos os aparelhos? Além disso, que dados tão importantes o TikTok está coletando dos jovens americanos que ficam fazendo dancinhas e piadinhas adolescentes?

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Analistas da área de tecnologia já haviam adiantado que a Microsoft tinha interesse em adquirir a operação do TikTok nos EUA e, de acordo com o Wall Street Journal, em edição do último sábado (01); as negociações foram interrompidas após as declarações do presidente. Segundo a agência Reuters, a ByteDance concordou em alienar suas operações nos EUA para evitar que o aplicativo fosse banido, permitindo assim que a Microsoft assumisse por completo o controle no país. Ainda de acordo com o Wall Street Journal, o acordo não está “morto”, mas ambas empresas estariam buscando mais informações na Casa Branca sobre os melhores próximos passos.

O que podemos aprender com tudo isso? Incentivar a inovação local pode ser um trabalho árduo, mas em um mundo com tantos fatores e players envolvidos, torna-se essencial, cada vez mais, que possamos ter as próprias inovações, mesmo que depois elas sejam compartilhadas com o mundo. A questão não está em se fechar na própria bolha, mas não ficar a mercê das decisões de terceiros, sejam eles governos, políticos, empresas ou guerras comerciais.

Imagem Destaque: BigTunaOnline/Shutterstock

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