Trabalho remoto não é o futuro. Então, o que é?

Trabalho remoto não é o futuro. Então, o que é?

Imagine trabalhar de home office após a pandemia, mas ter o salário reduzido em 10%. Parece algo impensável para muitos, mas não para as Big Techs do Vale do Silício. Já para outros, o home office é “uma aberração”. A grande questão é que o andamento da vacinação pelo mundo tem trazido uma velha discussão com novos ingredientes: Qual o futuro do trabalho?

No caso do Google, essa discussão tem se desenrolado durante as últimas semanas. Segundo a Reuters, um funcionário (que pediu para não se identificar) ficou sabendo que, ao optar pelo trabalho remoto, teria um corte de salário de cerca de 10%. O cálculo, feito pela Work Location, ferramenta lançada pela empresa em junho, tem desencorajado alguns trabalhadores a seguirem no formato de home office. Nos EUA, o Google não está sozinho. Facebook e Twitter experimentam seguir a mesma receita.

Em uma pesquisa feita no LinkedIn, pouco mais de 3.100 pessoas responderam se aceitariam ter o salário reduzido para trabalhar de casa. Do total de participantes, 83% afirmou que não aceitaria, 10% responderam que aceitariam a redução e 7% disseram que precisam pensar melhor no assunto. O problema de aceitar o trabalho remoto com redução de salário é que as despesas podem ser ainda maiores. Você pode até aceitar um salário menor e, por exemplo, não gastar tempo no trânsito de uma grande cidade; mas quem vai pagar a conta de água, luz, internet ou a cadeira nova do home office? É um cálculo delicado.

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Os bancos de Wall Street têm trocado benefícios por dias de home office. Mas isso não é para todos. A Wells Fargo  afirmou que o trabalho remoto será limitado a dois dias por semana para muitas funções, mas abriria uma exceção para a maioria da equipe de tecnologia. Já no banco britânico Barclays, a abordagem híbrida ficaria a cargo dos gerentes. Não existe uma metodologia ou uma regra padrão do RH e isso pode expor estereótipos e pré-conceitos de algumas profissões. Segundo Jason Kennedy, CEO da empresa de recrutamento britânica Kennedy Group, “os programadores são introvertidos por natureza de qualquer maneira”. A flexibilidade “minimiza o risco de perder pessoas, porque os que não querem trabalhar em um lugar cheio de gente, não precisam”. Será?

Já David Solomon, CEO do Goldman Sachs, foi ainda mais longe. “Acho que para uma empresa como a nossa, que está dentro de uma cultura de aprendizagem colaborativa e inovadora, [o trabalho remoto] não é o ideal. E não pode ser um novo normal. É uma aberração que vamos corrigir o mais rápido possível”, afirmou em uma conferência. A verdade é que o modelo antigo de trabalho ficou horrorizado com o “novo normal” e alguns executivos, ainda presos em velhos modelos, transformaram suas declarações em um show de horrores digno de serem inseridos no “Guia de Como Não Gerir Pessoas”.

Quando deixamos de lado opiniões e olhamos resultados, vemos ótimos exemplos para o trabalho remoto e como o setor público e privado poderia economizar e aproveitar o “novo normal”. Segundo a CNN Brasil, o governo federal economizou R$ 1,4 bilhão com o trabalho remoto de servidores públicos desde o início da pandemia da Covid-19. O Ministério da Economia divulgou um levantamento que apontou a redução dos gastos em cinco áreas entre os meses de março de 2020 e junho de 2021, como os pagamentos de diárias, passagens e reprodução de documentos. Infelizmente essa redução não deve continuar, já que o formato não continuará sendo adotado.

Ironicamente, toda essa discussão sobre trabalho remoto, home office e trabalho híbrido está longe de ser uma discussão real sobre futuro. Mais ironicamente é ver que, um dos executivos/bilionários mais polêmicos da atualidade ter sido um dos poucos a ter falado algo sensato e realmente sobre futuro.

Segundo Elon Musk, o trabalho físico será opcional no futuro e, ao invés de estarmos falando sobre trabalho remoto, deveríamos estar falando sobre renda básica universal. De acordo com o bilionário, a ascensão dos robôs torna necessária a garantia de renda. “Essencialmente, no futuro, o trabalho físico será uma escolha”, afirmou  o empresário durante o anúncio do robô humanoide em desenvolvimento pela Tesla. “É por isso que eu acho que a longo prazo terá que haver uma renda básica universal”, acrescentou.

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De acordo com o anúncio, o robô da Tesla foi construído por humanos, para humanos; será “amigável”; com uma altura de cerca de 1,76m; peso de 68kg e alcança velocidades de até 8 quilômetros por hora. Confira abaixo o vídeo completo do Tesla AI Day.

Tesla AI DayTesla AI Day

Para concluir, o trabalho remoto, híbrido ou seja lá como preferir chamar, não é o futuro do trabalho. Está mais para um formato de trabalho provisório, enquanto não vemos robôs e IAs (mesmo que não tão autônomos e/ou físicos) se integrando em nosso cotidiano, substituindo tarefas “repetitivas e enfadonhas” — como o próprio Musk afirmou. Nossas preocupações deveriam estar voltadas para as novas profissões e novos tipos de rendas, ao invés de achar formas de fiscalizar as 8 horas de trabalho diárias daquele ou de outro profissional.