Roupas sustentáveis: Qual a solução para o consumo desenfreado

Roupas sustentáveis: Qual a solução para o consumo desenfreado

Alto Hospicio, no norte do Chile, parece ser um nome propício para representar o que tem sido o nosso modo de consumo nas últimas décadas. Parece coisa de maluco, mas a região (localizada no deserto do Atacama) recebe toneladas de roupas descartadas dos EUA, Europa e Ásia. Calcula-se que sejam despejados cerca de 60 mil toneladas de vestuários, que entram pelo porto de Iquique e criam dunas de roupas seminovas. É ainda mais sem sentido pensarmos que, ao mesmo tempo em que existem “campanhas do agasalho”, que lutam para arrecadar peças de roupas no inverno; coexista um deserto de desperdício têxtil.

O impacto das “fast fashion”, como são chamadas as coleções criadas de forma acelerada, não está apenas na poluição do Atacama. Segundo dados da ONU, o setor têxtil é responsável por 20% do desperdício de água no planeta. Além disso, junto com a produção de acessórios, as roupas são responsáveis por 8% dos gases tóxicos que impactam o planeta.

Mas o problema não termina aí. Na América Latina, existe um cenário ainda mais complexo e conheço essa realidade de perto (sei que isso também ocorre na Ásia, mas gostaria de compartilhar a minha experiência), já que minha mãe é a terceira geração de costureiras na família: o trabalho abusivo. Por sorte, elas não fazem parte do cenário insano que envolve trabalho escravo e/ou infantil do universo das fast fashion. Mas é comum vermos na região do Brás, em São Paulo, bolivianas e colombianas (hoje a nacionalidade preferida dos contratantes, mas que já teve como foco chineses e outros asiáticos) trabalhando como costureiras, em linhas de produção aceleradas e com salários pífios, onde as mesmas mãos que produzem um jeans R$ 60, também costuram modelos que serão vendidos por R$ 300 ou mais. Vale dizer que, o mesmo relatório da ONU que cita os impactos da indústria têxtil no meio ambiente, destaca que um para de jeans consome 7,5 mil litros de água em sua produção.

Leia mais em: Indústria da Moda & Sustentabilidade: uma parceria que não está progredindo o quanto deveria

Segundo o portal G1, o Chile é o maior importador de roupas usadas da América Latina. Há quase 40 anos, existe um sólido comércio de “roupas americanas” em lojas de todo o país, que são abastecidas com lotes comprados pela zona franca do norte dos Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia. Sim, o país importa roupas usadas de lugares a mais de 10 mil km de distância, sendo que muitas são produzidas a pouco mais de 2 mil km, em um dos bairros mais antigos de São Paulo.

Ainda de acordo com a matéria, Sofía e Jenny, duas jovens venezuelanas que cruzaram a fronteira entre a Bolívia e o Chile há poucos dias, a cerca de 350 km do aterro, escolhem “coisas para o frio”, enquanto seus bebês engatinham nas colinas têxteis: “Viemos olhar para as roupas porque a gente realmente não tem nada, jogamos tudo fora quando voltamos mochilando.”

“O problema é que a roupa não é biodegradável e contém produtos químicos, por isso não é aceita nos aterros municipais”, disse Franklin Zepeda, fundador da EcoFibra, empresa de economia circular com unidade produtiva em Alto Hospicio, que produz painéis isolantes com base nessas roupas descartáveis.

A solução é virar nudista

É claro que a solução não está em nos tornarmos nudistas, mas, então, como evitar que outros Alto Hospicio se formem pelo planeta e reduzir os impactos da indústria têxtil no meio ambiente? Existem algumas iniciativas que podem ajudar neste cenário. Em 2016, publicamos aqui no InovaSocial, dicas de como focar no consumo consciente de moda (veja neste link). Se você for adepto ou está procurando uma solução mais radical, sugiro que veja o “Minimalism: Um Documentário Sobre as Coisas Importantes”.

Outra alternativa é pressionar os fabricantes para entregarem algo mais sustentável. Não estou falando apenas em reduzir as mais de 50 coleções por ano, mas também adotar materiais biodegradáveis, reutilizáveis e eco amigáveis. Por exemplo, a Havaianas, tão famosa por seus chinelos de plástico, tem iniciado um movimento para a produção com materiais sustentáveis. Em agosto de 2021, a marca lançou seu primeiro tênis com materiais sustentáveis, como casca de arroz e óleos vegetais. 

Mais recentemente, o Instituto C&A anunciou que premiará com R$ 30 mil um projeto de design sustentável. Chamado de Prêmio Fashion Futures, a iniciativa irá premiar projetos de destaque em cinco categorias: Inovação e Tecnologia, Design Sustentável, Negócios de Impacto Social, Projetos Sociais, além da escolha da Personalidade da moda sustentável. As inscrições (acesse aqui) e votação acontecem entre os dias 9 e 24 de novembro e os vencedores receberão prêmios no valor total de quase R$ 180 mil, além de apoio para o desenvolvimento do negócioCada categoria contará com três finalistas e a categoria Design Sustentável tem como público-alvo designers que constroem produtos com qualidade e informação de moda a partir de matérias primas sustentáveis. Há uma compreensão de que existem poucas marcas no mainstream reconhecidas por vestir diferentes estilos de pessoas e que se utilizam de matérias primas e práticas sustentáveis. Segundo o comunicado, “a direção do Instituto sabe que o design é o elemento central para a criação do desejo e uma forma de atingir a massa crítica de consumo. O foco é identificar e reconhecer quem consegue transpor este desafio”.