Meio ambiente e a inovação social: Os ensinamentos do design sustentável para 2030

Recentemente tenho visto muitas empresas falando sobre a Agenda 2030 — como se fosse uma grande novidade — e como o planeta depende do cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável; compromisso assumido por 193 países, incluindo o Brasil. Aqui no InovaSocial, já falamos sobre cada um dos ODSs e, até mesmo, já explicamos um por um (leia mais sobre cada um deles neste link). Mas, por um mero acaso do cotidiano, nunca havíamos explicado o design sustentável e como ele se conecta com a inovação social. A proposta do texto de hoje é exatamente essa.

Antes de nos aprofundarmos no design sustentável, precisamos entender o que é design. Se iniciarmos a explicação pela etimologia da palavra, em inglês, “design” pode ser usado tanto como verbo, quanto substantivo. E, longe do que algumas pessoas pensam, a tradução mais próxima para o português não é “desenhar”, mas “projetar”.  No livro “Textos recentes e escritos históricos”, de Alexandre Wollner (2002); o autor — considerado um ícone do design brasileiro — no artigo “Design ou designs?”, descreve o design como “um segmento profissional que se dedica à definição de uma melhor qualidade de vida a todo ser humano, independente de sua condição econômica, raça, religião, e permitindo o acesso ao consumo de bens materiais convenientes e necessários.”

Esse entendimento sobre o design é um reflexo da formação de Wollner. Quando adolescente, o designer paulista estudou no Instituto de Arte Contemporânea do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Como resultado do seu bom desempenho, conseguiu uma bolsa para estudar na Escola de Ulm (Hfg–Ulm), baseada na cidade homônima, na Alemanha, tinha como principal objetivo promover os princípios da Bauhaus. Mas, afinal, o que foi a Bauhaus? Escola de arte vanguardista criada em 1919 por Walter Gropius, a Bauhaus tinha como essência, segundo o Goethe Institut, “incentivar a formação de comunidade através da arte. (…) Os objetos criados [na escola] deveriam ser desenhados de tal forma que sua produção fosse de baixo custo e rápida. O bom design deveria ser de novo acessível na Alemanha, um país cuja economia encontrava-se dizimada após a Primeira Guerra Mundial.” Ou seja, Bauhaus era muito mais que uma escola, era um projeto de desenvolvimento econômico.

Dos anos 20/30, saltamos para as décadas de 60/70. Dieter Rams é um designer industrial alemão que, apesar de não ter vivido a Bauhaus, seu trabalho é uma nítida referência àqueles pensamentos. Responsável por diversos projetos da Braun, inicialmente uma subsidiária da Gillete Company e, após a compra em 2005, uma marca da Procter & Gamble (P&G), Rams desenvolveu rádios, cafeteiras, projetores e diversos outros aparelhos eletrônicos. Influente no cenário mundial do design, Rams está associado ao conceito do “menos é mais” e foi uma das grandes influências de Jonathan Ive, designer britânico responsável pelo departamento de Design da Apple (1998 a 2019).

É neste período que Dieter Rams introduz o conceito de desenvolvimento sustentável e de dez princípios para um bom design. Se o design acessível e de qualidade da Bauhaus já cruza o caminho da inovação social, os princípios escritos por Rams praticamente mostram este casamento entre as duas disciplinas. São eles: 

  1. O bom design é inovador: As possibilidades de inovação não estão, de modo algum, esgotadas. O desenvolvimento tecnológico está sempre oferecendo novas oportunidades para projetos inovadores. Mas o design inovador sempre se desenvolve em conjunto com tecnologia inovadora e nunca pode ser um fim em si mesmo.
  2. O bom design torna um produto útil: Um produto é comprado para ser usado. Ele tem que satisfazer certos critérios, não apenas funcionais, mas também psicológicos e estéticos. Um bom design enfatiza a utilidade de um produto, ao mesmo tempo que desconsidera qualquer coisa que possa prejudicá-lo.
  3. O bom design é estético: A qualidade estética de um produto é essencial para sua utilidade, porque os produtos que usamos todos os dias afetam nossa pessoa e nosso bem-estar. Mas apenas objetos bem executados podem ser “bonitos”.
  4. O bom design torna o produto compreensível: Ele esclarece a estrutura do produto. Melhor ainda, pode fazer o produto falar. Na melhor das hipóteses, é auto-explicativo.
  5. O bom design é discreto: Produtos que cumprem uma finalidade são como ferramentas. Eles não são objetos decorativos, nem obras de arte. Seu design deve, portanto, ser neutro e restrito, para deixar espaço para a auto-expressão do usuário.
  6. O bom design é honesto: Não torna um produto mais inovador, poderoso ou valioso do que realmente é. Não tenta manipular o consumidor com promessas que não podem ser mantidas.
  7. O bom design é de longa duração: Evita estar na moda e, portanto, nunca parece antiquado. Ao contrário do design da moda, dura muitos anos – mesmo na sociedade descartável de hoje.
  8. O bom design é completo até o último detalhe: Nada deve ser arbitrário ou deixado ao acaso. Cuidado e precisão no processo de design mostram respeito ao usuário.
  9. O bom design é ambientalmente amigável: Design faz uma contribuição importante para a preservação do meio ambiente. Conserva recursos e minimiza a poluição física e visual ao longo do ciclo de vida do produto.
  10. O bom design é mínimo: Menos, mas melhor – porque se concentra nos aspectos essenciais, e os produtos não são sobrecarregados com itens não essenciais. De volta à pureza, de volta à simplicidade.

O design sustentável e suas 3 dimensões: Ambiental, Econômica e Social

Agora que já vimos que o design vai muito além de um visual “bonito” e/ou de uma comunicação refinada, po11demos nos aprofundar no design sustentável. Não quero me aprofundar em frameworks ou “receitas de bolos” para o desenvolvimento e aplicação do design sustentável. A ideia é explicar de forma rápida essa ligação entre as disciplinas e como podemos levar este pensamento como suporte para produtos, serviços e políticas públicas baseadas no design sustentável. No campo da sustentabilidade existem 3 dimensões:

Dimensão Ambiental: Ela indica aspectos relacionados às limitações dos recursos naturais do planeta e como consumimos, descartamos e reaproveitamos recursos naturais. Vale dizer que esses impactos ambientais mensurados nesta dimensão nem sempre são diretos. Imagine, por exemplo, que a sua solução é 100% digital. Será que ela não gera resíduos? Você já parou para pensar quanta energia elétrica é necessária para manter servidores ligados 100% do tempo? Agora, se o seu produto gera resíduo plástico, por exemplo, você já parou para estudar um pouco mais sobre Economia Circular? Essa dimensão, apesar de complexa, talvez seja umas das que mais tem ganho destaque nos últimos anos, principalmente com a infinidade de iniciativas ambientais, mas vale reforçar que, ainda estamos consumindo mais do que tiramos do planeta e a conta segue no negativo.

Dimensão Econômica: Mais “simples” do que a anterior, esta dimensão é 1+1=2, literalmente. A dimensão econômica está ligada ao crescimento econômico sustentável e justo, ou seja, mensurando impactos socioeconômicos, como empregos, renda gerada em uma determinada região, etc. 

Dimensão Social: Apesar das outras duas possuírem ligação com a inovação social por diversos motivos, a terceira dimensão talvez seja umas das mais diretas entre as duas disciplinas. Ela trata das questões relacionadas à satisfação das necessidades básicas das pessoas, a valorização das culturas locais, a melhoria do bem-estar atual e futuro, o aumento da qualidade de vida pela redução da iniquidade social no geral. Ou seja, a dimensão social orienta-se para a construção de uma sociedade humana sustentável.

Por fim, se somarmos as três dimensões da sustentabilidade, com os dez princípios do bom design, podemos chegar ao resultado do design sustentável: “eliminar impacto ambiental negativo através de projetos hábeis, sensíveis”, segundo Jason F. McLennan. Mais do que isso, podemos criar projetos, seja no âmbito privado ou das políticas públicas, que sejam sustentáveis, inclusivos e democráticos; algo bem próximo do que buscamos na Agenda 2030.

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