Tudo o que você precisa saber sobre o El Niño 2026-2027

Tudo o que você precisa saber sobre o El Niño 2026-2027

El Niño 2026–2027 já começou e deve ganhar força, com impactos distintos pelo Brasil e riscos agravados pela desigualdade. No texto a seguir, você vai ler sobre:

O fenômeno já começou: O aquecimento anormal das águas do Pacífico já consolida um evento que pode atingir intensidade severa, redesenhando a circulação atmosférica global.

O CEP define a sua vulnerabilidade: Enquanto o Sul ruma para o risco agudo de enchentes em solos saturados, a Amazônia e o Nordeste encaram secas que sufocam a logística e a agricultura.

A anatomia do desastre não é natural: Eventos climáticos extremos atuam como amplificadores, cobrando o preço mais alto das populações sistemicamente negligenciadas.

Uma frase tem aparecido muito em conversas que tive com diferentes pessoas neste inverno: “Se agora já está quente assim, imagina no verão com o El Niño”.

Em São Paulo, onde moro, ela aparece com facilidade nos dias em que o frio simplesmente não vem. Mas a sensação de um inverno estranho não está restrita à capital paulista. Em diferentes partes do país, os últimos meses têm produzido cenas que parecem pertencer a estações diferentes do ano.

Enquanto áreas do Centro-Oeste e do Nordeste convivem com calor, tempo seco e preocupação com a disponibilidade de água, a Caatinga chegou à metade de julho com 2.729 focos de fogo, número 122% acima da média histórica para o período. No Sul, a atenção está em outro lugar: o El Niño tende a aumentar a probabilidade de chuva acima da média, especialmente durante a primavera. Na Amazônia, o nível dos grandes rios ainda não apresentava, no fim de julho, uma situação generalizada de excepcionalidade, mas já havia recomendação de atenção para os meses seguintes.

Não existe, portanto, um único “inverno brasileiro” acontecendo neste momento. E essa talvez seja a primeira pista para entender por que falar sobre El Niño exige um pouco mais do que olhar o termômetro da própria cidade.

É nesse contexto que aparece a pergunta sobre o verão. Se já estamos vendo calor, secura e padrões tão diferentes pelo país, o que acontece quando o El Niño ganhar ainda mais força?

A resposta começa com uma pequena surpresa: ele não está esperando dezembro chegar.

1. Afinal, o El Niño já está acontecendo?

Sim. As condições de El Niño foram oficialmente reconhecidas em junho de 2026, e desde então o fenômeno vem se fortalecendo.

Mas o que exatamente significa dizer que “começou um El Niño”?

Não basta encontrar uma faixa de água quente no Oceano Pacífico. O fenômeno faz parte de um sistema chamado El Niño-Oscilação Sul, ou ENOS, e envolve uma espécie de conversa entre o oceano e a atmosfera. Quando grandes áreas do Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o esperado, os cientistas observam se os ventos, a pressão atmosférica, a formação de nuvens e a circulação do ar também começam a mudar.

Quando essas peças passam a se mover juntas, temos um El Niño estabelecido.

É essa reorganização que permite que uma anomalia no Pacífico influencie o clima a milhares de quilômetros de distância. Ela mexe na circulação atmosférica e altera as chances de chuva, seca e temperatura em diferentes partes do planeta, inclusive no Brasil.

Até o início de agosto, um dos principais indicadores usados para acompanhar o fenômeno, o RONI, estava em +1,0 °C na média móvel de maio-junho-julho, faixa considerada moderada. Ao mesmo tempo, medições da superfície do Pacífico já mostravam aquecimento mais intenso em algumas regiões.

Os dois dados não são contraditórios. Eles usam períodos, áreas e métodos diferentes. Para quem não acompanha índices climáticos no café da manhã, a informação mais importante é bem mais simples: o El Niño já começou, está ganhando força e seu auge provavelmente ainda não chegou.

As projeções indicam intensificação ao longo da primavera, com uma trajetória que aponta para pico por volta de novembro. Depois disso, as probabilidades das categorias mais intensas diminuem gradualmente durante os primeiros meses de 2027.

Por isso, falar simplesmente em “El Niño de 2027” pode gerar uma pequena confusão. O fenômeno é o El Niño 2026–2027, mas seu momento potencialmente mais intenso deve acontecer ainda neste ano.

2. Ele pode mesmo virar um “super El Niño”?

Pode ficar muito forte. Já “super El Niño” merece um pequeno freio antes de virar sobrenome oficial do fenômeno.

A expressão funciona muito bem em uma manchete porque carrega, em duas palavras, a ideia de alguma coisa fora do comum. Mas ela não é a categoria operacional utilizada pelos principais centros de monitoramento. A classificação utilizada trabalha com faixas como fraco, moderado, forte e muito forte. A Organização Meteorológica Mundial também não utiliza “super El Niño” como categoria operacional.

No boletim divulgado em 13 de agosto, havia 95% de probabilidade de o El Niño atingir a categoria muito forte entre outubro e dezembro de 2026.

A mesma atualização indicava 69% de chance de um evento histórico, com RONI trimestral de +2,5 °C ou mais, o que superaria a intensidade dos episódios anteriores da série iniciada em 1950.

O “caso isso se confirme”, porém, importa. Uma chance de 95% é muito alta, mas ainda é uma probabilidade. E os 69% de chance de um evento histórico também não são uma certeza. A magnitude final do fenômeno só será conhecida quando o período realmente acontecer.

E existe outro cuidado fundamental: um El Niño muito forte não significa automaticamente impactos muito fortes em todos os lugares.

O Pacífico pode estabelecer as condições gerais, mas o que ocorre em cada região depende também de frentes frias, bloqueios atmosféricos, temperatura do Atlântico, umidade do solo, nível dos rios, distribuição da chuva e sistemas meteorológicos que atuam em escalas muito menores.

É perfeitamente possível, por exemplo, que uma região termine uma estação com chuva abaixo da média e, dentro dela, enfrente um temporal excepcional em poucos dias.

Previsão sazonal não é uma previsão do tempo para uma terça-feira daqui a quatro meses. Ela indica que determinadas cartas do baralho climático estão aparecendo com mais frequência.

3. No Brasil, a resposta muda conforme o CEP

É por isso que frases como “o El Niño vai trazer seca para o Brasil” deveriam sempre provocar uma segunda pergunta: qual Brasil?

No Sul, a relação com o El Niño costuma caminhar na direção de maior probabilidade de chuva acima da média, especialmente durante a primavera. Isso amplia a atenção para cheias de rios, enxurradas, inundações e deslizamentos quando a chuva persiste sobre áreas já saturadas.

Depois do desastre de 2024, falar de chuva excessiva no Rio Grande do Sul inevitavelmente carrega outro peso. Cerca de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas e 184 morreram. O episódio aconteceu durante o estágio final de um forte El Niño, mas transformar o fenômeno em explicação única seria um erro.

O El Niño foi um dos fatores climáticos e meteorológicos que favoreceram os volumes extremos de chuva. Mas a dimensão do desastre também passou pelas características das bacias hidrográficas, pela ocupação do território, pela infraestrutura disponível e pelo grau de exposição da população.

Na Amazônia, a preocupação segue quase na direção oposta. Menos chuva, temperaturas altas e maior evaporação podem prolongar períodos secos e reduzir o nível dos rios.

E um rio baixo na Amazônia não é apenas uma linha descendo em um gráfico.

Pode significar uma embarcação que deixa de chegar a determinada comunidade e, junto com ela, dificuldades para transportar alimentos, combustível, medicamentos e profissionais de saúde. Pode interromper uma rota escolar. Pode transformar uma viagem de poucas horas em uma jornada de dias.

A seca de 2023 mostrou a dimensão desse risco: mais de 630 mil pessoas foram afetadas somente no Amazonas. E também deixou uma lição importante para 2026: nem tudo pode ser colocado na conta do El Niño. Naquele episódio, o aquecimento do Atlântico Tropical Norte e as mudanças climáticas antropogênicas tiveram papel fundamental no calor e na severidade da estiagem.

No Nordeste, essa ressalva ganha ainda mais força. O El Niño pode elevar o risco de déficit de precipitação em diferentes áreas, mas o comportamento das águas do Atlântico Tropical também exerce forte influência sobre o regime de chuvas da região. Em junho, cerca de 39% do território nordestino estava sob seca moderada, com possíveis consequências para pastagens, produção rural e disponibilidade de água.

No Centro-Oeste, calor e uma possível demora no retorno das chuvas podem afetar pastagens, recursos hídricos e agricultura, além de aumentar o perigo meteorológico de incêndios. No Pantanal, o número de focos de fogo até meados de julho estava 76,5% abaixo da média histórica. A preocupação maior está justamente nos próximos meses, caso a vegetação seque e a chuva demore a chegar.

No Sudeste, a relação entre El Niño e precipitação é mais difícil de transformar em uma regra simples. O sinal de temperaturas elevadas é mais consistente; o de chuva, nem tanto. Uma estação com acumulado abaixo da média pode, ainda assim, ter temporais, alagamentos e episódios extremos concentrados em poucos dias.

O mesmo fenômeno consegue, portanto, colocar o excesso de água no centro das preocupações de uma região e a falta dela no centro das preocupações de outra.

4. E aquele calor do inverno? É o El Niño?

Voltamos à conversa que abriu esta história.

É tentador olhar para uma sequência de dias quentes e encontrar uma explicação única: “é o El Niño”. O problema é que a temperatura sentida durante alguns dias numa cidade depende de fenômenos meteorológicos de curto prazo, como massas de ar, frentes frias, bloqueios atmosféricos, nebulosidade e umidade.

O El Niño trabalha em uma escala diferente. Ele altera probabilidades e padrões médios ao longo de semanas e meses, não funciona como uma etiqueta que pode ser colada em cada tarde quente.

Há ainda outra mistura frequente nessa conversa: El Niño e mudança climática.

O primeiro é um fenômeno natural. Ele acontece há muito mais tempo do que o atual processo de aquecimento global. A mudança climática, por outro lado, elevou a temperatura média do planeta principalmente por causa do aumento das concentrações de gases de efeito estufa provocado pelas atividades humanas.

Uma coisa não causa a outra.

Mas elas podem atuar juntas.

Um El Niño forte tende a favorecer períodos globalmente mais quentes porque redistribui calor entre oceano e atmosfera. A diferença é que isso hoje acontece sobre um planeta que já parte de uma temperatura média mais alta.

Por isso, um episódio potencialmente muito forte chama atenção também para a possibilidade de novos recordes globais de temperatura. Ainda assim, seria precipitado afirmar que 2027 será o ano mais quente já registrado.

As projeções internacionais indicam 86% de probabilidade de que pelo menos um ano entre 2026 e 2030 supere o recorde de temperatura de 2024. Não dizem que esse ano será obrigatoriamente 2027.

A ciência consegue dizer que o risco aumentou. Escolher o vencedor antes da hora seria outra coisa.

5. O El Niño é natural. O desastre não precisa ser

Uma enchente começa com muita água. Um desastre começa um pouco antes.

Ele começa quando essa água encontra uma casa numa área inundável, drenagem insuficiente, uma encosta ocupada, uma família sem possibilidade de sair dali ou um município sem estrutura para responder a tempo. É por isso que uma reportagem sobre El Niño inevitavelmente acaba sendo também uma reportagem sobre desigualdade.

O mesmo calor não é o mesmo calor para todo mundo. Uma pessoa que trabalha oito horas ao ar livre enfrenta uma exposição diferente de quem permanece durante o dia em um ambiente climatizado. Da mesma maneira, uma estiagem não produz as mesmas consequências para um produtor com irrigação, seguro e acesso a crédito e para uma família que depende diretamente da chuva para plantar.

Essas diferenças aparecem em praticamente todos os impactos possíveis.

Na Amazônia, um rio muito baixo pode interromper o acesso a serviços básicos. Nas cidades, uma tempestade encontra bairros com sistemas de drenagem e condições de moradia muito diferentes. Em áreas rurais, semanas sem chuva podem comprometer renda, produção e segurança alimentar.

A saúde também entra nessa equação. Calor extremo pode agravar problemas cardiovasculares e respiratórios. A fumaça produzida por incêndios piora a qualidade do ar. Enchentes aumentam a exposição à água contaminada e o risco de doenças como leptospirose.

Alterações de temperatura e chuva também podem contribuir para condições favoráveis à circulação de arboviroses. Mas, novamente, o clima não explica tudo. Dengue e chikungunya dependem também de saneamento, armazenamento de água, imunidade da população, circulação dos vírus, medidas de prevenção, vacinação quando disponível e controle do mosquito.

Da mesma forma, vegetação seca aumenta o perigo de incêndio, mas não produz fogo sozinha. Ignição, manejo, uso da terra, fiscalização e capacidade de combate continuam fazendo parte da história.

É aí que a previsão climática deixa de ser apenas uma curiosidade sobre o Pacífico e passa a ter utilidade pública.

O Brasil já acompanha o El Niño 2026–2027 por meio de diferentes órgãos que monitoram seus possíveis impactos sobre rios, reservatórios, secas, agricultura, saúde e risco de fogo. Esse monitoramento não permite dizer hoje qual município enfrentará uma enchente em dezembro, mas ajuda a apontar onde os riscos estão aumentando e quais sistemas precisam estar mais preparados.

Isso pode significar monitorar rios antes que atinjam níveis críticos, revisar planos de contingência, reforçar alertas, preparar unidades de saúde, apoiar agricultores ou planejar alternativas para comunidades que podem ficar isoladas.

Talvez tudo isso pareça menos chamativo do que descobrir se teremos um “super El Niño”. Só que é justamente essa parte menos espetacular que pode fazer a maior diferença.

Não existe política pública capaz de impedir o El Niño de acontecer. Mas existe a possibilidade de impedir que todo evento extremo termine necessariamente em tragédia.

Nota editorial

As probabilidades e projeções deste texto consideram as informações disponíveis até 10 de agosto de 2026. Uma nova atualização mensal do NOAA/CPC está prevista para 13 de agosto, e os dados de intensidade e persistência devem ser conferidos novamente antes da publicação.

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