Apple Watch e a nossa saúde: Os desafios da telemedicina e dos produtos focados no bem-estar

Dando continuidade na série de textos sobre as tendências para 2021, nosso foco de hoje será saúde e bem estar. Depois de vivenciarmos uma pandemia tão aguda, como a do Covid-19, era lógico que nosso cotidiano fosse impactado. Este cenário fez com que os produtos focados no nosso bem-estar tivessem um crescimento exponencial. E não estou falando apenas em bem-estar com foco em saúde mental ou fitness, mas também em novas doenças e cuidados mais profundos com o nosso corpo.

Em novembro de 2020, Bill Gates publicou seu primeiro podcast no GatesNotes, seu blog pessoal, com o título “Como será o mundo após o Covid-19” (“What will the world look like after COVID-19?”, em inglês). Nele, Gates fala sobre diversos assuntos, como a normalização das reuniões remotas, o compartilhamento de espaços de trabalho e o não retorno ao antigo cotidiano. Um dos pontos citados na conversa é a próxima pandemia. Além de bilionário e filantropo, Gates tem constantemente aparecido na mídia por ser uma das pessoas que sempre alertou sobre a possibilidade de uma pandemia. Alguns até dizem que ele já previu o Covid-19 em sua apresentação do TED 2015.

A questão é que Gates não é nenhum ser com poderes sobrenaturais ou dono de uma máquina do tempo. Quem acompanha tendências sabe que uma pandemia era questão de tempo e que, muito provavelmente, ela viria da China. Foi assim com Gates, foi assim com a revista Superinteressante, foi assim com a série Pandemia, da Netflix, e tantos outros. Mas voltando a Gates, no podcast, ele afirma que a próxima pandemia não será tão grave porque estaremos mais bem preparados. “O principal motivo de ter um impacto menos destrutivo é que teremos praticado. Teremos feito treinos de doenças como treinos de guerra — quase todos os países responderão como a Coreia do Sul ou Austrália: testando rapidamente e colocando pessoas em quarentena. Nossas ferramentas de teste serão muito melhores. Não seremos tão estúpidos na segunda vez.”

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É aqui que as novas tecnologias entram. Por muito tempo, produtos como Apple Watch tiveram soluções pensadas para o universo fitness: como eliminar aqueles quilos extras ou quais foram os dados da minha corrida. Com o novo cenário, já vimos algumas mudanças, inclusive no próprio Apple Watch. Anunciado em setembro de 2020, o Apple Watch Series 6 traz, entre outras funcionalidades, um sensor de oxigenação do sangue e eletrocardiograma.

Mas o produto da Apple não para por aí. Chamado de smartwatch, ele é um computador de pulso, até certo ponto, ainda pouco explorado. Só com o sensor de ECG, existem inúmeras histórias de pessoas que foram salvas por causa do aparelho, entre elas um norte-americano de 22 anos que descobriu uma doença congênita e o brasileiro que identificou uma taquicardia devido à pressão alta (veja aqui). Os casos envolvendo Apple Watch e diagnósticos precoces são tantos, que a empresa usou relatos de alguns consumidores convidados em sua última apresentação do produto.

Só que, de novo, o Apple Watch ainda é pouco explorado — por enquanto. Recentemente, a Biogen, empresa norte-americana de biotecnologia, anunciou um estudo em parceria com a Apple para identificar e monitorar doenças neurológicas, a partir de dados do Apple Watch. O objetivo é monitorar o desempenho cognitivo das pessoas ao longo do tempo para identificar os primeiros sinais de doenças como Alzheimer e demência.

De acordo com a empresa, as doenças neurológicas afetam aproximadamente 15% a 20% dos adultos com mais de 64 anos. Como o início dos sintomas costuma ser sutil, podem levar meses ou anos até que profissionais de saúde o identifiquem. “Estamos ansiosos para aprender sobre o impacto que nossa tecnologia pode ter na entrega de melhores resultados de saúde por meio de uma detecção aprimorada da saúde cognitiva em declínio”, afirma Jeff Williams, diretor de operações da Apple, em nota oficial.

Além do estudo da Biogen, a Apple já vem utilizando o Apple Watch em outras pesquisas voltadas à doenças neurológicas. Na área de desenvolvedores da empresa, existe uma documentação (acesse aqui), que fala sobre o monitoramento de distúrbios do movimento, que tem como objetivo analisar dados sobre a Doença de Parkinson em pacientes já diagnosticados. Outra funcionalidade, que utiliza os mesmos sensores, é o alerta de queda do  Apple Watch. Ativado por padrão para consumidores acima de 65 anos, o sistema avisa as autoridades e/ou contato de emergência, compartilhando uma mensagem de texto e a localização GPS, caso identifique uma queda.

Os grandes desafios em explorar tecnologias como as dos sensores do Apple Watch estão ligados à privacidade, algo que a telemedicina vem discutindo há anos. Por isso acredito que seja importante falarmos um pouco sobre LGPD neste texto. Em nossa publicação “O futuro da medicina: ‘Você teria coragem de engolir um nanorobô’, por Michel Levy”, de março de 2019, afirmamos que “o Relatório de Economia da Saúde, divulgado pelo Imperial College Health Partners (ICHP), mostrou que, no Reino Unido, são necessários em média 5,6 anos, oito clínicos (incluindo quatro especialistas) e três diagnósticos incorretos até que uma doença rara seja corretamente identificada. Quanto mais dados estiverem disponíveis, quanto mais informações disponibilizarmos sobre nossa saúde, mais vidas serão salvas e mais epidemias serão controladas antes de se espalharem.”

Mas como explorar os dados médicos, sem invadir a privacidade do paciente ou esbarrar em leis como a LGPD, que são muito válidas para o contexto de produtos digitais, mas falhas no âmbito da telemedicina? Além disso, como proteger dados sensíveis, mais que um número de CPF, em um mundo onde — como vimos no fim da última semana — sofre de brechas e expõem mais de 22 milhões de brasileiros? (veja aqui o caso dos dados vazados, exclusivo do site Tecnoblog). São esses e outros desafios e oportunidades que fazem com que os produtos com foco em bem-estar sejam uma tendência para os próximos meses, mas ainda com um longo caminho a ser percorrido.

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