390 dias em casa: O futuro da sociedade e a geração C

Nesta segunda-feira (12), completo 390 dias em casa. Já tem mais de um ano que não passeio pelas ruas de São Paulo, não sei o que é almoçar no restaurante preferido ou me encontro pessoalmente com amigos e parentes — este último ponto explico melhor a seguir. Mas, antes de continuar o texto, alguns comentários. Sim, eu sei que sou privilegiado e nem todos podem ficar e trabalhar em casa, sem que tenham seus sustentos afetados. Moro perto de uma das estações de metrô/trem mais agitadas da capital paulista e sei que, aqueles que estão ali diariamente, não estão indo para uma festa na segunda-feira de manhã.

Você também deve estar se perguntando se realmente não sai nenhuma vez. Nestes 390 dias foram apenas 4 saídas: 2 para emergências veterinárias e 2 para visitar familiares; meus pais e minha sogra, que moram dentro de um raio de 3km. Além disso, as visitas foram cuidadosas e aconteceram no momento em que tivemos quedas de casos de Covid-19, entre a primeira e a segunda onda. Por fim, minha ideia não é falar sobre saúde mental, por mais que seja inevitável se avizinhar ao tema (ainda mais em um texto como este), mas não sou especialista e, como disse um colega, “aquele que se veste de Napoleão, é sempre o último a perceber a loucura.” 

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Tirando o cabelo comprido — que já virou um coque robusto, alguns pelos brancos e os quilos extras, me sinto bem. Mentalmente e fisicamente. Isso não quer dizer que existam altos e baixos, mas adotamos o conceito de viver um dia de cada vez. Por mais longo que seja, a pandemia não é para sempre. Uma hora ela termina. Por isso, talvez não funcione com todo mundo, mas minhas dicas são:

  • Mantenha uma rotina flexível e fique atento aos sinais de cansaço mental. Seu cérebro é um músculo e também precisa descansar. Ioga e meditação, por exemplo, ajudam, mas não são definitivos. Tire um tempo para fazer NADA;
  • Infoxication é real. Saiba medir o quanto de informação você consegue receber, mas não desligue totalmente para não ficar alheio a realidade (esse foi um dos motivos que nos fez produzir o podcast abaixo, com o cientista de dados Ricardo Cappra);
  • Tenha um hobby. Eu jogo videogame, outros fazem artesanato. Não importa qual o seu hobby, mas tenha um;
  • Mantenha contato visual com o mundo exterior. As videochamadas estão disponíveis para todos que possuem internet e um smartphone (você faz parte desta parcela da população);
  • Peça ajuda. Todo mundo tem o seu limite. Não ache que você é invencível e que não precisará de ajuda. Pode ser um amigo confidente ou uma sessão de terapia.

Se você acompanha o InovaSocial há algum tempo, sabe que esta não é a primeira vez que falamos sobre isolamento social. Em março de 2020, escrevi o texto “Astronautas: Dicas de quem foi treinado para o isolamento social”, onde (como o próprio título diz) trouxe algumas dicas de astronautas, os profissionais mais bem treinados para o isolamento social. Scott Kelly, um veterano da NASA, afirmou que “a NASA estuda os efeitos do isolamento nos seres humanos há décadas, e uma descoberta surpreendente que eles fizeram é o valor de manter um diário. Ao longo de minha missão de um ano, dediquei tempo para escrever sobre minhas experiências quase todos os dias. Se você estiver apenas narrando os eventos do dia (que, nessas circunstâncias, podem ser repetitivos), tente descrever o que está experimentando através dos seus cinco sentidos ou escreva sobre memórias.” O diário é apenas uma das diversas orientações. A Estação Espacial Internacional possui o Modelo de Competências de Desempenho e Comportamento Humano, que orienta os astronautas em missões longas.

Só existe um problema nisso tudo, eles são astronautas. Christina Koch, a norte-americana que passou 328 dias no espaço (288 dias sozinha em órbita), já havia passado uma temporada inteira na Estação Polar Amundsen-Scott, no Polo Sul, durante um inverno com temperaturas de até -79°C. Ou seja, são pessoas muito bem treinadas para este cenário. Na série For All Mankind, da Apple TV+, por mais que seja uma obra de ficção (com pitadas de realismo), a primeira e a segunda temporada mostram — mesmo que indiretamente — os impactos da saúde mental no isolamento extremo. Se você gosta de séries científicas, drama ou espaço, sugiro que veja a produção.

A geração C: Os impactos da pandemia na sociedade

Um ponto importante é que a pandemia não afeta apenas individualmente, ela afeta o coletivo; a sociedade. Assim como os Baby Boomers marcaram um aspecto específico de uma geração; onde o fim da Segunda Guerra Mundial gerou um súbito aumento de natalidade, a Geração C também terá suas próprias características. Alguns especialistas chamam de Geração C os nascidos entre 2020 e 2030, ou seja, durante e após a pandemia. E você já parou para pensar que muitos destes indivíduos são órfãos ou terão apenas um dos pais? Já parou para pensar que uma criança com 1-2 anos de idade, talvez nunca tenha visto outra criança pessoalmente? Quais serão os efeitos disso tudo, por exemplo, no mercado de trabalho do futuro?

A Geração C não é apenas nativa digital, ela é dependente digital. Exceto os pais, muitas destas crianças só tiveram contato com familiares por meio de uma tela. Além disso, o trabalho remoto fez os adultos passarem muito mais tempo com as crianças. Quais serão os efeitos da separação, quando tudo voltar ao normal? O transtorno de ansiedade de separação já é algo presente na medicina, mas, talvez, nunca experimentamos um momento como o de agora.

“Os primeiros 1.000 dias de vida são muito importantes para o desenvolvimento”, apontou Jennifer Requejo, consultora sênior para saúde e HIV da UNICEF, em entrevista para a CNN. “Enquanto os países estão se concentrando em uma resposta a esta pandemia, é importante que eles não percam de vista esses períodos de vulnerabilidade na vida das crianças. Existem algumas questões muito importantes que não podem ser deixadas de lado”.

Ainda na mesma entrevista, Lori Peek, diretora do Centro de Perigos Naturais da Universidade de Colorado Boulder, afirma que a Geração C possui semelhanças com as crianças do Furacão Katrina. “Estou vendo tantas semelhanças… apenas em termos das desigualdades, que existiam o tempo todo, mas que se tornam nitidamente aparentes em tempos de crise”, afirma Peek. Para seu livro, “Children of Katrina” (sem versão no Brasil), Peek e a co-autora Alice Fothergill acompanharam centenas de crianças para ver como a tempestade devastadora de 2005 moldou suas vidas. “Os padrões eram claros de que os afro-americanos de baixa renda foram os mais expostos ao Katrina e sofreram a recuperação mais prolongada e os piores impactos”, diz Peek. “E a mesma coisa está acontecendo na pandemia.”

Apesar de tentarmos prever modelos com situações do passado, são inúmeras questões que surgem e quase todas sem nenhuma resposta. O ponto é que, teremos inúmeros reflexos, seja aos 390 dias em casa (e contando, pois ainda não acabou) ou de uma geração que já se inicia com traumas, os impactos sociais serão imensos e bem além da “simples” questão econômica. É claro que nem todos os aspectos são negativos. A inovação na medicina, no ambiente de trabalho e na digitalização acelerada, para dizer apenas alguns exemplos, farão com que a próxima década seja bem diferente dos últimos 10 anos. E não será apenas para a Geração C, mas para todos aqueles que passaram por este período.

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