Categories Soluções de ImpactoPosted on 14/10/202614/10/20265 ideias para cidades que pareciam radicais até começarem a funcionar Uma vaga de garagem, um terreno fechado, um trajeto caro: o que parece inevitável numa cidade pode ser uma decisão que dá para rever. No artigo a seguir, você vai ler sobre: • Regras que podem mudar: Exigências de estacionamento e restrições ao uso de terrenos estão sendo revistas para atender a outras necessidades urbanas. • Ideias que saíram do papel: Transporte gratuito, serviços de cuidado e escolas mais verdes mostram novas formas de organizar as cidades. • Desafios para transformar: Colocar essas propostas em prática exige recursos, mudanças na legislação, participação e avaliação dos resultados. Até 2017, quem construía um prédio na Cidade do México precisava reservar um número mínimo de vagas de estacionamento, mesmo quando o empreendimento precisava de menos. Parte do terreno e do orçamento já tinha, portanto, um destino definido. Naquele ano, a cidade mudou a regra. As garagens continuaram permitidas, mas a legislação deixou de exigir um mínimo e passou a estabelecer limites máximos de vagas. A decisão pode influenciar o custo das construções e a maneira como o espaço urbano é ocupado. Também revela algo que raramente percebemos: muitas características das cidades são resultado de escolhas feitas ao longo do tempo. E escolhas podem ser revistas. O estacionamento é apenas um exemplo. Em diferentes países, governos e organizações estão repensando como construir moradias, organizar o transporte, distribuir serviços públicos e enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. A seguir, vamos conhecer melhor a experiência mexicana e outras quatro iniciativas no Brasil e na Europa. O que já conseguiram mudar? E quais dificuldades ainda precisam superar? 1. Parar de exigir tantas vagas para carros Uma garagem ocupa mais área do que aquela onde o carro fica parado. Rampas, acessos e espaços de circulação também consomem terreno, materiais e dinheiro. Antes da reforma mexicana, as exigências variavam conforme o tipo de imóvel. Um levantamento do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) mostrou como essas regras estimulavam a construção de grandes áreas destinadas aos automóveis, independentemente da demanda real. Essas exigências partiram de uma visão de cidade organizada em torno do automóvel. Com o tempo, porém, uma regra criada para facilitar a circulação pode passar a limitar outros usos do terreno. Com a mudança, os responsáveis pelos empreendimentos ganharam liberdade para oferecer menos vagas. Isso pode reduzir custos e liberar espaço para outros usos, embora não garanta imóveis mais baratos. A medida também tem limites. Uma avaliação do ITDP publicada em 2020 destacou que mudar as regras de estacionamento, por si só, não elimina a dependência do carro. Onde faltam alternativas de transporte, os moradores continuam precisando dele. 2. Transformar terrenos religiosos em moradia Em Newport, no País de Gales, um terreno ligado à igreja St Matthew’s ganhou uma nova função: abrigar 14 moradias acessíveis. O projeto faz parte da iniciativa Faith in Affordable Housing, da organização Housing Justice, que aproxima instituições religiosas com propriedades disponíveis e entidades capazes de desenvolver habitação social. Até 2025, o programa havia contribuído para a construção de 105 moradias em dez terrenos, destinadas a pelo menos 271 pessoas. A situação tem uma contradição evidente: instituições podem possuir terrenos sem uso enquanto famílias procuram moradia na mesma região. Mas transformar essas propriedades exige resolver questões de financiamento, legislação urbanística e, em alguns casos, preservação do patrimônio. Para os projetos saírem do papel, também é necessário encontrar parceiros que cuidem da obra e da gestão dos imóveis. Um terreno disponível, sozinho, não se transforma em habitação. A Housing Justice atuou como uma ponte entre os proprietários e as organizações habitacionais. O financiamento do programa original terminou em 2024, deixando projetos concluídos e orientações para outras instituições. Em cidades onde encontrar terrenos disponíveis é difícil, a experiência sugere olhar novamente para espaços que já existem. Alguns deles podem atender a necessidades diferentes das previstas quando foram construídos. 3. Circular sem pagar passagem Existe mais de um jeito de retirar a tarifa da catraca. Em junho de 2026, um levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) identificou 143 municípios brasileiros com transporte coletivo gratuito para toda a população. Outros adotam a gratuidade em dias específicos. Em Maricá, no Rio de Janeiro, ônibus e bicicletas compartilhadas já eram gratuitos quando, em janeiro de 2026, 22 linhas de vans passaram a integrar o sistema. Os veículos menores alcançam ruas e bairros onde ônibus maiores têm dificuldade de circular. São Paulo segue outro caminho: desde dezembro de 2023, o Domingão Tarifa Zero garante viagens gratuitas nos ônibus municipais aos domingos e em três feriados. Belo Horizonte criou o Catraca Livre para domingos e feriados. Já no Distrito Federal, o Vai de Graça inclui também o metrô nesses dias. As experiências mostram que a gratuidade pode começar por parte da semana ou valer diariamente. Mas é importante lembrar que eliminar o preço da passagem não resolve a falta de linhas, a espera prolongada ou os trajetos pouco atendidos. E a operação continua exigindo recursos públicos para custear profissionais, veículos e manutenção. 4. Criar bairros que deem tempo a quem cuida Uma consulta, um curso ou algumas horas de descanso podem ser difíceis de encaixar na rotina de quem cuida de crianças ou familiares idosos. Para sair de casa, muitas vezes é preciso encontrar alguém que assuma essa responsabilidade. Em Bogotá, na Colômbia, as Manzanas del Cuidado (ou Quarteirões do Cuidado) procuram reduzir essa dificuldade aproximando serviços gratuitos para pessoas cuidadoras e para quem depende delas. Enquanto uma mulher participa de uma formação profissional, por exemplo, seus familiares podem receber atendimento ou realizar atividades na mesma região. Conforme a unidade, há apoio psicológico e jurídico, educação, atividades de bem-estar e lavanderias comunitárias. Essa proximidade permite que a pessoa cuidadora participe de atividades sem precisar organizar longos deslocamentos ou interromper completamente o atendimento à família. É uma mudança concreta na maneira de distribuir os serviços. As lavanderias parecem um detalhe, mas ajudam a entender a proposta. Lavar roupas, limpar a casa e acompanhar familiares consomem horas que poderiam ser usadas para estudar, descansar ou cuidar da própria saúde. O que Bogotá está tentando enfrentar? A chamada pobreza de tempo: quando o acúmulo de tarefas domésticas e de cuidado deixa poucas horas para descansar, estudar ou cuidar da própria saúde. O problema afeta especialmente as mulheres, e iniciativas como os Quarteirões do Cuidado buscam aliviar parte dessa sobrecarga. Em dezembro de 2025, Bogotá inaugurou sua 27ª unidade. A prefeitura informou, em abril de 2026, que cerca de 162 mil pessoas haviam utilizado serviços da rede no ano anterior. O alcance é significativo, mas ainda são necessárias avaliações para medir seus efeitos de longo prazo. A experiência propõe algo relevante ao planejamento urbano: levar em conta o tempo que as pessoas gastam para acessar serviços, especialmente quando precisam conciliar deslocamentos e cuidado. 5. Trocar asfalto por sombra e vegetação Durante décadas, pavimentar e construir estruturas de concreto foi sinal de modernização urbana. Diante das ondas de calor e das chuvas intensas, alguns projetos passaram a recuperar o que a pavimentação eliminou: vegetação e solo capaz de absorver água. Em três escolas na Espanha e em Portugal, o projeto LIFE-myBUILDINGisGREEN testou 19 soluções baseadas na natureza. Foram instalados telhados e fachadas verdes, estruturas de sombra e pisos permeáveis, que permitem a infiltração da chuva. As intervenções abrangeram mais de 13,6 mil metros quadrados. Segundo os resultados divulgados pela Comissão Europeia em abril de 2026, uma escola espanhola registrou reduções de quatro a seis graus Celsius nas temperaturas internas. Em superfícies de paredes expostas ao sol, a queda superou vinte graus. Para quem passa horas numa sala de aula quente, a diferença pode ser importante. Nas escolas, recuperar áreas verdes também pode tornar os pátios mais utilizáveis em dias quentes. O desenho do espaço interfere nas atividades que crianças e professores conseguem realizar ao ar livre. O mecanismo é relativamente simples: a vegetação oferece sombra e ajuda a resfriar o ambiente, enquanto superfícies permeáveis facilitam a passagem da água para o solo. Mas cada intervenção depende do clima local, das espécies escolhidas e de manutenção. Os resultados dessas escolas não podem ser automaticamente reproduzidos em qualquer cidade. Ainda assim, apontam para uma mudança de perspectiva: melhorar a infraestrutura pode significar retirar parte do concreto e recuperar funções que o ambiente perdeu com a urbanização. O que faz uma ideia sair do papel? Essas experiências não avançaram apenas porque alguém teve uma boa ideia. Foi necessário mudar normas, reunir organizações, destinar recursos públicos ou reorganizar serviços. Algumas questões aparecem em quase todos os casos: Regras: o que a legislação precisa permitir ou deixar de exigir? Recursos: quem financia as obras e mantém os serviços funcionando? Participação: quem será afetado e precisa ter voz nas decisões? Resultados: como saber o que funcionou e o que ainda precisa melhorar? Uma solução que funciona em determinado bairro pode enfrentar dificuldades em outro. Orçamento, infraestrutura e necessidades da população mudam de lugar para lugar. Além disso, muitas experiências ainda precisam de tempo para mostrar seus resultados, inclusive aqueles que ninguém previu. Ainda assim, os exemplos mostram que certas regras não são tão permanentes quanto parecem. Durante anos, reservar vagas para carros foi uma obrigação. Hoje, algumas cidades já fazem escolhas diferentes. Terrenos religiosos receberam moradias, enquanto serviços públicos passaram a ser organizados mais perto de quem precisa deles. São mudanças que ajudam a perceber como a cidade é construída por decisões tomadas em diferentes momentos, e que algumas delas podem ser revistas. Antes de descartar uma proposta como inviável, vale investigar o que realmente impede sua realização: falta de recursos, uma regra, interesses em disputa ou condições que ainda precisam ser criadas. 💬 Faça parte da nossa comunidade Receba em primeira mão nossos artigos, tendências e inspirações sobre inovação e impacto social direto no seu celular. Quero participar → Compartilhe esse artigo: