The Handmaid’s Tale: Uma história de 1985 que é muito relevante nos dias de hoje

The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia, em versão brasileira), romance escrito por Margaret Atwood em 1985, já ganhou uma adaptação para o cinema, uma ópera e, em 2017, foi transformada em uma série produzida pela Hulu — que, apesar de já ter extrapolado o livro, ainda conta com uma consultoria criativa de Atwood. A história descreve um mundo tóxico no qual a misoginia e a degradação ambiental transformaram os EUA em uma teocracia totalitária. A república fictícia de Gilead reforçou um sistema de violência baseado no gênero, escravizando as poucas mulheres capazes de gerar filhos para atuarem como “servas” da classe dominante.

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Em Gilead, homossexuais são considerados “traidores de gênero” e são enforcados. Os cidadãos são rastreados, observados e espionados o tempo todo. As mulheres não estão autorizadas a ler. As crianças são arrancadas dos braços de suas mães biológicas. As fronteiras são uma ameaça mortal a qualquer um que tente fugir.

Com isso, não é de se admirar que tantos críticos tenham conseguido traçar paralelos entre o futuro distópico de Atwood e o presente. Aqui estão algum deles:

Mulheres são forçadas a ter filhos, querendo ou não (mesmo quando a gravidez é resultante de um estupro)

Embora o aborto seja legal em alguns países, há representantes eleitos que estão fazendo com que obter um aborto seja algo cada vez mais difícil. Nos EUA, por exemplo, mais de 300 restrições sobre o procedimento foram promulgadas em nível estadual desde 2010, incluindo períodos obrigatórios de espera e sessões de aconselhamento em pessoa que podem atrasar a capacidade de uma mulher de fazer um aborto, o que pode tornar o procedimento ainda mais custoso.

Em países onde o aborto é criminalizado e/ou legal apenas em casos muito específicos, como no Brasil, um aborto clandestino pode ser uma sentença de morte. Segundo a OMS, o aborto inseguro é uma das principais causas de mortalidade materna no mundo todo.

E não tem como falar sobre aborto e The Handmaid’s Tale, sem falar sobre estupro. No Brasil, entre 2011 e 2016, 4.262 adolescentes de 10 a 19 anos tiveram uma gestação resultante de estupro e o consequente nascimento do bebê. Quase 73% desse número é representado por meninas de 10 a 14 anos. Em 68,5% das ocorrências o ato violento foi cometido por um familiar, muitas vezes dentro do próprio lar da vítima.

Entre os fatores que levam brasileiras a não terem o direito ao aborto garantido mesmo quando ele é legalizado estão falta de informação, precariedade no atendimento na rede credenciada e recusa de profissionais de saúde em realizar o procedimento. Também estão envolvidas questões ligadas ao estigma social, especialmente nos casos de estupro, devido a dificuldades em denunciar o crime.

Os homens ditam o que acontece ao corpo das mulheres

Em The Handmaid’s Tale, as aias são forçadas a fazer sexo com seu “dono” para gerar uma criança. A ideia de que os homens controlam o útero das mulheres nos dias de hoje não é tão distante assim: todos os projetos de lei relacionados a direitos reprodutivos precisam ser votados no Câmara dos Deputados e no Senado, que são formados em sua maioria esmagadora por homens. Atualmente, no Brasil, os homens representam 85% dos Deputados Federais e 84% do Senadores.

Dependência Financeira & Violência Doméstica

Em Gilead, as mulheres não podem trabalhar e muito menos possuem uma independência financeira. Pelo contrário, esses foram os primeiros direitos retirados da população feminina. Em um estalar de dedos, a personagem principal e suas colegas de trabalho foram demitidas e tiveram todo seu dinheiro colocado sob controle de seus maridos ou familiares do sexo masculino.

E a realidade de muitas mulheres em nosso mundo atual é cruelmente similar à realidade das mulheres de Gilead.

É claro que muitas pessoas não entendem porque as mulheres que deixaram relacionamentos abusivos frequentemente retornam para seus agressores — ou muitas vezes sequer saem deles. As razões pelas quais as mulheres retornam ou se mantém em relacionamentos abusivos são extremamente complexas e estão totalmente relacionadas aos efeitos do abuso. No Brasil, de cada quatro mulheres que sofrem violência doméstica, uma não denuncia o agressor porque depende financeiramente dele, o que muitas vezes é reforçado pelo fato de que o agressor tem todas as funções econômicas voltadas para si e o total controle sobre as finanças da família.

As opções dessas mulheres são ainda mais limitadas pelo fato de que muitas delas frequentemente enfrentam uma ou mais barreiras adicionais, como filhos, desemprego ou falta de experiência profissional, falta de moradia e falta de acesso a dinheiro por contas bancárias e/ou crédito.

Saúde da mulher, poluição e DSTs

Muitas mulheres em The Handmaid’s Tale se tornaram inférteis após a exposição a toxinas ambientais, bem como DSTs não tratadas. Embora não estejamos sofrendo as consequências de acidentes nucleares e uma guerra química — como os acontecidos do futuro distópico escrito por Margaret Atwood —, há cada vez mais pessoas no mundo, incluindo líderes de Estado, que negam a mudança climática.

Ignorar o cuidado com o meio ambiente pode acarretar em sérias consequências para a saúde da população. Asma, câncer, doenças cardíacas, distúrbios neurológicos e outras condições podem se tornar mais prevalentes como resultado da mudança climática. Se isso não é preocupante o suficiente, as DSTs não param de crescer. No Brasil, entre 2007 e 2017, a notificação de casos de HIV de pessoas com 15 a 24 anos aumentou aproximadamente 700%.

Não é de admirar que, ao assistir ou ler The Handmaid’s Tale, consigamos notar tantas semelhanças entre o que é representando e o que está acontecendo na vida real. Infelizmente, é comum se deparar com notícias de acontecimentos ao redor do mundo e pensar “Isso é tão The Handmaid’s Tale!”.

Elisabeth Moss, atriz que interpreta a personagem principal da série, já disse que ela e o elenco de The Handmaid’s Tale têm notado semelhanças entre o que eles estão representando e o que está acontecendo na vida real.

“Ocasionalmente, enviamos artigos um para o outro, do jornal daquele dia, exatamente como o que está acontecendo na série — sejam direitos reprodutivos, seja uma questão ambiental, um novo tipo de vírus”, disse ela. “Estamos fascinados e horrorizados pelos paralelos.”

E nós também, Elisabeth. Nós também.

A obra literária The Handmaid’s Tale está disponível em diversas livrarias pelo país, tanto em sua versão física, quanto digital. Recentemente, Margaret Atwood anunciou que está trabalhando em uma sequência de The Handmaid’s Tale, que se chamará The Testaments e será lançada ainda em 2019 — segundo Atwood, o livro não terá relação com os eventos vistos na série TV produzida pela Hulu.

Recentemente, a Hulu anunciou que os três primeiros episódios da terceira temporada da série estão com estreia marcada para o próximo dia 5 de junho. No Brasil, The Handmaid’s Tale é exibida no canal Paramount Channel, da TV por assinatura, e no streaming do Globoplay.

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