Pequena Sereia e Mr. Iglesias: Representatividade na TV e no cinema

Se alguém te perguntasse “qual a principal característica da ‘Pequena Sereia’?”, você responderia que são os cabelos ruivos? Se sim, preciso dizer que essa é a resposta errada. A principal característica da personagem é a voz. A Ariel do filme de 1989 é apenas uma das várias representações do conto criado pelo dinamarquês Hans Christian Andersen (o mesmo de “O Patinho Feio”, “O Soldadinho de Chumbo”, entre outros). Abaixo, a estátua baseada no conto original,  No filme da Disney, assim como no original, a jovem sereia troca a sua voz por uma poção mágica, que lhe dá características humanas. Dito isso tudo, o que faz uma pessoa criar uma petição online – e outras 12 mil assinarem – contra a escalação de uma atriz de 19 anos para o papel de um personagem fictício? Sim, só existe uma resposta… preconceito.

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Na última semana (04), a Disney anunciou Halle Bailey no papel principal do filme live action d’A Pequena Sereia. Halle tem uma voz incrível, é jovem e tem tudo para se encaixar no papel, mas é negra. Isso fez com que um grande número de pessoas (com muito tempo livre) evoluíssem uma polêmica em torno da produção cinematográfica. Polêmica que só tem o preconceito como base, pois não faz o menor sentido.

Em 1989, quando “A Pequena Sereia” da Disney foi lançada, a atriz Jodi Benson foi escalada para dar voz à personagem. Benson era uma atriz de teatro e, até então, pouco conhecida. No entanto, o estúdio procurava alguém que pudesse dublar a personagem e cantar (olha a importância da voz aí!). Pouco importava se Benson era loira de olhos verdes, o ponto mais importante era ela ser uma cantora soprano.

Outro “detalhe”, estamos falando da década de 80/90, os grandes estúdios e a indústria cultural como um todo não estavam preocupados em pensar em representatividade (muito pelo contrário).

E não precisava ir muito longe, aqui no Brasil, onde o grande percentual da população se considera negro ou pardo, isso não era discutido. Eu sei, eu fui criança e adolescente neste período. Só que, naquela época, não entendia o que era representatividade. A palavra nem passava pela minha cabeça, afinal, eu sou homem e branco, não sentia na pele o que era não encontrar personagens como eu nas telas da televisão e no cinema.

A parte boa é que aprendemos a discutir sobre representatividade. Eu mesmo, cresci e entendi que tinha algo de errado nisso tudo. Por que uma jovem que, com apenas 19 anos e duas indicações no Grammy Awards, não pode interpretar uma personagem que tem como maior característica a voz?! Sim, Halle Bailey tem duas indicações. Ela, junto com a irmã Chloe, receberam indicações na edição 2019, além de já terem aberto shows para Beyoncé durante a turnê européia do The Formation World Tour e na turnê americana do On The Run Tour II.

Professor Iglesias: Discutindo representatividade em forma de humor

Ele se apresenta há quase 20 anos com seu show de stand-up, já fez turnês pelo EUA e Europa, possui vários especiais no Netflix e, recentemente, lançou a série Mr. Iglesias (Professor Iglesias, em português), mas talvez você nunca tenha ouvido falar em Gabriel “Fluffy” Iglesias. Eu não o conhecia, mas tive a felicidade de “tropeçar” nesta nova série e conhecer este comediante.

Quando digo “tropeçar”, quero dizer que conheci sem querer. Por muitas vezes, quando quero dormir ou tenho poucos minutos de folga, dou play em alguma série aleatória, de preferência naquelas que parecem ter enredos simples e clichês. Foi assim com “Professor Iglesias” (disponível na Netflix), uma série que, a primeira vista, poderia estar passando na Nickelodeon ou Disney XD, mas é muito mais densa do que parece.

O enredo é simples, Mr. Iglesias é o engraçado professor de história de uma escola pública americana, que tenta recuperar os “piores” alunos. E quando digo “piores”, entre aspas, é porque eles não são tão ruins. Pelo contrário, Marisol Fuentes é uma excelente aluna, só que trabalha em três empregos. Já Grace é outra aluna inteligente, mas a sua timidez faz com que não fale em público. A primeira é o estereótipo do imigrante mexicano, já a segunda é a oriental. E a série não para por aí. De forma leve e engraçada, “Professor Iglesias” aborda temas como racismo, imigração, bullying, machismo e outros estigmas da sociedade (incluindo alcoolismo, já que o próprio professor frequenta as reuniões dos Alcoólicos Anônimos).

Mas não vá esperando um drama ou uma série muito rebuscada, “Professor Iglesias” é o tipo de série que gostaria de ter visto na minha infância, aquela mesma citada acima. É o tipo de série que leva temas complexos para jovens e rende boas risadas em adultos. Sem ser apelativo ou agressiva, a série aborda em cada episódio, uma discussão importante sobre a sociedade, com pitadas de atualidade e um toque de série infanto-juvenil em apenas 10 episódios que rendem uma boa diversão e nos fazem pensar.

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Créditos – Imagem Destaque: MaraZe/Shutterstock

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