O futuro da medicina: “Você teria coragem de engolir um nanorobô?” por Michel Levy

Pela primeira vez na história, Antonio De Lacy, especialista em cirurgia gastrointestinal realizou uma cirurgia com telementoria através de uma rede 5G. Diante de um auditório lotado, durante apresentação no MWC19, evento realizado em Barcelona no final de fevereiro passado, o médico auxiliou remotamente uma equipe cirúrgica, formada por cinco médicas e dois anestesistas do Hospital Clínic de Barcelona, na retirada de um tumor de intestino.

De acordo com relatório da Frost & Sullivan, o mercado global de “Ciências da Vida” deverá chegar a US$ 1,5 trilhão em 2022 por conta do interesse das gigantes de tecnologia no setor, entre elas Amazon, Google, Apple, IBM, Microsoft e Samsung. Das 10 tecnologias mais inovadoras de 2019, segundo Bill Gates, 4 estão diretamente relacionadas com a área de saúde:

  1. Um teste para uma grávida saber se tem maiores chances de ter um bebê prematuro, desenvolvida pelo bioengenheiro Stephen Quake, da Universidade de Stanford;
  2. O uso de uma pílula contendo microscópios em miniatura, desenvolvida por Guillermo Tearney, patologista do Hospital Geral de Massachusetts;
  3. Novas vacinas personalizadas contra o câncer, desenvolvidas pela startup alemã BioNTech;
  4. Relógios inteligentes que fazem eletrocardiograma, permitindo identificar sintomas de um derrame ou ataque cardíaco.

Além da telemedicina, que será cada vez mais praticada na medida em que a internet ganha vias cada vez mais velozes, os avanços tecnológicos em áreas como Inteligência Artificial e Internet das Coisas (IoT) trarão dois grandes ganhos para a nossa saúde: uma medicina mais preventiva e, ao mesmo tempo, uma maior rapidez em chegar a diagnósticos precisos; o que irá viabilizar o início de tratamentos em estágios iniciais, diminuindo as emergências médicas e aumentando as chances de cura.

Com uma análise de dados coletados de diversas fontes e a possibilidade de consultar outros médicos a distância, inclusive realizando procedimentos complexos, como demonstrou De Lacy, a expectativa é que iremos cada vez menos aos consultórios e os profissionais de saúde terão cada vez mais informações para orientar as condutas que devemos tomar para manter uma rotina mais saudável e os cuidados imediatos no caso de apresentarmos determinados sintomas.

Os wearables serão incorporados ao nosso guarda-roupa para monitorar nossa saúde 24 horas por dia em tempo real. Seu celular, seu relógio e até mesmo sua aliança estarão coletando dados sobre a sua saúde e que estarão alimentando seu prontuário eletrônico em tempo real e pela nuvem. No caso de um ataque súbito, seu plano de saúde será imediatamente informado e você receberá as informações do que fazer enquanto espera a chegada dos paramédicos.

O Relatório de Economia da Saúde, divulgado pelo Imperial College Health Partners (ICHP), mostrou que, no Reino Unido, são necessários em média 5.6 anos, oito clínicos (incluindo quatro especialistas) e três diagnósticos incorretos até que uma doença rara seja corretamente identificada. Quanto mais dados estiverem disponíveis, quanto mais informações disponibilizarmos sobre nossa saúde, mais vidas serão salvas e mais epidemias serão controladas antes de se espalharem.

Nota do editor: Como já visto no texto “As previsões da Singularity University até 2038 – Parte II: O futuro”, publicado em julho, acredita-se que até 2032, dispositivos microscópicos estenderão nosso sistema imunológico. Além disso, o surgimento de novas doenças e superbactérias resistentes a todos os antibióticos conhecidos, aumentar o sistema imunológico pode ser uma necessidade para combater uma ameaça global.

Teleconsultas: O futuro muito além do prontuário eletrônico

Em pesquisa realizada em dezembro de 2018, pela Associação Paulista de Medicina/Global Summit, com retorno espontâneo de 848 entrevistados, 84,67% dos médicos afirmaram usar ferramentas de TI para observação dos pacientes e para otimizar o tempo da consulta. O prontuário eletrônico é a ferramenta mais utilizada, com 76,75% das respostas entre os que já incorporaram a tecnologia na rotina. O Conselho Federal de Medicina chegou a aprovar recentemente uma resolução que autorizava os médicos brasileiros a atenderem seus pacientes pela internet para realização de consultas, diagnósticos e outros procedimentos a distância. Mas depois de muita polêmica, a resolução foi revogada.

O assunto ainda vai gerar muita discussão entre as entidades médicas, mas me parece inevitável o avanço da telemedicina e da consulta virtual para casos mais simples, o que aceleraria o atendimento especialmente em um País como o Brasil, que tem muitas populações que moram em regiões muito afastadas onde não há profissionais de saúde. Na Europa, 24 dos 28 países membros possuem legislação sobre teleconsulta. Destes, 17 permitem a consulta remota de forma plena e apenas três com restrições (emergências, áreas com carência de médicos e necessidade de primeira consulta presencial). Alemanha, Eslováquia e Itália ainda não permitem o atendimento a distância.

Medicina mais preventiva: Para acelerar a descoberta do diagnóstico

Para acelerar a descoberta do diagnóstico, a startup Human Longevity Inc. realiza a análise da sequência completa do genoma, com o objetivo de descobrir tumores e/ou anormalidades cerebrais em desenvolvimento. No final de 2018, a HLI publicou resultados reveladores dos primeiros 1190 clientes, principalmente porque os pacientes eram todos financeiramente “confortáveis” (o acompanhamento custa na faixa de 25 mil dólares) e tinham acesso aos melhores médicos.

Os dados mostraram que 2% tinham tumores previamente desconhecidos e foram detectados pela ressonância magnética; 2,5% tinham aneurismas previamente não detectados; 8% tinham arritmia cardíaca; e 30% tinham gordura hepática elevada não identificada anteriormente. Resumindo, 14,4% dos clientes descobriram informações relevantes sobre a saúde que exigiam acompanhamento ou intervenção imediata. Já 40% descobriram informações de longo prazo que serão fundamentais para a saúde.

O futuro: Uma aliança para monitorar sua saúde e nanorobôs que nadam no seu sangue

Um relatório da Wise Guy Reports sobre “Internet das Coisas (IoT) no mercado de assistência médica” revelou que esse setor deve alcançar US$ 477,9 bilhões em 2025. De acordo com projeções do Plano Nacional de IoT, uma iniciativa do BNDES, estima-se que até 2025 o mercado global de saúde tenha um ganho potencial gerado pela Internet das Coisas de US$ 1,7 trilhão. No Brasil, estima-se que o valor poderá chegar a US$ 39 bilhões.

Nessa linha, temos um bom exemplo de algo que já está no mercado: o anel inteligente Oura, que analisa informações como batimento cardíaco, temperatura e atividades físicas. Dentre os recursos interessantes do anel estão: conexão Bluetooth, funcionamento autônomo e sensor de acelerômetro. O acessório tem ainda uma memória que armazena até três semanas de dados e um chip ARM Cortex no processamento. O aplicativo para controlar os dados pelo celular oferece dicas para otimizar o sono, atividades diárias e outras dicas para melhorar a saúde do usuário. São apresentados gráficos indicativos dos resultados em uma plataforma pessoal fácil de usar. O registro é analisado e identifica etapas do sono entre o mais profundo, REM, sono leve e períodos desperto.

Já com o avanço dos nanorobôs será possível monitorar inúmeros novos parâmetros e até mesmo diagnosticar doenças. Recentemente, os pesquisadores do MIT construíram robôs em escala micro capazes de detectar, registrar e armazenar informações sobre o corpo humano. Esses minúsculos robôs, com cerca de 100 micrômetros de diâmetro, podem realizar tarefas computacionais pré-programadas. Já os engenheiros da Universidade da Califórnia desenvolveram nanorobôs alimentados por ultrassom que nadam eficientemente pelo sangue, removendo bactérias nocivas e as toxinas que produzem. Em breve, com o desenvolvimento da tecnologia, esses robôs farão entrega direcionada de medicamentos e ações corretivas no corpo humano.

E você? Aceitaria ser monitorado o tempo todo pelo seu médico? Faria uma teleconsulta? Tomaria uma pílula com um robô para navegar pelos seus órgãos e analisar se está doente? A tecnologia vai colocar sua saúde na palma da sua mão. Cuidar da sua vida dependerá mais e mais do compartilhamento dos seus dados. Só vai depender de você.

Sobre o autor: Michel Levy é CEO da Omnilink, empresa que oferece integração de soluções para segurança e prevenção de risco, gestão de frotas, monitoramento de veículos e telemetria. É também Conselheiro independente do Grupo Benner.

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Créditos: Foto Destaque – Por everything possible/Shutterstock

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