Como serão as cidades do futuro nos próximos 100 anos?

Super arranha-céus, cidades subaquáticas e estruturas subterrâneas. Você consegue imaginar como serão as cidades do futuro? O “SmartThings Future Living Report”, relatório encomendado pela Samsung e divulgado em 2016, traz algumas perspectivas de futuro. Escrito por uma equipe de acadêmicos, entre eles a cientista espacial britânica Maggie Aderin-Pocock, os arquitetos futuristas Arthur Mamou-Mani e Toby Burgess, e o urbanista Els Leclerq, o relatório reúne previsões de como viveremos no futuro e como as cidades se transformarão nos próximos 100 anos. Entretanto, o relatório já possui pouco mais de 3 anos e muita coisa mudou desde então. Por isso, decidi ousar um pouco mais no artigo abaixo. Muito além de apresentar as soluções do futuro, no texto abaixo revisei as previsões do relatório – com fatos que surgiram nos últimos anos.

De acordo com o estudo, “muitas das previsões foram influenciadas por condições ambientais, onde populações crescentes nos levam ao desenvolvimento de estruturas que são mais capazes de lidar com restrições de espaço e recursos em diminuição.” Para entendermos melhor o que isso significa, precisamos observar dois pontos: 1. Segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), até 2050 a população mundial deve crescer em mais de 2,2 bilhões de pessoas. De acordo com o Departamento dos Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (DESA), em 2030 já seremos mais de 8.6 bilhões de pessoas. 2. A população urbana cresce de forma exponencial. Acredita-se que mais de 60% da população global viverá em áreas urbanas nos próximos 10 anos. Ou seja, teremos mais gente morando em megacidades.

Como já comentei no texto “O futuro das cidades: Projeto Mineápolis 2040 e as megacidades”, do Instituto Tellus, vale uma reflexão sobre o termo megacidade. Ele surgiu em meados da década de 90, quando especialistas da ONU classificaram grupos de cidades com 10 milhões de habitante ou mais. De acordo com o IBGE, em julho de 2018, a cidade de São Paulo já possuía pouco mais de 12 milhões de habitantes. Já os números de Pequim são ainda maiores. São quase 22 milhões de pessoas. Apesar de terem tamanhos bem diferentes, ambas as cidades já extrapolam o conceito de megacidade.

Super Arranha-Céus e as Cidades em Camadas

Voltando ao “SmartThings Future Living Report”, uma das previsões é que os super arranha-céus farão parte da nossa paisagem nos próximos 100 anos. Nanotubos de carbono e nanofios de diamante nos ajudarão a criar megaestruturas que farão o Burj Khalifa (828 metros) parecer um pequeno prédio. Aqui vale outra observação. Dos 10 maiores prédios do mundo atualmente, apenas 1 (o Taipei 101, com 508 metros) foi concebido antes de 2000. Podemos dizer que conseguimos “ganhar” 300 metros em menos de duas décadas. Fazendo a famosa “conta de padaria” – e seguindo o mesmo ritmo – teríamos prédios com mais de 1.5km de altura em 100 anos. Pode parecer muito, mas isso não é nem 20% da altura do Everest (8.848 metros) e bem longe dos 12km de altura da Troposfera – camada da atmosfera onde vivemos e respiramos.

Do mesmo jeito que conseguiremos ganhar alguns andares para cima, também conseguiremos ir para baixo. Outra previsão do relatório é que conseguiremos escavar estruturas com 25 andares ou mais abaixo da terra. Isso não quer dizer que vamos morar em estrutura subterrâneas. Pelo contrário, em um mundo onde o espaço de terra tornou-se algo de altíssimo valor, por quê gastaríamos espaço para, por exemplo, nos locomover? Iniciativas como o Hyperloop, a rede de túneis pressurizados, devem criar novas formas de locomoção.

Segundo o relatório, não é só em terra firme que veremos o surgimento de novas cidades. Ele afirma que “cidades subaquáticas provavelmente se tornarão uma realidade. Usando a própria água para criar atmosferas respiráveis e gerar combustível de hidrogênio.” Essa é uma das apostas o qual sou mais cético. Apesar dos constantes estudos, ainda hoje, o fundo do mar é mais desconhecido do que o solo lunar. Além disso, a alta pressão, os impactos ambientais e os desafios de construção seriam desafios extras para o surgimento destas Atlântidas high tech. A minha aposta? Ilhas artificiais.

A técnica não é nova e possibilitaria o surgimento de cidades em várias regiões. Novamente, o desafio talvez não fosse técnico, mas político. Ilhas artificiais podem estender alguns países, “invadindo” águas internacionais e gerando disputas em zonas com histórico de disputas, como o Mar do Japão. Se você já viu a série Years and Years, da HBO, deve ter percebido que essa é uma questão de pano de fundo da trama.

Aeronaves pessoais e impressões 3D

Nos próximos 100 anos, “viajaremos com drones voadores, alguns fortes o suficiente para transportar casas inteiras.” Sobre esta tendência, gostaria de fazer dois comentários. Primeiramente sobre os drones. Isso não acontecerá em 100 anos, isso acontecerá em breve. Voar não é algo novo, apenas está reservado a uma faixa da elite da sociedade. São Paulo, por exemplo, possui uma das maiores frotas de helicóptero do mundo. Segundo a Anac, são mais de 2.200 aeronaves registradas no Estado brasileiro. No caso de drones, estaremos apenas mudando o formato. Além disso, algumas empresas têm investido pesado nesse mercado. A Uber, por exemplo, tem trabalhado nos primeiros projetos de uberAIR Skyports – como serão chamados os locais de decolagem e pouso para aeronaves eVTOL (aeronaves elétricas de pouso e decolagem na vertical). Já o segundo ponto é… Por que alguém transportaria a casa com um drone!?

Por falar em casa, outra aposta do relatório é a impressão 3D. Mas não estamos falando de pequenos objetos de plástico, mas de casas e refeições. De todas as previsões do relatório, esse talvez seja o ponto que mais avançou nos últimos anos. Além de diversas impressões e em escalas, pesquisadores já falam na impressão de 3D de alimentos criados geneticamente e órgãos humanos. No campo da alimentação, já é possível encontrar impressoras 3D de alimentos em formato residencial por “módicos”US$ 4 mil, que é o caso da Foodini, da espanhola Natural Machines (veja abaixo).

Por fim… hologramas, cápsulas médicas e Marte

O relatório cita que “nossas vidas profissionais serão transformadas com o uso de hologramas, que nos permitirão participar de reuniões virtualmente, sem deixar o conforto de nossas casas.” Confesso que é algo que quero muito ver, mas sinto que, antes dos hologramas, precisamos resolver uma questão comportamental, a adesão do home office como plataforma de trabalho. O formato já foi o queridinho de algumas empresas, mas tem perdido espaço para outras formas de trabalho. Segundo artigo publicado na Harvard Business Review, o trabalho remoto – onde você pode trabalhar de qualquer lugar, não necessariamente de casa – pode aumentar 4.4% a produtividade no trabalho. Fique atento, em breve, vamos falar mais sobre trabalho remoto aqui no InovaSocial.

Se vamos passar mais tempo em casa, nada mais lógico do que também cuidar da saúde dentro dos nossos lares. Segundo o relatório, “cápsulas médicas residenciais” confirmarão se você está realmente doente, fornecendo um diagnóstico digital, remédios e/ou um cirurgião remoto, se necessário. Mesmo sem cápsulas médicas e em um ambiente controlado, pela primeira vez na história, Antonio De Lacy, especialista em cirurgia gastrointestinal realizou em fevereiro de 2019 uma cirurgia com telementoria, através de uma rede 5G. Veja o vídeo neste link.

Por fim, se tudo isso acontecer e, mesmo assim, a Terra ficar “pequena” para a raça humana, nos próximos 100 anos devemos colonizar o espaço. Começando pela Lua, depois Marte, seguido por outros exoplanetas. Resta saber se vamos saber cuidar deste planeta, antes de alcançarmos outros lugares.

Nas palavras do astrônomo Carl Sagan, não podemos esquecer que “(a Terra) é o nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todo ser humano que já existiu, todos de quem você já ouviu falar, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada criança esperançosa, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada ‘superstar’, cada ‘líder supremo’, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de Sol.”

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