Cérebro Conectado: Facebook, Neuralink e computadores controlados com a mente

Imagine controlar o computador apenas com o pensamento. Pode parecer algo impossível, mas existe uma startup focada em tornar isso realidade. Baseada em Nova York, a CTRL-Labs foi fundada pelo neurocientista Patrick Kaifosh e é a mais nova aquisição do Facebook. Sim, a empresa de Mark Zuckerberg acaba de comprar uma empresa especializada em desenvolver formas (via software) de controlar dispositivos com a mente. O objetivo é investir em tecnologias que permitam melhorar a interface entre humano e máquina.

Em uma negociação que pode girar em torno de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão, a CTRL-Labs agora faz parte do Facebook Reality Labs (FRL), divisão da empresa focada em soluções de realidade virtual. Segundo Andrew Bosworth, vice-presidente do FRL, a ideia é criar uma pulseira que permita que as pessoas controlarem dispositivos como “uma extensão natural do seu movimento.” Atualmente, no entanto, esse tipo de tecnologia exige que seja feita inserção cirúrgica de eletrodos, mas o Facebook está buscando uma forma de utilizar sensores vestíveis (wearables) que possam substituir a solução invasiva. De acordo com Bosworth, “tecnologias como essa têm o potencial de abrir novas possibilidades criativas e reimaginar as invenções do século XIX em um mundo do século XXI. É assim que nossas interações em realidade virtual e realidade aumentada podem um dia parecer. Isso pode mudar a maneira como nos conectamos.”

Não é de hoje que o Facebook busca recriar as interfaces cérebro-computador. Em 2017, a empresa de Zuckerberg já havia anunciado que “um dia, as pessoas poderão transformar pensamentos em texto em uma tela, apenas monitorando sinais do cérebro.” E o Facebook não está sozinho nesta visão de futuro. Antes de ser adquirida, a CTRL-Labs já havia levantado US$ 67 milhões em investimentos de risco, de acordo com a Crunchbase, e possui uma lista de grandes investidores, entre eles a Spark Capital (empresa de capital de risco responsável pelo financiamento inicial de inúmeras startups de sucesso, incluindo Twitter, Tumblr, Oculus, entre outros), GV (do Google) e Alexa Fund (da Amazon).

Um mundo movido com o cérebro: Neuralink, BrainGate e outros

Durante anos, a ficção científica contou histórias sobre ciborgues. Mas, assim como em muitos filmes, as imagens de pessoas com implantes visíveis, como braços cromados ou olhos biônicos, estão longe de serem o futuro desta nova fase da interface cérebro-computador.

Composta por neurologistas, neurocientistas, engenheiros, cientistas da computação, neurocirurgiões, matemáticos e outros pesquisadores, a equipe colaborativa do BrainGate cria e testa uma série de microeletrodos que, quando implantados no cérebro, mostraram que os sinais neurais associados à intenção de mover um membro podem ser “decodificados” por um computador em tempo real e usados para operar dispositivos externos. Esse sistema de investigação permitiu que pessoas com lesão medular, acidente vascular cerebral (AVC) e ELA controlassem o cursor de um computador simplesmente pensando no movimento de sua própria mão paralisada. No entanto, esse sistema não deve ter uma vida útil muito longa. Isso porque o tecido cicatricial se acumula gradualmente nos microeletrodos, levando a perda de sinal.

Quase duas dezenas de pessoas receberam implantes com o sistema da BrainGate em todo o mundo. Leigh Hochberg, neurologista do Hospital Geral de Massachusetts, professor de engenharia da Brown University e co-diretor do programa, afirma que houve um grande progresso até o momento, mas “ainda não existe um sistema que os pacientes possam usar o tempo todo.” Será?

A boa (e polêmica) notícia é que alguns já estão pesquisando sistemas mais avançados. Em julho, o bilionário Elon Musk apresentou detalhes de um novo sistema sem fio implantável que sua empresa, a Neuralink, está construindo. Para um neurocirurgião da empresa, caso a tecnologia se mostre eficaz em uma pessoa, o primeiro passo é ajudar pacientes com doenças neurológicas. A partir daí, a tentativa será a de reverter quadros graves, como o de devolver a visão a um cego.

Digo que é polêmico, porque – mesmo com as declarações – ainda não sabemos os reais objetivos da empresa e, segundo o próprio Musk anunciou, o novo sistema já está sendo testado em macacos (!) com previsão para que os testes em humanos comecem antes do final de 2020, ou seja, nos próximos meses. Ao contrário da “pequena” quantia investida na CTRL-Labs, a Neuralink já recebeu US$ 158 milhões em financiamento, dos quais US$ 100 milhões vieram do próprio Musk.

Supondo que os objetivos sejam os melhores possíveis e que, tanto Neuralink, quanto BrainGate ou CTRL-Labs, consigam transpor as barreiras tecnológicas, ainda teremos as barreiras sociais. De acordo com Anna Wexler, professora assistente do Departamento de Ética Médica e Política de Saúde, da Universidade da Pensilvânia, “o Google Glass falhou não porque não funcionou, mas porque as pessoas não queriam usar um computador facial. Alguém confiará no Facebook o suficiente para usar o seu dispositivo, se ele conseguir desenvolver um?” Para complementar este pensamento, sugiro que leia o nosso texto “Detroit Become Human: Um jogo sobre empatia e humanidade” e entenda um pouco mais sobre o neoludismo, movimento que questiona o culto à tecnologia e o impacto dela no coletivo.

O questionamento de Wexler é bem válido. Os microeletrodos não são um grande desafio de ser superado (é claro, temos grandes barreiras técnicas, mas acredito que isso seja apenas uma questão de tempo para ser resolvida), já o fator humano e a segurança/privacidade em ter seu cérebro conectado ao computador pode ser uma das grandes discussões éticas dos próximos anos.

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