Notificações: Há algo novo para você! Será?

Poucas invenções afetaram nossa relação com a tecnologia tanto quanto as notificações push. Antes das notificações dos dias modernos, a maioria de nós se sentia responsável por decidir quando queríamos usar e interagir com a tecnologia, mas agora a tecnologia está tomando essa decisão para nós.

Na verdade, é fácil culpar a tecnologia, mas é importante observar que não é a tecnologia que está no centro do problema, mas sim a nossa incapacidade de lidar com ela. Afinal, nem todas as notificações foram criadas da mesma forma. Para entender melhor a evolução da relevância que damos para esse simples aviso sonoro, precisamos conversar sobre como chegamos onde estamos.

Em 1971, Raymond Tomlinson, um programador de computadores de Massachusetts, tinha uma tarefa que mal ele sabia que se tornaria um marco fundamental da cultura digital moderna. Enquanto trabalhava na Advanced Research Projects Agency Network (ARPANET) do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, a primeira versão da internet subsidiada pelo governo dos EUA, Raymond precisava descobrir uma forma de permitir que os usuários enviassem mensagens uns aos outros.

Antes de sua invenção, as mensagens só podiam ser enviadas para usuários que tivessem suas contas no mesmo computador. Esse cenário mudou a partir do momento em que Raymond usou o símbolo do @ para resolver seu problema. Assim, isso permitiu que os usuários separassem o nome do destinatário do nome da máquina que estavam usando.

A partir daí, não demorou para que os emails representassem 75% de todo tráfego de dados da internet. A alta demanda de e-mails levou subsequentemente à criação do protocolo simples de transferência de e-mail (SMTP), que logo se tornou o padrão global de envio e recebimento de e-mails. Surpreendentemente, o SMTP já possuía um sistema de notificações, mas essa funcionalidade não foi muito usada, já que poucos usuários estavam permanentemente conectados à internet naquela época.

Isso mudou quando os primeiros telefones habilitados para internet, a.k.a. smartphones, chegaram ao mercado.

Em 2003, a Research In Motion (RIM) foi a primeira empresa a comercializar com sucesso a notificação push em um produto de usuário final. Seu produto principal, o BlackBerry, foi o primeiro smartphone com a capacidade de notificar imediatamente os usuários quando recebiam um novo e-mail. E tal recurso não era considerado apenas um mero detalhe, na verdade, ele ser tornou o motivo principal que gerou a adoção em massa do BlackBerry no mundo dos negócios.

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Não demorou muito para que os concorrentes percebessem o potencial de uma arquitetura de rede impulsionada por notificações, principalmente se tratando de um dispositivo que estava sempre com as pessoas.

Em 2008, após o crescente interesse na comunidade de desenvolvedores, a Apple abriu notificações para o público em geral e as disponibilizou sob o nome Apple Push Notification Service (APNS). Essa foi uma das mudanças mais significativas nos sistemas operacionais móveis desde o próprio iPhone.

As notificações não se tornaram apenas uma parte essencial do telefone, logo o famoso ícone em formato de sino logo apareceu em todos os lugares: dos sistemas operacionais aos aplicativos e, recentemente, as notificações chegaram aos sites. Com o tempo, o as notificações se tornaram rapidamente a representação de uma ideia simples: há algo novo para você.

Você. Você. Você.

As palavras “novo” e “você” juntas na mesma frase criaram um dos mais potentes coquetéis de dopamina da história da tecnologia. Não é novidade que os usuários ficaram empolgados. Esse sistema altamente pessoal soaria como uma mudança radical na economia da atenção: fornecer conteúdo altamente personalizado na hora.

Hoje, todo mundo quer estar em nossas notificações. Até mesmo os sites mais aleatórios nos pedem permissão para nos bombardear com conteúdo.

A quantidade de informações recebidas deixou muitas pessoas frustradas e sobrecarregadas. E isso não é culpa das empresas que geram as notificações. As pessoas tem uma incapacidade absurda de simplesmente dizer não.

Em seguida, um novo tipo de notificação entrou na cena. À medida que a competição pela atenção vem se tornando cada vez mais acirrada, grandes players estão usando táticas para aumentar o engajamento em suas plataformas. Se até ontem costumávamos ser notificados sobre coisas que eram sobre nós, agora também sabemos quando o Pedro curtiu a foto de um abacate que a Juliana postou. Neymar voltou a seguir Bruna Marquezine no Instagram? Pode ter certeza de que alguém recebeu uma notificação a respeito disso (e ainda transformou em notícia).

Esse novo tipo de notificação é diferente de todos os tipos que já vimos e podemos chamar isso de “anti-notificações”. Elas não são para você, nem sobre você; elas são destinadas para outra pessoa. E seu único objetivo não é aumentar o valor, mas otimizar o envolvimento de curto prazo.

O sino que antes era usado para nos manter no fluxo, agora é usado principalmente para nos trazer de volta a ele. Por meio de recompensas variáveis, as notificações se tornaram uma das formas mais potentes de manter as pessoas engajadas. E enquanto algumas pessoas ensinam designers e gerentes de produtos a criar produtos viciantes, outras estão ajudando e aconselhando empresas sobre como criar produtos que respeitam o tempo das pessoas.

Há um fim à vista. No momento em que nos tornamos conscientes de como as notificações têm se tornado cada vez mais barulhentas e vazias, elas perdem sua eficácia.

As anti-notificações são como a história do Pastor Mentiroso (das Fábulas de Esopo), na qual um menino pastor enganou repetidamente os aldeões para acreditarem que um lobo estava atacando as ovelhas. Quando um lobo realmente apareceu, o garoto tentou desesperadamente avisar a todos, mas ninguém escutou. Não é preciso dizer mais nada para que você saiba que essa história teve um final nada feliz para as ovelhas.

Nós ignoramos um pastor mentiroso como ignoramos um sino que sempre toca. Notificações que visam unicamente aumentar o envolvimento sem fornecer valor pessoal funcionam da mesma maneira. Elas são uma ferramenta poderosa para aumentar o envolvimento a curto prazo, mas podem muito bem ser o que faz com que todas as outras notificações um dia sejam ignoradas por completo.

Qual vai ser o próximo cenário? Apenas o tempo vai dizer. E nós provavelmente seremos avisados disso através do som uma notificação aparecendo em nossas telas.

E você? Já revisou as regras de notificação do seu celular hoje?

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Essa publicação foi adaptada para o português, inspirada na publicação The Rise of Anti-Notifications, escrita por Adrian Zumbrunnen.

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