É (muito) difícil ser negra e mulher no Brasil

Segundo o IBGE, cerca de 54% da nossa população se considera negro ou pardo. Infelizmente a precisão deste número é discutível, visto que o próprio indivíduo (entrevistado) declara a sua cor de pele para os pesquisadores. Não é só isso, segundo o Estadão, este levantamento declaratório faz com que 2,5 milhões de mulheres (que se declaram “negra”) “sumissem” das estatísticas.

Recorte feito pelo Estadão Dados nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostra que, historicamente, as mulheres declararam ser mais brancas que o sexo oposto.

A resposta para isso tem origem em um dilema. É (muito) difícil ser negra e mulher no Brasil. E isso não é só apontado pela militância negra constante mente, como também é um fato apontado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea, em seu estudo “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça”, onde identificou que ser mulher e negra no Brasil significa trabalhar mais, ganhar menos e ter limitadas oportunidades no mercado de trabalho.

Em 2015, o salário médio de um adulto branco era de R$ 2.510, mais que o dobro do que a média de valor de uma mulher negra, algo em torno de R$ 1.027. As adversidades não acabam aí. Nas seis maiores regiões metropolitanas do país, 47% das mulheres negras vivem do trabalho informal.

Uma dura realidade, mas que também possui suas inspirações. Para quem assistiu ao filme “Estrelas Além do Tempo”, que conta a história de uma equipe de cientistas da NASA, formada exclusivamente por mulheres afro-americanas, durante o auge da Guerra Fria, deveria saber que nós também temos nossas “Katherine Johnson”.

Mestre em Física Aplicada e doutora em Materiais Eletrônicos, a física Sônia Guimarães é professora no Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA, uma das instituições mais respeitadas e concorridas do país, e foi a primeira mulher negra a receber um título de doutorado em física, em 1983.

Parte de uma geração mais jovem, a gaúcha Katemari Rosa é outra que inspira e devíamos conhecer. Graduada em Física, ela possui mestrado e doutorado pela Universidade de Columbia, nos EUA, e – atualmente – é professora adjunta da Universidade Federal de Campina Grande, onde trabalha na formação de novos professores, para que entendam a necessidade de inspirar jovens a seguir no caminho das ciências.

Em declaração para o jornal El País, a professora explicou que “uma das minhas alunas fez um projeto para examinar livros didáticos de física do ensino médio. Nas imagens analisadas, as pessoas negras só apareciam na parte de mecânica, velocistas africanos ou jogadores de futebol. As (mulheres) negras estavam empurrando carrinho de bebê. E a gente pensa que física não tem nada a ver, mas está cheio de imagens que reforçam o papel da mulher, o papel do negro. Nós aprendemos desde cedo onde são nossos lugares”.

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