De série a políticas públicas no espaço: O fim da Força Espacial dos EUA

De série a políticas públicas no espaço: O fim da Força Espacial dos EUA

Cientistas, futuristas e outros tantos especialistas afirmam que o futuro da nossa sociedade está no espaço. Marte é o grande alvo, mas a Lua também não está atrás; ainda mais depois que a NASA anunciou a retomada dos planos de revisitar nosso satélite natural e os chineses deram uma “voltinha” pelo lado oculto da Lua. Ye Quanzhi, astrônomo do Instituto de Tecnologia da Califórnia, disse à BBC que essa foi a primeira vez que a China “tentou algo que outras potências espaciais nunca tinham tentado antes”. Segundo a BBC, “a China quer se tornar a líder em exploração espacial, ao lado dos Estados Unidos e da Rússia.”

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Em resumo, todos querem o espaço. Foi nessa justificativa, que o presidente Donald Trump assinou a Lei da Força Espacial dos EUA, em dezembro de 2019, e o Congresso tornou a decisão permanente com a Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2020. Com isso, a Força Espacial tornou-se o sexto braço das Forças Armadas norte-americanas. E, segundo o site The Atlantic, “é focada na proteção dos interesses dos EUA no espaço, incluindo a supervisão e desenvolvimento de satélites e a dissuasão de agressões no espaço.”

Durante o lançamento oficial em dezembro de 201, Trump afirmou: “Em meio a graves ameaças à segurança nacional, a superioridade americana no espaço é absolutamente vital (…). E estamos liderando, mas não o suficiente. Mas muito em breve estaremos liderando por muito.” Já não sei bem se a vida imita a arte ou a arte imita a vida, pois isso tudo parece ter saído de um enredo da série Space Force, lançada pelo Netflix em maio de 2020. 

Dos mesmos criadores de The Office e protagonizada por Steve Carell, a primeira temporada da série fala exatamente sobre isso, a soberania dos EUA no espaço, uma nova corrida espacial contra russos e chineses, espionagem e decisões absurdas que deveriam impactar todo o mundo, mas parece se restringir a luta de egos, de líderes que ignoram a ciência e parecem viver no “mundo da Lua”.

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Voltando para a realidade, um memorando obtido pelo site SpaceNews, afirma que grupos progressistas querem pressionar o presidente eleito Joe Biden a cortar os orçamentos militares da Força Espacial dos EUA, dando um fim ao que muitos consideram ser uma “bagunça burocrática em busca de um problema” e que deve custar US$ 16 bilhões aos cofres dos EUA em 2021.

Para ilustrar e simplificar, vamos levar em conta a cotação do dólar a R$ 5. O valor utilizado pela Força Espacial é equivalente a quase todo o orçamento brasileiro das chamadas “despesas discricionárias” (R$ 89,16 bilhões em 2020). Ou seja, dá para fazer muita coisa, mas o governo dos EUA decidiu que seria interessante usar para controlar o espaço com força bruta e ignorando os tratados assinados sobre o assunto. Uma política pública de conquistar e ignorar a diplomacia ou a colaboração, relembrando um passado obscuro da sociedade, onde os países mais fortes subjugam os mais fracos e criam colônias pelos mundo.

Onde o Brasil entra nisso tudo? Alguns pontos são válidos, mesmo que seja só para reflexão: 1. As atuais políticas públicas falam em soberania nacional, mas do que adianta controlar terra e não controlar o que está sobre nossas cabeças? 2. A Agência Espacial Brasileira (AEB) lançou um edital para que empresas civis utilizem a Base de Alcântara, no Maranhão. Um detalhe desperta atenção, são para empresas do mundo todo. Por que não focar em empresas brasileiras, promovendo este setor no país? Por ficar a 250km da linha do Equador, a base permite uma grande economia de combustível. Não podemos aproveitar isso e desenvolver, mesmo de forma inicial, um projeto consistente para a base?

Voltando aos EUA, eliminar a Força Espacial não será tarefa fácil. Na verdade, tecnicamente Biden não tem o poder de fazer isso sozinho, como aponta a SpaceNews . “Certamente o governo Biden terá prioridades legislativas mais urgentes do que isso no contexto do COVID-19, a economia e as prioridades domésticas”, afirmou a pesquisadora sênior adjunto do Centro para uma Nova Segurança Americana, Sarah Mineiro, que ajudou a redigir a legislação da Força Espacial e Comando Espacial, em declaração para o SpaceNews.

Isso quer dizer que a Força Espacial dos EUA pode estar apenas começando e terá espaço para evoluir do status de série de comédia, para força militar com poderes incalculáveis (não estamos falando de raios laser ou luta contra alienígenas; estamos falando de monitoramento de dados, controle de satélites e por aí vai). Ao que tudo indica, é mais fácil a série de Carell não chegar a segunda temporada, do que os EUA parar de gastar bilhões com uma força militar no espaço.