Categories Soluções de ImpactoPosted on 18/09/202618/09/2026O que significa viver em um deserto alimentar? • Acesso vai além da distância: ter comida à venda por perto não garante que ela seja variada, acessível no preço ou viável de transportar até casa. • O Brasil já mapeia desertos: em 91 grandes municípios, 32,3% dos habitantes das áreas urbanizadas analisadas estavam em territórios classificados como desertos alimentares. • Território influencia, não determina: oferta, renda, preço, transporte e mobilidade moldam as possibilidades de compra, mas os mapas não dizem sozinhos o que cada pessoa come. Comprar frutas, verduras, arroz, feijão e outros alimentos para a semana pode ser, para algumas pessoas, uma tarefa de poucos minutos. Basta sair de casa, caminhar algumas quadras e encontrar preços e variedade que caibam no orçamento. Em outro ponto da mesma cidade, essa “atividade” pode exigir um trajeto bem diferente. O estabelecimento mais próximo vende alimentos, mas tem pouca variedade. Frutas e vegetais são apenas encontrados na feira livre, que funciona apenas em um dia da semana. Uma opção mais completa fica longe o suficiente para exigir transporte. E voltar com sacolas pesadas acrescenta uma dificuldade que o mapa da distância não mostra. É nesse tipo de diferença que entra o conceito de deserto alimentar. Desde 2023, o Brasil tem uma definição federal para o termo. São locais onde o acesso a alimentos in natura ou minimamente processados é escasso ou impossível, a ponto de exigir deslocamento para outras regiões. Mas a ideia visual de um “deserto” pode enganar. Um lugar classificado dessa forma não precisa estar sem mercados, lanchonetes ou comida à venda. A questão é quais alimentos estão acessíveis, onde estão e o que uma pessoa precisa fazer para chegar até eles. Quando a compra depende do lugar onde se mora O mapeamento mais recente do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social tentou transformar essa ideia em uma medida territorial. Nas áreas urbanizadas de 91 municípios com mais de 300 mil habitantes, o método calculou quantos estabelecimentos classificados como fontes de alimentos mais saudáveis podiam ser alcançados a pé em até 15 minutos. A conta considerou também a população de cada área. No estudo, foram classificadas como desertos as regiões no grupo de menor acesso, com até cinco estabelecimentos considerados saudáveis por mil habitantes dentro dessa janela de caminhada. O resultado chama atenção pelo tamanho. Cerca de 25,1 milhões de pessoas, equivalentes a 32,3% dos aproximadamente 77,7 milhões de habitantes incluídos nesse recorte, estavam em áreas classificadas como desertos. Isso não significa que um em cada três brasileiros viva em um deserto alimentar. O levantamento intramunicipal cobriu essas 91 grandes cidades, e não toda a população do país. Também há diferenças expressivas entre elas. Em Ananindeua, no Pará, 70,1% dos moradores da área urbanizada analisada estavam em territórios classificados como desertos. Em Curitiba, no Paraná, eram 9,7%. Os números descrevem a acessibilidade segundo uma metodologia específica. Não mostram quantas pessoas passam fome, o que cada morador compra nem se a alimentação de alguém é adequada. Há outro detalhe importante: o artigo que descreve a metodologia foi publicado em 2026, mas a fotografia do comércio é mais antiga. A principal base de estabelecimentos é a RAIS de 2022, e a classificação dos perfis de compra utiliza dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017 e 2018. O mapa é o mais recente localizado, mas não retrata as lojas abertas ou fechadas em 2026. Um mercado perto pode não significar acesso Imagine duas famílias que moram a dez minutos de um mercado. Para a primeira, os alimentos procurados estão disponíveis, o preço cabe no orçamento e há um carro para levar as compras. Para a segunda, a loja oferece poucas opções frescas, os preços pesam mais na renda e tudo precisa voltar para casa a pé ou de ônibus. Geograficamente, as duas vivem perto de um comércio. Na prática, o acesso é diferente. O próprio Guia Alimentar para a População Brasileira reconhece que custo, oferta, tempo e publicidade podem dificultar uma alimentação adequada. A FAO inclui fatores físicos e econômicos ao definir o ambiente alimentar em que as pessoas decidem o que comprar, preparar e consumir. Por isso, contar supermercados tem alcance limitado. O acesso real também pode depender de: variedade, qualidade e regularidade dos estoques; ônibus, metrô, carro ou possibilidade de caminhar; horário de funcionamento e localização da feira ou mercado; condições individuais para percorrer o trajeto e carregar as compras. Nem todos esses elementos entram no mapa brasileiro. A metodologia considera distância a pé, quantidade e perfil dos estabelecimentos e alguns equipamentos como feiras, mercados públicos e sacolões. Preço não entra no cálculo. O comércio informal também fica de fora da principal base utilizada. Estoque e variedade não foram inspecionados prateleira por prateleira. A renda aparece depois, quando os pesquisadores cruzam a geografia do comércio com informações socioeconômicas. Entre as pessoas de baixa renda inscritas no Cadastro Único consideradas nesse recorte, cerca de 38% viviam em áreas classificadas como desertos. É uma sobreposição importante, mas não demonstra que uma condição cause a outra. Também ajuda a entender por que deserto alimentar e insegurança alimentar não são sinônimos. A insegurança alimentar descreve a experiência de um domicílio com dificuldade de garantir comida suficiente e adequada. Segundo a PNAD Contínua de 2024, 24,2% dos domicílios brasileiros enfrentavam algum grau de insegurança alimentar; 3,2% estavam no nível grave. Uma família pode enfrentar insegurança alimentar mesmo cercada por supermercados, caso não tenha renda suficiente para comprar o necessário. Também pode morar em uma área classificada como deserto e conseguir fazer compras em outros bairros, usar carro ou recorrer a outras formas de abastecimento. São problemas que podem se encontrar, mas medem coisas diferentes. Quando há comida demais de um mesmo tipo A quantidade de estabelecimentos também pode esconder outro tipo de desequilíbrio. O decreto brasileiro chama de “pântano alimentar” uma área com forte concentração de comércio de alimentos considerados não saudáveis e escassez de locais com oferta saudável. No mapeamento recente, o indicador operacional identifica áreas com acessibilidade muito alta a estabelecimentos classificados como não saudáveis. Na prática, o conceito ajuda a separar três situações que podem parecer iguais quando se olha apenas para o número de lojas: Muitos lugares para comer não significam muita variedade: uma região pode ter lanchonetes, lojas de conveniência, bares e outros pontos de venda em abundância, mas poucas opções para comprar frutas, verduras, legumes e outros alimentos in natura ou minimamente processados. Oferta saudável e oferta não saudável podem coexistir: um bairro pode ter feira, mercado e hortifruti e, ao mesmo tempo, uma presença muito intensa de estabelecimentos cujo perfil de vendas é dominado por produtos processados e ultraprocessados. Por isso, contar apenas quantos comércios existem diz pouco sobre a composição da oferta. Deserto e pântano medem problemas diferentes: o deserto aponta baixa acessibilidade relativa a fontes consideradas saudáveis; o pântano aponta alta acessibilidade a estabelecimentos classificados como não saudáveis. Um território pode ter pouco de um problema e muito do outro. Em Santos, por exemplo, 52,9% da população da área urbanizada analisada estava em territórios classificados como pântanos, a maior proporção entre as 91 cidades estudadas. O exemplo ajuda a desfazer a ideia de que um ambiente alimentar problemático precisa ter poucas lojas. Também evita outro atalho: uma cidade com pequena proporção de pântanos não pode ser considerada automaticamente bem atendida por alimentos frescos, assim como grande oferta saudável não elimina uma presença intensa de outros produtos. A composição da oferta importa tanto quanto o número de portas abertas. O que um mapa consegue ver O termo “deserto alimentar” é útil porque dá forma a uma desigualdade que pode passar despercebida: dois moradores de uma cidade não encontram necessariamente as mesmas possibilidades de compra quando saem de casa. Ao mesmo tempo, transformar essa diferença em uma cor no mapa exige escolhas. Quinze minutos de caminhada, por exemplo, são uma medida adotada pelo levantamento brasileiro recente, não uma fronteira universal entre ter e não ter acesso. Mudar a distância considerada, a classificação das lojas ou a unidade territorial pode mudar o resultado. A experiência individual acrescenta outras camadas. Um trajeto curto para uma pessoa pode ser difícil para um idoso, alguém com deficiência, quem está acompanhado por crianças ou quem precisa carregar compras de uma semana inteira. Há ainda deslocamentos que começam longe de casa. Alguém pode comprar comida perto do trabalho, no caminho de volta ou em uma feira de outra região. Entregas, horários, qualidade das calçadas e sensação de segurança também escapam de boa parte dos indicadores geográficos. É uma das razões pelas quais o conceito mais amplo de ambiente alimentar ganhou importância. Ele permite olhar para o conjunto de condições que cerca uma decisão de compra, sem reduzir a vida cotidiana à distância até uma loja. No Brasil, isso já aparece na forma como o poder público trata o abastecimento. A Política Nacional de Abastecimento Alimentar inclui transporte, distribuição, pequeno varejo, feiras, mercados públicos, preços e planejamento urbano. A Estratégia Alimenta Cidades, por sua vez, alcançava 1.102 municípios em 2026, embora isso não signifique que todos já tenham recebido o mesmo mapeamento detalhado das 91 grandes cidades. Nenhum desses instrumentos transforma o endereço em destino alimentar. Eles ajudam a mostrar que a decisão diante de uma prateleira começa antes de alguém escolher entre um produto e outro. Há o caminho até a loja, o dinheiro disponível, o tempo gasto, o transporte possível e, principalmente, aquilo que estava de fato disponível para ser escolhido. 💬 Faça parte da nossa comunidade Receba em primeira mão nossos artigos, tendências e inspirações sobre inovação e impacto social direto no seu celular. Quero participar → Compartilhe esse artigo: