Os desafios e oportunidades da Educação na América Latina pós pandemia

Os desafios e oportunidades da Educação na América Latina pós pandemia

A pandemia de COVID-19 provocou deficiências sem precedentes nos sistemas educacionais, despertando novas necessidades e demandas na América Latina. Nesse cenário, se torna cada vez mais necessário ter acesso a dados relevantes e que possibilitem uma visão crítica para o planejamento educacional. Para discutir essas soluções e desafios na região, o Instituto Internacional de Planejamento Educacional (IIPE) da UNESCO realizou, entre os dias 3 e 5 de novembro, a edição deste ano do Fórum Regional de Política Educacional. 

O encontro virtual reuniu autoridades ministeriais de 29 países da região, além de centenas de representantes da sociedade civil, de organizações internacionais e do meio acadêmico para discutir o papel dos sistemas de informação na elaboração e reorientação de políticas educacionais inclusivas, com foco nas implicações políticas da Agenda ODS-Educação 2030 e em estratégias eficazes para sua implementação. 

Fábio Gomes, Diretor Nacional de Políticas de Alfabetização e Secretário de Alfabetização do Ministério da Educação (MEC), e outros representantes brasileiros da UNESCO – como Mariana Braga, Oficial de Programas de Educação, e Bruna Pereira, Oficial Coordenadora de Educação – trouxeram recortes do país e participaram das discussões do Fórum junto de outros formuladores de políticas educacionais latino-americanos e caribenhos.

Cenário na América Latina 

A crise sanitária gerada pela covid-19 também provocou o fechamento das escolas e outros centros de ensino. Com isso, é muito provável que os avanços no cumprimento da Agenda Educação 2030 e do ODS 4 tenham sofrido uma desaceleração. Estimativas recentes do Instituto de Estatística da UNESCO (UIS) concluem que cerca de 165 milhões de estudantes na região da América Latina e Caribe foram afetados pela interrupção das aulas no momento mais crítico da pandemia. Também é possível estimar que 3 entre 5 crianças no mundo que perderam cerca de um ano escolar durante a pandemia vivem na região, segundo dados da UNICEF. De acordo com outro relatório, também da UNESCO, as escolas de todo o mundo passaram em média 2/3 do ano letivo fechadas e o Brasil está entre os países com maior expressividade nessa questão, com escolas totalizando até 40 semanas com as portas fechadas. 

Os países possuem os dados educacionais necessários para responder à pandemia?

Além das novas demandas do sistema educacional da América Latina e Caribe, outra grande preocupação do Fórum foi destacar a importância de termos mais acesso a dados que permitam monitorar a educação à distância, frequência escolar nos diferentes formatos, planejamento do retorno ao presencial, mensuração do impacto na aprendizagem, entre outros. Neste ponto, os Sistemas de Informação para a Gestão Educacional, também conhecidos pela sigla em espanhol SIGEd, são relevantes como instrumentos de garantia do direito à educação SIGEd – e que agora, com o cenário pandêmico, terão que passar a incluir novas variantes e dados que antes não eram considerados, a fim de lidar com as mudanças que já existem e aquelas que ainda estão por vir.

“Num contexto de agravamento da desigualdade de oportunidades em consequência da pandemia, é fundamental que os países da região tenham sistemas de informação eficazes, capazes de produzir dados válidos e confiáveis, mas sobretudo que utilizem os dados recolhidos e sistematizados no processo de planejamento e gestão dos sistemas educacionais”, afirmou Pablo Cevallos Estarellas, Diretor do Escritório para a América Latina do IIPE UNESCO. 

A discussão também se centrou bastante na necessidade de gerar sistemas de informação que permitam o diagnóstico dos fenômenos de exclusão nos sistemas educacionais da região. Isso também permitiu colocar alguns desafios para o futuro: a necessidade de melhor aproveitamento das informações já existentes na política educacional, a importância de incluir variáveis que permitam evidenciar alguns condicionantes de acesso e a ampliação das possibilidades de desagregação de dados por meio da combinação de fontes de informação.

Conclusões: desafios e oportunidades que marcarão a educação na América Latina 

O desafio mais importante é garantir a qualidade e análise robusta das informações. No cenário da América Latina ainda faltam insumos que possibilitem um olhar mais crítico e estratégico. “A informação por si só não gera melhorias. Os esforços não devem se concentrar na produção de informações, mas, sim, utilizar os dados com estratégia para garantir o pleno direito à educação. A usabilidade dos dados gera um fortalecimento do planejamento e da gestão das políticas educacionais, e assim temos as melhorias”, afirmou Cevallos. 

É preciso repensar o modelo dos sistemas de informação, passando de um modelo centralizado para um modelo de rede de discussão, com interoperabilidade com o centro. Nesse sentido, podemos enxergar as escolas como produtoras de informação e os orientadores em um nível intermediário, atuando como filtros. Também devem ser instituídos centros de ensino como referência para essas redes de informação, com capacidade de antecipação e alerta precoce para uma atuação mais eficaz nos problemas.

Para pensar em integração, em primeiro lugar, é necessário evitar sobrecarregar as escolas – elas não podem estar revelando informações para a administração e para as áreas estatísticas. Com todo o avanço tecnológico (notas, boletins online, etc.) provocado pela pandemia, também é importante pensar em como aproveitar esse insumo para a construção de estatísticas relevantes. O orientador se apresenta como uma figura interessante para coletar essas informações e torná-las acessíveis a diferentes usuários porque é quem mais acompanha as atividades escolares de perto, podendo fazer melhor uso das informações disponíveis. 

O Fórum Regional tem um grande valor para os países aprenderem uns com os outros e, de certa forma, é uma experiência de aprendizado entre países com contextos culturais semelhantes e níveis de desenvolvimento comparáveis. Também é uma grande oportunidade para atores de alto nível de quase todos os ministérios da educação da América Latina e Caribe, e especialistas em políticas educacionais, se reunirem em tempo real para trocar experiências e deliberar livremente sobre os problemas reais que enfrentam“, concluiu Cevallos.

Para saber mais sobre o Fórum Regional 2021 e acessar outros recursos disponíveis, clique aqui.

La Agenda 2030 y el planeamiento de la educaciónLa Agenda 2030 y el planeamiento de la educación

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Créditos: Imagem Destaque – Rido / Shutterstock