Califórnia e o risco de “desligar” o petróleo sem acender alternativas
O que você vai descobrir a seguir:
- • Por que fechar refinarias de petróleo é um avanço ambiental, mas também um risco se não houver um plano de transição.
- • Como a experiência da Califórnia mostra os impactos econômicos e sociais de desligar refinarias sem alternativas claras.
- • Quais caminhos estão em debate para evitar retrocessos na transição energética.
Desativar uma refinaria de petróleo pode soar como uma conquista ambiental. Afinal, menos combustíveis fósseis significam menos emissões. Mas e quando essa decisão não vem acompanhada de um plano robusto de transição energética? A experiência recente da Califórnia, referência mundial em políticas verdes, mostra que a vitória simbólica pode se transformar em um problema prático (e caro).
Nos próximos dois anos, duas grandes refinarias vão encerrar atividades: a Phillips 66, no sul de Los Angeles, deve fechar no quarto trimestre de 2025, impactando diretamente cerca de 600 funcionários e 300 contratados; já a Valero, em Benicia, no norte do estado, planeja o fechamento até abril de 2026, após receber uma multa de US$ 82 milhões por poluição do ar. Juntas, essas desativações significam a perda de cerca de 20% da capacidade de refino da Califórnia.
O efeito esperado é uma escalada nos preços. Hoje, a gasolina no estado já custa em média mais de US$ 1 acima da média nacional, por causa de impostos e programas ambientais. Com as refinarias fechando, especialistas projetam um aumento de US$ 0,50 a US$ 1,50 por galão, podendo chegar a US$ 8 até o fim de 2026 – um salto de até 75% sobre os valores atuais.
O que está em jogo ao fechar uma refinaria sem um plano
- • Impacto econômico: risco de aumento nos preços dos combustíveis e pressão sobre o custo de vida.
- • Dependência externa: maior necessidade de importar gasolina e derivados, o que pode neutralizar os ganhos ambientais.
- • Emissões globais: fechamento local não garante redução real, já que a produção pode apenas ser deslocada para outros países.
- • Segurança energética: um “vácuo energético” pode levar governos a adotar medidas emergenciais, como a lei ABX2-1, que exige estoques mínimos de combustível, ou até adiar penalidades ambientais para assegurar o abastecimento.
- Empregos em risco: centenas de trabalhadores ficam sem alternativas imediatas, exigindo políticas de transição justa e requalificação profissional.
- • Oportunidade de inovação: chance de investir em energias renováveis, mobilidade elétrica e transporte público eficiente.
- • Exemplo internacional: países como o Uruguai mostram que planejamento de longo prazo é essencial para uma transição bem-sucedida.
O dilema é claro: sem um roteiro consistente, os fechamentos podem minar os próprios objetivos da transição energética. A Califórnia já é líder em veículos elétricos e políticas ambientais, mas ainda depende fortemente do refino de petróleo para abastecer sua economia. Sem alternativas em escala suficiente, a redução da capacidade de refino força a importação, enfraquece a segurança energética e compromete as metas climáticas.
O contraste com o Uruguai ajuda a entender o que falta. Em menos de duas décadas, o país conseguiu gerar 99% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis, segundo balanço de 2024.. O segredo foi uma estratégia nacional que combinou leilões de energia, envolvimento do setor privado, continuidade política e diálogo com a sociedade. Resultado: estabilidade no fornecimento, preços competitivos e independência de combustíveis fósseis.
Esse é o ponto central: fechar refinarias é um passo importante, mas sem um plano abrangente o efeito pode ser o oposto do desejado. E isso requer muito mais do que coragem para desligar as chaves, mas sim uma visão para acender novas luzes.
Créditos: Imagem Destaque – Mikhail Starodubov/Shutterstock