Mapa 2021: O raio-x do empreendedor de impacto socioambiental no Brasil

Conduzido pela Pipe.Labo, o Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental — pesquisa quantitativa referência no ecossistema — chega à terceira edição. No mapeamento, realizado desde 2017, estão análises evolutivas e desafios do setor de 1.300 empresas; evolução do perfil do empreendedor e do negócio em cada fase da jornada; demandas não atendidas e ajudas pedidas pelo empreendedor; acesso a recursos financeiros e não financeiros; tecnologias emergentes e a usabilidade para alcançar melhores resultados; visão de futuro e aumento de recursos para o setor; cases de negócios de impacto socioambiental por verticais; e uma radiografia completa do ecossistema.

O levantamento conta com o apoio da ENIMPACTO – iniciativa do Ministério da Economia –, Aliança pelos Negócios de Impacto, Climate and Land Use Alliance, do Fundo Vale, Instituto Clima e Sociedade e Instituto Sabin e será lançado na próxima quarta-feira (28), durante um evento virtual gratuito, a partir das 16h (inscreva-se aqui).

No Brasil, a diversidade é um tema-chave para analisar o perfil sociodemográfico dos empreendedores à frente dos negócios socioambientais. Hoje, as mulheres estão presentes como fundadoras em 67% das empresas do setor (sendo que 23% das empresas mapeadas têm apenas mulheres à sua frente), um índice que revela a conquista da equidade de gênero (os homens aparecem como fundadores em 71% dos negócios, sendo que 27% das empresas mapeadas têm apenas homens na sua fundação). Entretanto, na análise de investimentos recebidos, as empresas administradas por um time essencialmente feminino tendem a receber menos recursos financeiros e apoios adicionais para evoluir na jornada empreendedora, quando comparadas às lideradas por homens. Na prática, elas são menos selecionadas para os processos de aceleração. Como consequência, elas são poucas entre os negócios em fase de escala: 25% das mulheres contra 35% de homens.

A terceira edição do Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental foi realizada dentro de um cenário de extrema incerteza para a economia mundial e sob o impacto da pandemia. A realização do levantamento — que garante a continuidade da leitura sobre o pipeline de negócios de impacto brasileiro — produz o primeiro estudo em nível nacional a revelar os impactos da crise neste setor. O Mapa 2021 espelha avanços importantes do ecossistema rumo a um pipeline mais maduro e robusto de negócios. Apesar de uma parte importante da base mapeada de 1.300 negócios ainda não ser sustentável financeiramente, o levantamento revela que há mais soluções que deixaram a fase de ideação rumo ao modelo financeiramente sustentável. Entre os entrevistados:

Coordenado por Lívia Hollerbach e Mariana Fonseca, da Pipe.Labo – think tank do setor de impacto –, o estudo revela que o empreendedor do setor está mais maduro na compreensão de diversos termos e conceitos do universo de impacto, como mais consciente dos recursos financeiros e apoios de que necessita em diferentes estágios de desenvolvimento. Mesmo com essa boa notícia, ainda é preciso entender a fundo as demandas não atendidas e os pedidos de ajuda dos empreendedores a cada etapa da jornada; do outro lado, analisar a disponibilidade de capital e os apoios não financeiros no ecossistema, para equilibrar essa relação e fomentar um pipeline de negócios mais saudável.

Comparativo entre as 3 edições (2017, 2019 e 2020)

A leitura comparativa das três edições do Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental revela um pipeline que, em aspectos gerais, está em formação. O setor, que antes emergia como tendência no Brasil e no mundo, hoje possui uma determinada organização e cadência; busca maturidade e, ao mesmo tempo, enfrenta desafios estruturantes. O estudo revela que a maior base dos negócios do campo se encontra em fase de desenvolvimento, buscando recursos financeiros e apoios formativos para atravessar o vale da morte e escalar. O desafio de trazer mais diversidade para o setor — tanto em relação ao perfil do empreendedor de impacto quanto à região do país onde ele empreende — é cultural e transversal ao universo empresarial brasileiro.

Embora jovem, o ecossistema de impacto socioambiental registra importantes benchmarks e casos de saídas de investidores, provando que investir no impacto positivo e fomentá-lo é também interessante do ponto de vista de negócio. “Na análise histórica dos últimos seis anos de mapeamento, conseguimos identificar importantes passos dados e desafios que ainda perduram para um desenvolvimento mais rápido e robusto deste cenário”, salientam as coordenadoras do estudo, acrescentando que entre os avanços significativos estão os ganhos em diversidade do perfil dos negócios, no avanço de uma base de ideação rumo à experimentação da solução e no compromisso do empreendedor com o impacto que gera. Além disso, houve um aumento no número de negócios: a primeira edição contou com 579 empresas; a segunda, com 1002; e a terceira, com 1.272.

Em diversidade regional, destaque para o aumento de negócios de impacto no Nordeste do Brasil — de 9% em 2017, passando para 11% em 2019 e chegando a 16% em 2021. Já em experimentação, houve um aumento nos negócios em estágio de provação (piloto, MVP e organização: 39%, 42% e 52%, respectivamente, nas três edições). Mais da metade da base de negócios mapeada sinaliza hoje o compromisso de impacto que pauta a comunicação externa: 43%, 60% e 52%; em contrapartida, o mapeamento registrou um aumento entre os que possuem um processo formal de pesquisa interna para acompanhar o próprio impacto: 12%, 17% e 21%.

O fortalecimento do Nordeste do país na agenda de impacto colabora para vencer o desafio de descentralização do setor. Vale ressaltar que esse crescimento é reflexo de ações conduzidas por coalizões entre organizações da sociedade civil, governo, empresas e investidores. Um dos exemplos é a bem-sucedida articulação da plataforma Impacta Nordeste, que conecta, capacita, divulga e mobiliza negócios de impacto, projetos sociais e ações de responsabilidade social que transformam positivamente a região”, analisa Lívia Hollerbach, coordenadora do estudo e cofundadora da Pipe.Labo.

Sobre o impacto, Mariana Fonseca salienta que os esforços do ecossistema em informar e incentivar o empreendedor a se reconhecer como promotor de impacto socioambiental e, principalmente, medir e reportar a transformação que gera estão refletidos na visão histórica do Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental. Uma análise muito relevante no comparativo aborda quais são os maiores entraves que permanecem para o desenvolvimento sustentável do pipeline de negócios de impacto no país: estrutura e burocracia para nascimento de novas empresas (negócios não formalizados; 18%, 23% e 28%, respectivamente em 2017, 2019 e 2021); realização e alcance de um modelo sustentável de negócio (negócios sem faturamento, 35%, 43% e 48%); soluções de apoio a governo (negócios que focam em vender para órgãos públicos, 27%, 29% e 19%); disponibilidade de capital semente (negócios captando até R$ 500 mil, 57%, 64% e 64%).

Na prática, os desafios do universo empreendedor brasileiro continuam se refletindo em um número considerável de negócios sem formalização. Ao contrário de outros países — como Estados Unidos ou Portugal, onde o processo de abertura de uma empresa é extremamente simples e rápido —, no Brasil a burocracia existente é uma grande barreira para os empreendedores no início da jornada. Além disso, os altos custos de se manter uma empresa aberta, nem que seja no papel, são evitados até que se haja uma entrada mais certa de recursos financeiros.

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Raio-X do Empreendedor de Impacto Socioambiental

GÊNERO: A diversidade é um tema-chave e crítico na análise do perfil sociodemográfico dos empreendedores que estão à frente dos negócios de impacto mapeados. A edição de 2021 do Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental mostra que, apesar de haver equidade de gênero neste retrato — as mulheres estão presentes em 67% dos negócios mapeados e os homens estão em 71% —, as empresas administradas por um time feminino tendem a receber menos recursos financeiros e apoios adicionais para evoluir na jornada, quando comparadas às lideradas por um time masculino.

Na prática, elas são menos selecionadas para os processos de aceleração (20% conseguiram esse apoio contra 32% dos negócios liderados apenas por homens); e recebem menos investimentos: 22% captaram recursos de terceiros contra 29% dos negócios liderados por homens. Como consequência, as empreendedoras estão menos presentes entre os negócios em fase de escala: 25% das mulheres contra 35% de homens.

Na análise de liderança, dos 1.300 negócios mapeados, 54% são liderados por homens e 43% por mulheres; 3% preferiram não reportar essa informação. A pesquisa incluiu os não binários, mas não houve amostra suficiente. Confira abaixo o gráfico sobre a presença dos gêneros entre fundadores:

RAÇA: Quanto ao perfil racial do empreendedor de impacto mapeado, na base geral, nota-se um grande desequilíbrio na análise do principal fundador/liderança do negócio: 66% são da raça branca. Empreendedores pardos/mulatos, que representam 16% da base geral, e negros (9%) registram maior dificuldade de acessar investimentos; entre a base não investida, 20% são de negócios liderados por negros.

Também esse perfil tem mais dificuldade em atravessar as fases iniciais da jornada — já que entre os negócios em fase de escala, apenas 10% têm empreendedores negros à frente contra 84% de raça branca. A região Norte do país é a que apresenta, comparativamente, a melhor distribuição neste quesito, registrando 50% de empreendedores brancos, 32% de pardos/mulatos, 8% de origem indígena, 6% de negros, 2% de origem amarela/oriental e 2% sem declarar essa informação.

PERFIL ETÁRIO: A análise do perfil etário da amostra revela que seria muito interessante incentivar a presença de empreendedores maduros nesta jornada de impacto. Negócios com fundadores acima de 50 anos se mostram em estágios mais avançados da jornada; entre os negócios em escala, 22% têm empreendedores com 50 anos ou mais — eles registram maiores faixas de faturamento e tendem a não buscar apoio de aceleradoras/incubadoras. A pesquisa revela que:

ESCOLARIDADE & EQUIPE: A escolaridade do empreendedor é um importante quesito diferenciador da base; os com formação superior em Ciências Exatas e, principalmente Administração de Empresas, são dominantes em negócios mais maduros, que foram investidos e em fases de escala. A formação educacional do empreendedor e do time é, inclusive, um dos 22 Key Performance Indicators (KPI) —indicadores de performance que são chaves para um bom desempenho – considerados por investidores de impacto e analisados no estudo Scoring de Investimento de Impacto, publicado pela Pipe, em 2020.

Entre os entrevistados do Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental 2021, 53% têm pós-graduação, mestrado, doutorado ou pós-doutorado; 25% têm ensino superior completo; 13%, incompleto; 1%, fundamental completo ou médio incompleto; e 8% não declararam. Na análise de carreiras, 50% são formados em Administração de Empresas, Economia, Contábeis e/ou Computação, Engenharia, Física e Química (STEM). Nas empresas mapeadas, 14% são “Euquipe”, ou seja, contam com um único empreendedor; 55% têm de duas a cinco pessoas; 27%, seis ou mais pessoas; e 69% do total utilizam equipes freelancers.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA E TEMPO DE EXISTÊNCIA: O Estado de São Paulo concentra o ecossistema empreendedor brasileiro (não só o de impacto), sendo seguido pelas regiões Nordeste e Sul. A descentralização regional tem sido pauta no setor e se faz importante, também, na relação capital versus interior, uma vez que os negócios no interior parecem ter mais dificuldade de caminhar pela jornada, acessar investimentos e programas de aceleração; 36% do total está no interior dos Estados. O mapeamento mostrou que 58% dos negócios estão na região Sudeste (veja abaixo); 16% no Nordeste; 15% no Sul; Norte e Centro-Oeste têm 5%.

A descentralização do ecossistema de apoio ao empreendedor é importante não somente entre as regiões do país como fora das capitais – já que há um número relevante de negócios sediados em cidades do interior. “Em uma análise comparativa, este perfil tem mais dificuldade de caminhar pela jornada, acessar investimentos e programas de aceleração.” O mapeamento revela que:

Entre os entrevistados, 71% afirmaram que os negócios estão formalizados. “O tempo de existência dos negócios reflete um setor ainda emergente, no qual seis em cada 10 negócios têm, no máximo, cinco anos de fundação. A não formalização é uma característica marcante entre quem ainda está idealizando um negócio, já que – com os desafios burocráticos do país – se espera avançar pela jornada para assumir os compromissos fiscais de uma organização. Por outro lado, empreendimentos com mais tempo de mercado são os que de fato estão escalando e crescem entre a vertical de educação e nas regiões Sul e Norte do Brasil”, detalha Lívia Hollerbach, coordenadora do estudo e cofundadora da Pipe.Labo.

ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO & MODELOS DE COMERCIALIZAÇÃO: A cada 10 negócios de impacto, oito permanecem entre os estágios de desenvolvimento da solução até a organização do negócio – especialmente na busca por um modelo que gera sustentabilidade financeira. A partir da fase de piloto, sete em cada 10 negócios já têm um modelo, mas somente a partir da etapa de tração é que metade dos negócios mapeados de fato passa a parar de pé. Os empreendedores mencionam, pelo menos, dois modelos de comercialização do produto ou serviço, sendo os principais a venda para outras empresas e para o consumidor final. Dos formatos de monetização, há um crescimento das plataformas Software as a Service (SAAS) e um considerável número de empreendedores, principalmente em fase de ideação, que tem a publicidade como foco (modelo esse que, porém, se mostra menos presente entre os em fase de tração e escala).

Um ponto importante na análise do faturamento é que muitos negócios em fases de pré-escala e escala não revelaram essa informação, impossibilitando a análise geral da evolução do pipeline nos dois últimos anos. “A cultura do segredo, já conhecida no Brasil entre investidores e investidos, vai contra a necessidade do setor de estudar e evoluir por meio de números”, Mariana Fonseca, coordenadora do estudo e cofundadora da Pipe.Labo. Na análise do modelo de comercialização, entre os entrevistados, 48% atuam com B2B (business to business); 45%, com B2C (business to consumer); 39% com B2B2C (business to business to consumer); 19% com B2G (business to government); e 8% com C2C (consumer to consumer).

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