O Relatório sobre Felicidade: O que podemos aprender com o Butão e a Finlândia

O quanto você é feliz hoje? Talvez fazer essa pergunta em um período de pandemia pode soar estranho, mas o “2020 World Happiness Report” (“Relatório Mundial sobre Felicidade 2020”, em tradução livre) tenta responder esta pergunta e busca mensurar “a satisfação geral com a vida e, mais importante, a confiança de que se vive em um lugar onde as pessoas se cuidam”, afirma John F. Helliwell, responsável pelo relatório anual — atualmente uma publicação da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável, alimentada por dados da Gallup World Poll, e apoiada pela Ernesto Illy Foundation, illy Caffè, Davines Group, Blue Chip Foundation, William, Jeff e Jennifer Gross Family Foundation e Wall’s (nome dado a marca Kibon no Reino Unido). O relatório segue a “Resolução de Butão”, uma resolução que reconhece a busca pela felicidade como ‘um objetivo humano fundamental’ e convida os estados-membros a promover políticas públicas que incluam a importância da felicidade e do bem-estar em sua aposta pelo desenvolvimento, aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em julho de 2011. 

A resolução, proposta principalmente pelo Butão, evidencia que “o indicador do produto interno bruto (PIB), por natureza, não foi concebido para refletir a felicidade e o bem-estar das pessoas de um país e não os reflete adequadamente”. Lhatu Wangchuk, embaixador do Butão na época, afirmou —  durante a defesa da resolução apresentada por seu país perante a Assembleia — que “a busca pela felicidade é um assunto muito sério e acreditamos que seu debate nas Nações Unidas não deve ser mais adiado”.

Um detalhe curioso é que, o país localizado no sul da Ásia e com 800 mil habitantes, tem colocado a qualidade de vida dos seus cidadãos como uma prioridade. Em 2018, escrevemos no InovaSocial o texto “2020: Alimentos orgânicos, crise financeira e outras previsões”, onde mostrava que o Butão tinha como meta permitir apenas a produção de alimentos orgânicos a partir 2020. Mas isso não tem nada a ver com algum tipo de política pública populista, é algo muito mais intrínseco na cultura butanesa. Eric Weiner que o diga! Autor de best-sellers como “Onde nascem os gênios” e Man Seeks God (sem tradução para o português), escreveu em 2015 a sua experiência no Butão para a BBC Travel:

“(…) eu tinha sentido uns sintomas estranhos: falta de ar, tontura, dormência nas mãos e nos pés. Primeiro, achei que estivesse sofrendo um ataque cardíaco ou enlouquecendo. Ou as duas coisas. Fui ao médico, que pediu uma série de exames e encontrou… ’Nada’, disse Ura [Karma Ura, diretor do Centro de Estudos Butaneses]. ‘Você precisa pensar na morte cinco minutos por dia’, respondeu Ura. ‘Isso vai curá-lo (…) ‘É esse medo da morte, esse medo de morrer antes de ter realizado o que desejamos ou de ver nossos filhos crescerem. É isso o que está incomodando você.’ (…) ‘As pessoas ricas do Ocidente não tiveram que tocar em mortos, feridas abertas, coisas apodrecidas. Isso é um problema. Essa é a condição humana. Temos que estar prontos para o momento em que deixamos de existir’.”

Weiner completa, “na realidade, ao sugerir que eu pensasse sobre a morte uma vez por dia, Ura estava sendo generoso comigo. Na cultura butanesa, as pessoas devem pensar sobre a morte cinco vezes por dia. É algo notável para qualquer nação, mas especialmente para uma tão igualada com a felicidade como o Butão. Será que, no fundo, esta é uma terra de sombras e desespero? Não necessariamente. Pesquisas recentes sugerem que, ao refletirem sobre a morte com tanta frequência, os butaneses podem estar enxergando algo que o resto de nós não percebe. Eles sabem que a morte é parte da vida, querendo ou não, e ignorar essa verdade essencial tem um custo psicológico pesado.” O texto completo você pode ler neste link.

Talvez a cultura butanesa não esteja tão errada. Nós, “os ricos do Ocidente”, nos distanciamos dos processos naturais da vida. Terceirizamos nossa vida (nascimento) e morte para profissionais específicos e quando queremos, podemos ignorá-los. Principalmente em grandes metrópoles, nos distanciamos não só dos processos naturais, como também perdemos uma ligação, quase mística, com o significado do fim. Não porque somos insensíveis, mas porque optamos — e temos o privilégio — de nos distanciarmos dos momentos tristes. Quase que uma ironia da vida, onde, para vivermos bem, precisamos entender o lado “ruim”.

Na Finlândia: A felicidade está na união

De acordo com Helliwell, pessoas felizes “não teriam o maior fator de sorriso”, disse ele ao The New York Times. “Eles confiam uns nos outros e se preocupam uns com os outros, e é isso que fundamentalmente contribui para uma vida melhor.” Apesar do relatório contar com dados do ano passado, foi concluído que a perda de confiança nas instituições é fator determinantes na queda da felicidades. Na Finlândia, por exemplo, 91% dos entrevistados disseram estar satisfeitos com o presidente e 86% disseram confiar na polícia.

As pessoas nos países escandinavos acreditam umas nas outras e em seus governos, afirma Jeffrey D. Sachs, professor da Universidade de Columbia e diretor da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável. “É provável que superemos isso [pandemia] se mantivermos nossas conexões sociais unidas”, continua Sachs ao The New York Times. E completa “não podemos combater essa epidemia apenas no nível individual. Precisamos de muita ação compartilhada. Essa ideia de que estamos todos juntos nisso. Isso está realmente sendo testado. Teremos que encontrar esse senso comum de responsabilidade compartilhada para superar a crise.”

Somado a este senso de confiança comum e de união, em 2019 publicamos a edição anterior do relatório, onde mostramos que a Finlândia pontuou bem em todos os fatores, mas particularmente na generosidade. Segundo os autores do relatório, ajudar os outros faz com que você se sinta melhor e mais feliz. Quase metade dos finlandeses doa regularmente para caridade. Além disso, apesar dos “países ricos são definitivamente mais felizes que os países pobres”, segundo Sachs, afinal, “não é uma alegria ser pobre”, o dinheiro não compra a felicidade. O que nos mostra muito bem isso são os EUA (maior PIB), que ficaram em 18º no ranking atual — apenas uma posição acima do ano passado e a mesma de 2018. Já o Brasil, depois de cair do 28º lugar em 2018, segue estagnado no 32º lugar.

Por fim, a maior lição que a Finlândia e o povo mais feliz do mundo pode nos dar para superarmos esta pandemia tem uma palavra específica para isso: Sisu. Etimologicamente, sisu vem de uma palavra raiz finlandesa que significa “interior” ou “de dentro de sí”. Esta é uma das razões pelas quais é traduzida como “coragem” ou “força interior”.

Já para o povo finlandês, sisu tem um significado místico, quase mágico. Sisu é um conceito finlandês único. É um termo finlandês que pode ser traduzido aproximadamente como força de vontade, determinação, perseverança e ação racional diante das adversidades. Sisu não é coragem momentânea, mas a capacidade de sustentar essa coragem. É uma palavra que não pode ser totalmente traduzida. Ele define o povo finlandês e seu caráter. Defende a filosofia de que o que deve ser feito, será feito; independentemente do custo.

Imagem Destaque: Roman Samborskyi/Shutterstock

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