Saiba mais sobre o Crew Dragon DM-2: Uma viagem espacial histórica em 2020

Se tudo caminhar como planejado, amanhã (27), por volta das 17h30 (horário de Brasília), os astronautas da NASA Robert Behnken e Douglas Hurley serão os primeiros a decolarem do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, após 9 anos — isso porque, desde o fim das viagens espaciais lançadas a partir do Cabo Canaveral, em 2011, as decolagens passaram a ocorrer no Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, de onde saem todas as missões da Estação Espacial Internacional (ISS, sigla em inglês). Mas o que isso significa para todos nós? Tirando o momento histórico, talvez os impactos imediatos sejam pequenos ou quase nulos em nossas vidas, mas existe uma série de curiosidades em torno desta missão e é isso que queremos explorar no texto abaixo. Além disso, ela deve inaugurar uma nova fase da “corrida espacial” e, isso sim, terá impacto em nossas vidas.

Crew Dragon DM-2: Um “Dragão” ainda sem nome

A Crew Dragon DM-2 (imagem abaixo) é o novo módulo de transporte humano da Dragon 2, a nave espacial reutilizável da SpaceX. Além de ser o primeiro veículo espacial tripulado da NASA desde o Ônibus Espacial, o DM-2 também servirá de testes para o Programa de Tripulação Comercial (Commercial Crew Program, em inglês) da agência espacial norte-americana. E quando falamos em “comercial”, não quer dizer que a NASA fará viagens comerciais ao espaço (não por enquanto); o CCP significa que a agência está trabalhando em conjunto com empresas privadas para desenvolver sistemas de voos espaciais e que possa prestar serviços a ISS. Desde 2014, a NASA selecionou a Boeing e a SpaceX para transportar suas tripulações e desenvolver soluções de voo, e este é o primeiro deles. Antes disso, principalmente durante a primeira Corrida Espacial, durante a Guerra Fria, tudo relacionado aos foguetes era desenvolvidos dentro da agência e muitos deles classificados como ultra confidenciais.

Voltando ao Crew Dragon DM-2, desde o programa Mercury, no fim da década de 50, é tradição os astronautas batizarem suas naves. A Apollo 11, por exemplo, dos astronautas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins, nomearam sua espaçonave de Columbia e o módulo lunar de Eagle. Abaixo, o lançamento do último ônibus espacial Discovery, atualmente em exposição Museu do Ar e Espaço do Instituto Smithsoniano. Para a nova missão histórica, Hurley e Behnken ainda não divulgaram o nome da espaçonave. “Temos que guardar um pouco de suspense para a missão em si”, disse Behnken durante a conferência de imprensa final antes do lançamento da tripulação. “Mas nós temos um nome e vamos divulgá-lo adequadamente. Temos algo para vocês no dia do lançamento.”

A missão com Hurley e Behnken pode durar até três meses. Depois disso, se tudo der certo, engenheiros da NASA e da SpaceX revisarão os dados da missão para determinar se a cápsula foi aprovada. Se passar na revisão final, a Crew Dragon estará pronta para iniciar missões operacionais que transportam astronautas da agência norte-americana ou clientes pagantes para ISS.

E se algo der errado?

Tudo que a NASA menos quer é uma nova Challenger. O Ônibus Espacial que, em 1986, explodiu no ar durante o lançamento, resultando na morte de 7 tripulantes, entre eles a professora Christa McAuliffe, a primeira cidadã sem funções técnicas ou compromissos com a NASA a participar de uma missão espacial. Por isso, os engenheiros da SpaceX e da agência norte-americana passaram anos planejando o que acontece se as coisas derem errado. E não faltaram testes errados. Foram falhas de pára-quedas e cápsulas de teste que explodiram, mas que, segundo a empresa, serviram de ajuda e aprendizado para tornar sua cápsula de tripulação ainda mais segura do que antes. O problema é que, mesmo sendo uma nave confiável para a missão, ainda assim, a DM-2 é um voo de teste — então o que acontece se algo der errado?

Aqui vale um parênteses sobre o momento atual da equipe de gestão da agência espacial. Desde 2012, o diretor-chefe de voos da agência era Norm Knight. Em março de 2020, a NASA anunciou a nomeação de Holly Ridings para a posição. Ridings juntou-se à NASA em 1998, na equipe de engenharia térmica, como controladora de voo e foi promovida a diretora de voo em 2005. A partir daí, liderou missões importantes, incluindo a Expedição 16 em direção à Estação Espacial Internacional (2007-2008) e a primeira missão de carga espacial da SpaceX (2012). Com a nomeação, uma escolha do próprio diretor operacional da NASA, Brian Kelly, pela primeira vez em seis décadas a agência terá uma mulher ocupando o maior cargo na direção de voos espaciais tripulados. Como diretora-chefe de voos, Holly Ridings gerenciará o grupo de 32 diretores de voo ativos e diretores de vôo em treinamento que supervisionam uma variedade de missões espaciais envolvendo a Estação Espacial Internacional, incluindo a integração de naves espaciais na frota de serviços ao laboratório orbital, bem como as missões da sonda Orion na Lua e além.


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De volta ao Crew Dragon DM-2, segundo a WIRED, que entrevistou atuais e ex-astronautas e diretores de voo, cerca de 3 horas antes da decolagem, a dupla de astronautas inicia o processo de embarque. Assim que abrirem a escotilha do módulo, se inicia uma série de verificações de sistema que determinam se tudo está pronto para o lançamento. Um dos pontos críticos desta checagem é armar o sistema de emergência. “Existem três maneiras de acionar o sistema de interrupção. A tripulação pode puxar uma alça dentro da espaçonave; o controle da missão pode enviar um comando remoto para a espaçonave; ou a própria nave pode iniciar automaticamente a sequência, caso detecte um problema no foguete. Isso fará com que os oito pequenos motores do módulo (conhecidos como SuperDraco) sejam acionados e o levem para longe do foguete.”

O problema de acionar o sistema de emergência após o lançamento é que tudo isso torna-se um evento brutal. Em questão de segundos, o módulo é ejetado a mais de 560 km/h. Durante o evento, os astronautas sentirão uma força de mais de 4 vezes a força da gravidade, subindo cerca de 2 km de altura, antes do módulo iniciar a queda de paraquedas no oceano Atlântico. É uma manobra extrema para emergências extremas. De acordo com a WIRED, “sistema de emergência do Crew Dragon permanece armado para toda a sua jornada ao espaço. Após a decolagem, Zeb Scoville, diretor de vôo da NASA, diz que a decisão de abortar é tomada pelo software do Crew Dragon, porque tudo que der errado acontecerá em uma fração de segundo. ‘Você não pode contar com o tempo de resposta de um controlador de vôo ou da tripulação para executar essas ações’, diz ele.

Ainda segundo a revista, “em janeiro [de 2020], a SpaceX conduziu com sucesso um teste [do sistema de escape] durante o voo para provar que o Crew Dragon ainda poderia se afastar do foguete, se algo desse errado durante. Quando o foguete entrou no ‘max q’ [ponto de pico de estresse aerodinâmico], o controle da missão SpaceX matou seus motores. A cápsula registrou automaticamente que algo estava errado, disparou seus motores SuperDraco e se afastou do foguete Falcon 9, que explodiu no ar. A cápsula continuou navegando na estratosfera, antes de começar sua descida para a Terra e mergulhar no oceano Atlântico.” O vídeo está disponível na conta da SpaceX no YouTube e você pode conferir abaixo.

No espaço, existe uma série de riscos e que fariam Behnken e Hurley a abortar uma missão, mas a despressurização foi a causa das únicas mortes no espaço. Em 1971, três astronautas sofreram uma despressurização, devido a uma falha na válvula de pressão, e a cabine se transformou em vácuo em segundos. Para evitar isso, a Crew Dragon possui várias linhas de defesa e “no caso de um pequeno vazamento, causado por um componente defeituoso ou impacto de detritos espaciais, a cápsula pode bombear mais oxigênio e nitrogênio para dentro da cabine, a fim de manter a pressão até que a tripulação retorne à Terra ou chegue à estação espacial.” Se a brecha for grande demais, as roupas de voo de Behnken e Hurley podem ser pressurizadas e alimentadas com oxigênio, transformando-as efetivamente em naves espaciais de um único ocupante.”

“O traje é como um sistema de escape e foi projetado para ser usado apenas se você estiver tendo um dia muito ruim”, diz Garrett Reisman, ex-astronauta da NASA que também passou vários anos como diretor de operações da tripulação da SpaceX. “É bom saber que está lá, mas você espera que nunca precise usá-lo para o propósito a que se destina”.

E se tudo der certo? Neste caso (e esperamos que seja exatamente assim) Behnken e Hurley passarão até três meses e meio vivendo e trabalhando na ISS — caso você queira testar suas habilidades tentando acoplar o Crew Dragon a ISS, a SpaceX lancou um site interativo neste link. Quando estiverem prontos para voltar para casa, embarcarão novamente no Crew Dragon, para uma jornada de um dia de volta à Terra. O plano é que a cápsula caia na costa da Flórida, onde será recuperada pelo navio GO Navigator, da SpaceX, que os trará de volta ao continente e para suas famílias veteranas do espaço.

Curiosamente, ambos são casados com veteranas do espaço. Behnken é casado com Megan McArthur, astronauta e engenheira de voo durante o lançamento, encontro telescópico e pouso de uma missão de reparação do telescópio Hubble (STS-125). Além disso, Megan é uma das 12 candidatas para integrar a missão Artemis, que levará a primeira mulher à Lua em 2024. Já Hurley é casado com Karen L. Nyberg, veterana de duas missões no espaço, feitas no Ônibus Espacial Discovery e na nave russa Soyuz, durante as Expedições 36 e 37, quando fez a foto acima. Ela se aposentou da NASA no dia 31 de março de 2020.

Com tudo ocorrendo bem na missão teste do Crew Dragon, é possível que os filhos e netos dos casais astronautas não precisem entrar para a NASA para participar de uma viagem ao espaço. Para isso, no futuro, bastará comprar uma passagem no guichê da SpaceX mais próximo e embarcar nos futuros modelos Dragon.

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