Do “compartilhar” ao “intermediar”: o que aconteceu com a economia colaborativa?

Do “compartilhar” ao “intermediar”: o que aconteceu com a economia colaborativa?
  • A economia colaborativa prometeu acesso e renda com base em confiança, mas a escala transformou plataformas em infraestrutura que controla regras, visibilidade e preços.
  • Dados e reputação viraram engrenagens centrais, com efeitos no trabalho (gestão indireta, vieses, risco transferido) e na cidade (aluguel de curta duração e overtourism).
  • O caminho construtivo passa por transparência real, proteção social portátil, regras urbanas executáveis e alternativas de governança para equilibrar inovação e proteção.

Em algum momento depois de 2008, quando a crise financeira ainda era uma memória recente e a internet parecia capaz de reorganizar quase tudo, uma ideia começou a soar como solução elegante para um mundo apertado: em vez de comprar coisas, a gente poderia acessá-las. Não seria o fim da propriedade, mas uma perda de protagonismo. Ter deixaria de ser regra; usar, quando necessário, viraria o centro.

Foi nesse clima que a expressão “economia colaborativa” ganhou popularidade. A teoria às vezes vinha embalada em histórias de “objetos parados no armário”: a ideia era que ferramentas, equipamentos e outros bens subutilizados pudessem ser emprestados, alugados ou revendidos com ajuda de plataformas que conectariam vizinhos e desconhecidos com um mínimo de segurança.

Mas o que realmente seduzia era mais simples e mais urbano: a tecnologia prometia encurtar o caminho entre oferta e demanda. Em vez de procurar um táxi na rua, chamar um carro no celular e, para muita gente, viver a cidade sem precisar manter um carro próprio (com seguro, manutenção, estacionamento e depreciação). Em vez de depender de hotel, achar uma hospedagem mais barata (ou mais “com cara de casa”) alugando um quarto por alguns dias; em vez de gastar tempo buscando indicação, contratar um serviço em poucos cliques. Para quem consome, isso significava preço e conveniência. Para quem disponibiliza, significava renda: o carro parado virava corrida, o quarto vago virava diária, o tempo livre virava entrega ou serviço.

Rachel Botsman entrou nessa conversa antes de “economia compartilhada” virar clichê. Australiana radicada no Reino Unido, autora e pesquisadora dedicada ao tema da confiança, ela popularizou a ideia em uma palestra no TED ao defender que a peça central dessa nova economia não era apenas o smartphone, mas a possibilidade de estranhos transacionarem com algum nível de segurança. Reputação, perfis e avaliações funcionariam como um “capital reputacional” capaz de destravar relações improváveis e, na formulação dela, a moeda dessa economia seria a confiança.

Rachel Botsman: The currency of the new economy is trustRachel Botsman: The currency of the new economy is trust

O conceito, por dentro: quem usa e quem disponibiliza

Na prática, a economia colaborativa se vendia como um atalho para problemas bem antigos: demora, custo e desconfiança. Para quem usa, era a promessa de acesso imediato e preço competitivo, com mais oferta e menos burocracia. Para quem disponibiliza, era a promessa de fazer render o que já existia, com entrada rápida e pouca estrutura: o ativo (ou o tempo) estava ali, faltava só um jeito eficiente de encontrar demanda.

Aqui, no Brasil, essa lógica encontrou terreno fértil num país onde a renda extra costuma ser menos “complemento” e mais “colchão”. A escala veio sobretudo de transporte e entregas por aplicativo, hospedagem de curta duração e serviços sob demanda. O ganho não era apenas financeiro: para o consumidor, a sensação de ter alternativa acessível; para quem oferta, a sensação de ter uma porta de entrada rápida.

Vantagens percebidas
no começo

Para quem usa

Acesso rápido, comparação fácil e, muitas vezes, preço menor do que as alternativas tradicionais.

Para quem disponibiliza

Renda com ativos e tempo já existentes, com baixa barreira de entrada e flexibilidade de horário.

Para os dois lados

Reputação e avaliações como atalho de confiança para transações entre desconhecidos.

Para o sistema

Melhor aproveitamento de recursos e uma narrativa de eficiência (com verniz de sustentabilidade).

Só que a parte mais importante dessa história não está no ideal do compartilhamento, e sim no que aconteceu quando ele ganhou escala.

Quando o dado vira o ativo e a plataforma vira a praça

O ponto de virada é menos moral e mais econômico. Em muitos casos, o ativo estratégico deixou de ser o carro, o quarto ou a bicicleta. Passou a ser o dado: quem usa, quando usa, onde usa, quanto paga, quanto tempo espera, que rota escolhe, que nota dá, que reclamação faz, que hábito repete. Com escala, esse conjunto não serve apenas para “melhorar a experiência”. Serve para reduzir incerteza, precificar risco e construir vantagem competitiva difícil de copiar.

Assim, a plataforma deixa de ser uma vitrine simpática de trocas e passa a se comportar como infraestrutura privada. Ela define regras, altera termos, organiza visibilidade, decide o que é “bom desempenho” e o que é “comportamento suspeito”. Ela determina quem aparece, quem fica invisível, quais corridas “valem”, quais áreas são “priorizadas”, como a reputação pesa e quando um perfil pode ser desligado.

Há um mecanismo que acelera essa concentração: o efeito de rede. Quanto mais usuários, mais valiosa a plataforma se torna para quem está dentro e mais custoso fica competir para quem está fora. O resultado tende ao “vencedor leva mais”. Nesse estágio, o negócio passa a se parecer com um pedágio: a plataforma cobra uma fatia de transações que outros realizam, enquanto parte dos custos e dos riscos vai sendo empurrada para os lados mais fracos do balcão.

A colaboração original não desaparece por completo. Ela muda de natureza. O que era um encontro entre pares passa a ser um mercado conduzido por uma infraestrutura que coleta dados, define incentivos e captura parte do valor gerado.

Quando essa infraestrutura se torna dominante, ela deixa de ser só um ponto de encontro e vira um sistema de regras. O preço oscila, a prioridade muda, a “boa conduta” é medida por métricas que ninguém negocia individualmente. E há um detalhe pouco discutido: se a reputação é construída por avaliações de consumidores, ela também pode carregar vieses sociais. O aplicativo não precisa discriminar ativamente para produzir desigualdade; basta tratar como “objetivo” o que muita gente julga de forma desigual.

O que as plataformas controlam
(mesmo quando parece que não)

Acesso à demanda

Quem recebe mais chamadas e em quais horários.

Visibilidade e prioridade

O que sobe e o que cai no “ranking” interno.

Preço e repasse

Quanto o usuário paga e quanto o trabalhador recebe.

Reputação

Métricas que afetam renda, bônus e risco de desligamento.

Risco

Custos de manutenção, acidentes, tempo ocioso e desgaste deslocados para quem trabalha.

Overtourism: quando a cidade vira cenário e o bairro vira produto

Se no trabalho a plataforma decide o preço e a prioridade, na cidade ela acaba decidindo o destino de um endereço. Quando um apartamento passa a valer mais como diária do que como lar, o bairro muda de função. Barcelona virou um símbolo recente disso: em 2024, a prefeitura anunciou que pretende encerrar as licenças de aluguel de curta duração até 2028, numa tentativa de devolver imóveis ao mercado de moradia permanente e aliviar a pressão sobre os aluguéis.

Overtourism é o nome do momento em que o fluxo deixa de ser “temporada” e vira rotina. A cidade começa a operar acima do próprio limite, como se estivesse sempre em dia de feriado. O sintoma mais óbvio são ruas cheias, filas e uma sensação constante de aperto. O efeito mais importante, porém, costuma ser silencioso: serviços, comércio e moradia passam a se reorganizar para atender quem está de passagem, não quem precisa viver ali.

É por isso que bairros “cartão-postal” viraram termômetro do problema. Montmartre, em Paris, apareceu recentemente nas notícias com moradores protestando contra o que chamam de “disneyficação”. A queixa não é abstrata: fala-se de superlotação, de comércio cotidiano que some para dar lugar ao que vende melhor para turista, de barulho, de ruas que viram corredor de tour e de uma presença crescente de aluguéis de curta duração em áreas residenciais.

O mecanismo é simples. Se a diária rende mais do que o aluguel residencial, parte dos imóveis muda de função. Com menos oferta de moradia permanente, o preço sobe, moradores se afastam e o bairro vai se ajustando ao visitante. A plataforma não cria o turismo, mas acelera a conversão do endereço em produto, porque torna fácil transformar um apartamento em “estoque” de diárias e medir demanda em tempo real.

Quando “compartilhar um quarto”
vira modelo de cidade

Vida cotidiana

A vida cotidiana se adapta: serviços e comércio mudam para atender quem passa.

Endereço vira produto

O endereço vira produto: o apartamento passa a ser “estoque” de diárias.

Proprietário vira operador

A renda depende de ocupação e preço dinâmico.

Bairro vira fluxo

Temporada vira rotina, com alta rotatividade.

Moradia encurta

Menos aluguel longo, mais disputa por quem mora.

O dilema brasileiro: escala, renda e proteção social

No Brasil, plataformas cresceram em um terreno já marcado por informalidade e urgência por renda. Para muita gente, elas funcionam como porta de entrada rápida para ganhar dinheiro e, às vezes, como plano B quando o emprego formal falha. Para consumidores, viraram sinônimo de acesso: deslocamento mais fácil, entrega mais rápida, serviços antes caros ou pouco disponíveis passando a caber no orçamento e no tempo.

O impasse aparece quando essa solução de curto prazo vira arquitetura permanente. Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE, no 3º trimestre de 2024 havia 1,7 milhão de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços, e esse contingente cresceu 25,4% desde o fim de 2022. Não é só motorista e entregador: entram também prestadores de serviços variados, do “bico” especializado ao trabalho mais básico, todos conectados pelo mesmo ponto em comum, que é depender de uma infraestrutura privada para acessar demanda.

Esse número muda o enquadramento do debate. Quando milhões dependem desse tipo de trabalho, a discussão deixa de ser “preferência individual” e passa a encostar em perguntas coletivas: como ficam previdência, saúde, mobilidade e bem-estar quando a renda é variável, a jornada é elástica e o risco é individualizado? E, no Brasil, risco tem nome e sobrenome: manutenção do veículo, combustível, acidentes, tempo ocioso, desgaste físico, reposição de equipamento, além da própria incerteza sobre quanto se ganha por hora em semanas diferentes.

Não se trata de negar que plataformas geram renda. Trata-se de notar que parte relevante da conta costuma ser deslocada para fora do aplicativo. Quando o custo privado vira custo social, ele reaparece em outros lugares, nem sempre de forma óbvia: no SUS, na previdência subfinanciada, no endividamento doméstico, no trânsito, na pressão por jornadas maiores para compensar dias ruins. É por isso que a conversa sobre regulação, no fundo, não é sobre “proibir ou liberar”, mas sobre quais mínimos de previsibilidade e proteção cabem num mercado que já é grande demais para ser tratado como exceção.

A confiança como produto e o risco como efeito colateral

A economia colaborativa nasceu vendendo uma ideia simples: dá para fazer estranhos confiarem uns nos outros com ajuda de reputação digital. Só que, quando esse modelo vira infraestrutura de massa, a confiança deixa de ser apenas um “clima” e vira um sistema. E sistemas têm pontos cegos. O resultado não é que a experiência típica seja perigosa, mas que a sensação de segurança passa a depender de camadas extras de precaução, nem sempre distribuídas de forma igual.

Para muitas mulheres, por exemplo, o uso desses serviços costuma vir acompanhado de um nível maior de cautela, especialmente em situações de deslocamento ou hospedagem. Em vez de ser só “conveniência”, entra também um cálculo silencioso sobre limites, contexto e conforto. E há ainda o lado da privacidade: a ideia de estar em ambientes e trajetos mediados por aplicativo pode gerar um tipo de desconforto que não se resolve apenas com estrelas e comentários.

No fim, a promessa de confiança continua funcionando na maior parte do tempo. Mas ela cobra um custo subjetivo que varia conforme quem está usando, onde está usando e com quais vulnerabilidades no mundo offline.

A jornada da confiança

Confiança não é só reputação. Ela se constrói em três momentos: antes (informação e identidade), durante (segurança e suporte) e depois (avaliação e reparação).

Antes

Identidade verificada, informações essenciais claras e regras de privacidade compreensíveis.

Durante

Segurança e suporte rápido, com rastreabilidade para agir quando necessário, sem invadir limites.

Depois

Avaliação justa, investigação de incidentes e mecanismos de reparação e aprendizado do sistema.

Como equilibrar inovação e proteção sem matar a conveniência

O caminho adiante não precisa ser um plebiscito entre “plataformas, sim” e “plataformas, não”. A pergunta mais útil é outra: quais regras e incentivos fazem a conveniência funcionar sem empurrar o custo para quem tem menos margem de escolha? Em outras palavras, como desenhar um mercado em que eficiência não dependa de opacidade.

No cenário internacional, a Diretiva (UE) 2024/2831 virou um sinal de que a discussão amadureceu. Mas o ponto não é importar um modelo pronto, e sim reconhecer o princípio: quando decisões automatizadas afetam renda, acesso ao trabalho e permanência no sistema, elas precisam ser compreensíveis, contestáveis e acompanhadas de responsabilidade clara.

Uma agenda construtiva costuma andar melhor quando sai do “contra ou a favor” e vira lista de entregas. Quatro frentes concentram boa parte do que dá para melhorar sem “desligar” as plataformas:

Transparência que funcione

Explicações simples sobre bloqueios, critérios de prioridade e mudanças de repasse, com canal real de revisão para corrigir erros e aprender com eles.

Proteção social portátil

Contribuições proporcionais e coberturas mínimas para que flexibilidade não seja sinônimo de ficar sozinho quando algo dá errado.

Regras urbanas com execução

Políticas locais para aluguel de curta duração e proteção do uso residencial, com fiscalização, porque a cidade tem limite.

Governança e alternativas

Cooperativas e arranjos híbridos para que alternativas sejam viáveis com apoio técnico, dados e compra pública.

No fim, a economia colaborativa continua sendo uma boa ideia. O que ela não pode ser é um slogan que disfarça assimetrias. Se a colaboração virou intermediação, o trabalho virou métrica e a cidade virou produto, o passo construtivo é tratar confiança, proteção e transparência como requisitos de projeto. Assim, a conveniência deixa de depender da precariedade e a infraestrutura digital passa a operar com responsabilidades proporcionais ao tamanho que já tem.


Créditos: Imagem Destaque – Bibadash/Shutterstock

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