5 mitos sobre impacto social que precisamos deixar para trás

5 mitos sobre impacto social que precisamos deixar para trás
O que você vai descobrir a seguir:
  • • Por que o impacto social não se limita ao trabalho de ONGs.
  • • O perigo de escalar soluções sem considerar o contexto.
  • • Como romantizar o trabalho com propósito pode ser um tiro no pé.

O 1º de abril é conhecido como o dia da mentira. Uma data marcada por brincadeiras, histórias inventadas e trotes que, em teoria, não fazem mal a ninguém. Mas no universo do impacto social, existem mentiras que passam longe da piada e, quando repetidas demais, podem atrapalhar o que realmente importa.

Hoje, nossa proposta é inverter o jogo: em vez de inventar, revelar. Reunimos cinco mitos que ainda rondam o universo da transformação social. Ideias que parecem inofensivas, mas que precisam ser questionadas se quisermos construir algo mais verdadeiro, mais justo e, claro, mais transformador.

1. “Só ONGs fazem impacto social”

Durante muito tempo, a atuação social esteve associada quase exclusivamente ao terceiro setor. Mas o cenário mudou e continua mudando. Hoje, o impacto pode vir de diferentes frentes: negócios de impacto, movimentos comunitários, coletivos de juventude, articulações locais, fundações empresariais e até políticas públicas bem desenhadas.

A transformação social continua tendo nas organizações da sociedade civil um papel essencial; mas hoje, ela é construída também por negócios de impacto, coletivos independentes, iniciativas comunitárias e até políticas públicas inovadoras. O campo se expandiu, e com ele, os caminhos para gerar impacto real.

Enxergar o impacto social apenas como responsabilidade das ONGs é esquecer que hoje ele é construído por um conjunto amplo de agentes, como coletivos, negócios de impacto, movimentos sociais, políticas públicas. Cada um tem seu papel nesse ecossistema, e todos contribuem para fortalecer um tecido social mais justo.

Além disso, o próprio terceiro setor enfrenta desafios estruturais: um estudo do GIFE mostrou que, a cada 10 ONGs abertas no Brasil, 3 encerraram suas atividades. Isso reforça a importância de pensar o impacto de forma distribuída, com diferentes modelos e atores atuando em conjunto.

2. “Escalar é sempre o próximo passo”

Escalar uma solução é quase um mantra no mundo da inovação – como se crescer fosse sinônimo de sucesso. Mas será que toda boa ideia precisa mesmo ganhar o país, o continente, o mundo? Nem sempre. Muitas iniciativas funcionam justamente porque estão profundamente conectadas ao território, à cultura local, ao tempo da comunidade. A escala, nesses casos, pode diluir o impacto ou até descaracterizar a proposta.

Crescer não é um problema por si só – mas precisa fazer sentido. Expandir sem estratégia, sem adaptação, sem escuta, pode transformar algo potente em um projeto genérico. Às vezes, o verdadeiro sucesso está em permanecer, aprofundar, consolidar. O impacto social não se mede só pela quantidade de lugares onde está presente, mas pela qualidade da transformação que promove.

Isso também não quer dizer que novas versões de um projeto não possam nascer a partir do que já deu certo em outros contextos. Conhecimento acumulado é um ativo poderoso. Mas é justamente por isso que cada nova aplicação merece um olhar atento, que considere as particularidades do território, das pessoas envolvidas e dos objetivos propostos. Escalar com impacto exige mais do que copiar: exige compreender.

3. “A comunidade precisa ser ‘educada’”

Esse mito parte de uma lógica ultrapassada: a de que existe um saber “correto” que precisa ser ensinado a quem está em situação de vulnerabilidade. Ao assumir que a comunidade precisa ser “educada”, deixamos de lado o reconhecimento de saberes locais, de histórias de resistência, de soluções construídas há gerações. E pior: reforçamos uma relação vertical, onde quem chega “de fora” dita as regras do jogo.

A escuta, nesse contexto, é mais poderosa que qualquer aula. Transformação social não se impõe, se constrói junto. Valorizar os conhecimentos que já existem é um passo essencial para criar soluções enraizadas, legítimas e sustentáveis. Porque ninguém transforma o outro, mas é possível se transformar junto com ele.

4. “Tecnologia sempre melhora a vida das pessoas”


A crença de que basta uma boa plataforma, um “app intuitivo” ou uma solução digital para resolver problemas sociais é, no mínimo, ingênua. A tecnologia pode ser uma ferramenta incrível, sim – mas apenas quando usada com critério, contexto e escuta. Sem isso, corre o risco de excluir ainda mais quem já está à margem, aprofundando desigualdades ao invés de reduzi-las.

Nem toda comunidade precisa de um aplicativo. Às vezes, o que falta é presença, escuta, estrutura física. Existem, aliás, centenas de projetos de tecnologias sociais que mostram exatamente isso: soluções simples, enraizadas no cotidiano e com impacto direto na vida das pessoas. O problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é concebida e aplicada. A tecnologia não é um fim. É um meio. E precisa estar a serviço das pessoas (não o contrário).

5. Que “amar o que faz” basta

Trabalhar com impacto social costuma vir acompanhado de uma paixão genuína – e isso é lindo. Mas transformar essa paixão em justificativa para aceitar tudo, inclusive a precarização do próprio trabalho, é uma armadilha. A ideia de que o amor pelo que se faz é suficiente para sustentar uma jornada intensa, emocionalmente exigente e, muitas vezes, mal remunerada, não se sustenta a longo prazo.

É preciso falar sobre estrutura, saúde mental, remuneração justa e reconhecimento. O propósito é uma bússola, mas não substitui políticas de cuidado. E sim, é possível – e necessário – gostar do que se faz, sentir-se útil e ainda assim reivindicar condições melhores.

O amor pelo trabalho não deve ser um escudo contra a realidade. Deve ser uma motivação para torná-la mais justa para todos.

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