Conheça o “Triplo A” e a ameaça que nunca existiu

O que é o Triplo A?! Para quem não viu, o tema (assim como foi com a URSAL), ganhou destaque na mídia depois de uma fala de um político brasileiro. No entanto, agora não estamos falando de um candidato qualquer, mas do presidente eleito. Durante uma coletiva, para justificar a desistência do Brasil em sediar a COP 25, em 2019, Bolsonaro afirmou: “Houve participação minha nessa decisão. Ao nosso futuro ministro (Ernesto Araújo, das Relações Exteriores) eu recomendei que evitasse a realização desse evento aqui no Brasil. Até porque está em jogo o Triplo A neste acordo.” Eis que pergunto novamente, o que é o Triplo A? Ainda nas palavras de Bolsonaro, “(o Triplo A) é uma grande faixa, que pega do Andes, Amazônia e Atlântico, de 136 milhões de hectares, ao longo da calha do Rio Solimões e do Amazonas, que poderá fazer com que percamos a nossa soberania nessa área”. Não é bem assim…

Não é fake news, mas também não é verdade

O Triplo A surgiu do colombiano Martin von Hildebrand, antropólogo, fundador e presidente honorário da Gaia Amazonas (uma fundação com sede em Bogotá), que – em 2015 – apresentou a ideia para o então presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos (vencedor do Nobel da Paz em 2016), durante um voo sobre a parte colombiana da Amazônia. Na época, Hildebrand saiu declarando aos quatro ventos que “o presidente se interessou”, mas o projeto não saiu disso.

Para quem trabalha com projetos e serviços relacionados ao governo, sabe que o caminho, para uma ideia sair do papel e virar realidade, é longo e burocrático. Imagina uma ideia que exige contribuição internacional e quase 2 milhões de km² de terras indígenas e áreas protegidas. Não sei nem se consigo chamar isso de ideia, pois, para mim, isso está mais para uma utopia ambiental.

Apesar de nunca ter chegado uma proposta oficial para o governo brasileiro, o Triplo A ganhou a atenção de figuras importantes. Além do presidente eleito (que já havia declarado seu temor com o Triplo A em 2015 – veja o print abaixo), o atual comandante do Exército Brasileiro, General Villas Boas, chegou a publicar em sua conta no Twitter: “Você sabe o que é “Corredor Triplo A”? É uma questão de soberania! Minha missão como Comandante do @exercitooficial, preocupado com interesses nacionais, é indicar os riscos dessa proposta para o país. Precisamos discutir profundamente com a sociedade. NOSSA SOCIEDADE!”.

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Qual a ligação entre a COP e o Triplo A?

A resposta para a pergunta acima é bem simples… Nenhuma! Mais do que isso, não existe nenhuma menção do Triplo A em nenhuma agenda da COP. De acordo com o site ((o))eco, o Ministério do Meio Ambiente afirma que “a ideia do Projeto Triplo A não está listada em nenhuma das agendas da COP ou há referência no compromisso brasileiro sobre o Acordo de Paris”. Segundo O Globo, “o presidente eleito alega que o ‘Triplo A’ foi discutido nos bastidores do Acordo de Paris, e que estaria implícito no tratado. Não há, porém, qualquer diplomata ou chefe de estado que confirme isso”. Em resumo, declarar que o Triplo A é uma ameaça à soberania brasileira, é quase como falar que existe uma conspiração mundial para roubar a Amazônia.

A relação do Brasil e o Acordo de Paris

A relação do Brasil com o Acordo de Paris e a COP 21 está longe de ser uma conspiração mundial. Após apresentar as Pretendidas Contribuições Nacionalmente Determinadas (iNDC, em inglês), em setembro de 2016, o Brasil aprovou no Congresso Nacional a ratificação do Acordo de Paris. Com isso, as INDC deixam de ser metas pretendidas e tornaram-se metas oficiais, sendo chamada de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC).

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, “A NDC do Brasil comprometeu-se a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos níveis de 2005, em 2025, com uma contribuição indicativa subsequente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 43% abaixo dos níveis de 2005, em 2030. Para isso, o país se comprometeu a aumentar a participação de bioenergia sustentável na sua matriz energética para aproximadamente 18% até 2030, restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, bem como alcançar uma participação estimada de 45% de energias renováveis na composição da matriz energética em 2030”. Caso você nunca tenha lido o Acordo de Paris (são apenas 13 páginas), o Ministério do Meio Ambiente reúne em seu site o acordo e as declarações conjuntas em inglês e português. Basta acessar aqui.

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