Em algum momento a sua privacidade será invadida… e isso é normal

Se você chegou nesse texto pelas redes sociais, quero avisar antemão que ele não é sobre Black Mirror, mas sobre privacidade. No entanto, vou falar sobre a série em algum momento (se você não assistiu, fique tranquilo. Eu prometo avisar quando houver spoilers). Então, vamos lá! Para quem está antenado com as notícias de tecnologia, viu 2018 chegar com um grande escândalo de segurança digital. Se você não sabe o que estou falando, vou explicar brevemente o que são as falhas Spectre e Meltdown. Segundo o Google, a Cyberus Technologies e outros especialistas em cibersegurança, se você usa um processador Intel, AMD e, possivelmente, alguns celulares, seus aparelhos estão vulneráveis. A falha, presente em todos os chips produzidos pela Intel desde 1995 (vale ressaltar que já existem especulações que as falhas não atingem apenas os produtos da Intel), ou seja, grande parte do mercado, permite que hackers mais experientes explorem a comunicação entre o hardware (físico) e software (sistema) para ter acesso aos arquivos. Se você quiser entender mais, sugiro acessar este link.

Para você entender o tamanho do problema, alguns especialistas afirmam que os sistemas de antivírus terão que rever a forma como protegem as máquinas e o CEO da Intel, Brian Krzanich, vendeu 245 mil ações em novembro de 2017, ficando com um estoque mínimo (250 mil) estabelecido por contrato para que ele continue à frente da Intel. Ficou assustado(a)? Calma, isso é só mais um cadeado com defeito, em uma porta sem fechadura. O melhor conselho que tenho para você é (aliás, são dois): Se você quer manter algo em segredo, mantenha ele offline. Do contrário, apenas aceite que ele será invadido, mais cedo ou mais tarde.

O melhor conselho que tenho para você é (aliás, são dois): Se você quer manter algo em segredo, mantenha offline. Do contrário, apenas aceite que sua privacidade será invadida, mais cedo ou mais tarde.

Pode parecer um discurso dramático, mas vou mostrar como a privacidade é algo efêmero. Encontrei uma amiga de colégio alguns dias atrás, não nos víamos há – pelo menos – uns 15 anos. Ela já sabia onde eu estava trabalhando, qual o nome da minha cachorra e outros tantos detalhes da minha vida pessoal. Não, ela não é nenhuma hacker, é que – por questões pessoais -, acabo deixando muita coisa aberta no meu Facebook. Ela só “juntou os pontos” de forma ingênua. Você deve estar se falando “ah, mas eu não tenho redes sociais” ou “as minhas contas são bloqueadas”. Você já digitou o seu nome no Google?

Não achou nada? Fique tranquilo, se você usa muito cartão de débito, o gerente da sua conta bancária sabe exatamente se você almoçou comida japonesa ou está na praia comendo camarão a beira mar. Essa análise de comportamento é usada há muitos anos por bancos para definir perfis de clientes. Ok, se você não possui redes sociais e guarda dinheiro no colchão, só está dificultando a vida de quem quer estourar a sua privacidade. De qualquer forma, se você é brasileiro, é obrigado a fazer o cadastro de biometria para as eleições de 2018 (segundo o TSE, a biometria será obrigatória em cerca de 2.800 cidades de todos os estados). Interessante! Tecnologia de ponta sendo usada pelo governo. É…

De acordo com o indiano The Tribune, é possível comprar (por WhatsApp e sem sair de casa) o acesso ao Aadhaar, sistema de biometria que guarda as informações de 1,2 bilhões de indianos, por meros 500 rupias, algo em torno de US$ 8. Uma brecha no sistema digital? Não, são “apenas” funcionários públicos mal-intencionados. Ou seja, se houver pessoas, haverá brechas. Para isso existe até um termo específico, a engenharia social, onde alguém faz uso da persuasão, muitas vezes abusando da ingenuidade ou confiança do usuário, para obter informações que podem ser utilizadas para ter acesso não autorizado a computadores ou informações. Qual a grande solução? De novo, aceite que o mundo é falho. Quer manter segredo, não conte para outro (seja uma pessoa ou máquina).

ATENÇÃO: SPOILERS SOBRE BLACK MIRROR NO RESTANTE DO TEXTO

Eu falei que chegaria em Black Mirror, afinal, a série britânica teve sua nova temporada publicada nos últimos dias de 2017, pelo Netflix, e – é quase impossível – falar de relacionamento humano x máquina sem citar algum episódio da série. No texto de hoje, quero falar mais especificamente sobre o episódio #2 da quarta temporada, “Arkangel”. Nele, a mãe superprotetora decide inscrever a filha Marie em um experimento, o projeto Arkangel, que – por meio de um implante cerebral – dá acesso a visão da filha. Além de ver o mundo pelos olhos da pequenina, a mãe pode “pixelar” cenas não recomendadas (violência, ações sexuais, etc.). Resultado da superproteção? A menina chega aos 7 anos sem saber o que é sangue ou diferenciar uma briga de um abraço.

Pode soar extremo, mas Black Mirror é exatamente isso. A série usa situações elevadas ao extremo para criar pequenos diálogos. Uma mãe não vai implantar um chip em sua filha, mas quais são os impactos de uma infância superprotetora? Conheço caso de pais que levavam (e buscavam) o filho na porta da faculdade. Em outro momento do episódio, a mãe decide reativar o sistema e vê a filha adolescente em pleno ato sexual. Ou seja, a privacidade pode ser eliminada em prol da proteção? A grande verdade é que estas são perguntas sem respostas “1 ou 0”, mas uma coisa é certa, em algum momento a sua privacidade será invadida… e isso é normal.

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