ODS 13: As mudanças climáticas e o impacto na vida das abelhas

No texto de hoje, falaremos sobre o ODS nº 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima. De acordo com Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), “não há país no mundo que não enfrente os efeitos adversos da mudança global do clima. A emissão dos gases que geram o efeito estufa continuam crescendo, e está 50% maior do que os níveis de 1990. Além disso, o aquecimento global está causando mudanças de longo prazo em nosso clima, com ameaças e consequências irreversíveis se não tomarmos medidas urgentes, agora.”

Já de acordo com a plataforma Agenda 2030 (do PNUD), “sem a ação imediata frente à mudança do clima, a temperatura terrestre está projetada para aumentar mais de 3 ºC até o final do século XXI. Uma das metas para esse objetivo é mobilizar 100 milhões de dólares por ano até 2020 para ajudar os países em desenvolvimento no plano de mitigação de desastres relacionados ao clima.”

Você pode conferir as metas do objetivo nº 13 neste link.

O grande problema é que mudança global do clima envolve vários fatores. Da diminuição de CO2, passando por reflorestamento e outros tantas ações. Um dos insetos que sofrem diretamente com isso são as abelhas. O detalhe é que a maioria das pessoas esquece/desconhece que as abelhas cumprem um papel importante no planeta. Elas são os melhores e mais eficientes agentes polinizadores da natureza, responsáveis pela reprodução e perpetuação de milhares de espécies vegetais, produzindo alimentos, conservando o meio ambiente e mantendo o equilíbrio dos ecossistemas.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 85% das plantas com flores das matas e florestas e 70% das culturas agrícolas, dependem dos polinizadores. A polinização das abelhas é fundamental para garantir a alta produtividade e a qualidade dos frutos em diversas culturas agrícolas, afirma a iniciativa Bee Or Not To Be.

Mas onde o clima impacta as abelhas?

Abelhas precisam de sombra e água fresca (achou que era só você?). Estudo conduzido pela pesquisadora Maria Teresa Rêgo, da Embrapa Meio-Norte, no Piauí, revelou que o sombreamento das colmeias e a presença de água nas proximidades favorecem o desenvolvimento das colônias e a qualidade do mel. Um dos resultados mais expressivos dessa pesquisa mostrou que o sombreamento natural, com árvores, ajudou na ampliação rápida da “área de cria”, o favo, onde as crias se desenvolvem. A melhor faixa de temperatura para o desenvolvimento delas é entre 30 e 35 graus Celsius.

“Em uma colônia, as operárias trabalham para manter essa faixa de temperatura ideal às crias, seja aquecendo o ninho, quando ocorrem temperaturas baixas, seja resfriando, no caso de temperaturas elevadas”, explica a cientista. Segundo ela, quanto mais a colônia de abelhas estiver exposta a temperaturas que se distanciam dessa faixa, maior será o trabalho das operárias para manter um clima ideal e estabelecer a termorregulação. O trabalho das operárias no aquecimento ou resfriamento do ninho afeta o desenvolvimento das colônias.

ODS nº13: As mudanças climáticas e o impacto na vida das abelhas

No Nordeste brasileiro, região de clima quente durante quase todo o ano, as altas temperaturas são as grandes adversárias dos apicultores. O intenso calor, no período mais seco, entre os meses de setembro a dezembro, chega a provocar a perda de colônias. As condições ambientais na estiagem não oferecem floradas e empurram as abelhas para um lugar incerto. “Esse é um dos fatores que contribui para a perda das colônias”, aponta a cientista.

Água limpa e disponível durante todo o ano, segundo a pesquisadora, também é essencial para o bom desempenho das colônias. “As abelhas precisam de água para o seu metabolismo e para regular a temperatura dentro da colmeia, especialmente em regiões de clima quente”, diz a especialista. Quando a temperatura do ninho ultrapassa os 36 graus, as abelhas operárias entram em ação abanando freneticamente as asas e evaporando a água sobre os alvéolos.

Calor provoca abandono da colmeia

A busca por um cenário ideal à vida das abelhas em regiões quentes levou também a Universidade Estadual do Piauí (Uespi) a monitorar o comportamento delas nas colmeias de acordo com o clima e a época do ano. Entre 2013 e 2014, um equipamento permitiu que cientistas da Embrapa, professores e estudantes de graduação e pós-graduação monitorassem as condições de temperatura que os insetos enfrentam e que influem no comportamento deles e na produção de mel.

Os resultados, apresentados pelo professor da Uespi, Carlos Giovanni Nunes de Carvalho, mostraram que as altas temperaturas, associadas à baixa umidade do ar, realmente comprometem a produtividade de mel, matam e contribuem para a má-formação das crias. Em alguns casos, levam as abelhas a abandonar as colmeias.

Quando a temperatura fica acima de 39 graus, segundo os cientistas, facilmente as abelhas desistem da homeostase, que é o processo pelo qual um organismo mantém as condições internas necessárias à vida. Entre três e quatro dias sob forte e calor, os animais abandonam a colmeia.

Os impactos do clima e do sumiço

Maçã, melão, manga e hortaliças como berinjela, cenoura, couve e pepino, consumidos em larga escala de norte a sul do Brasil, podem um dia até sumir das feiras livres e supermercados, caso a perda de abelhas continue em ritmo acelerado. De acordo com a pesquisadora Marcia Motta Maués, da Embrapa Amazônia Oriental (PA), sem a ação efetiva das abelhas como agentes polinizadores, cerca de 52% dos produtos vendidos nos supermercados desaparecem.

sem a ação efetiva das abelhas como agentes polinizadores, cerca de 52% dos produtos dos supermercados desaparecem

Ainda de acordo com Maués, as principais causas do desaparecimento desses insetos são mudanças no uso da terra, manejo agrícola intensivo, pesticidas, cultivos geneticamente modificados, fungos, vírus, pragas (formigas e ácaros) e mudanças climáticas. ”Em todo o mundo, as mudanças climáticas alteram a distribuição geográfica das abelhas e plantas e seus ciclos reprodutivos”, destaca Maués.

Salvando as abelhas (e a nossa pele!)

Furacões, enchentes, incêndios e a seca estão no pelotão de frente dos fenômenos climáticos extremos que, acreditam os cientistas, comprometem a vida das colmeias. Uma rede de 35 pesquisadores de dez países da América Latina, entre os quais o Brasil, está avaliando a perda de abelhas, além da identificação de ameaças e fatores que causam a mortalidade das colmeias.

No Brasil, foi criada a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (Rebipp), um coletivo de cientistas especializados em biologia de polinização que estudam as interações planta-polinizador em suas várias dimensões. O objetivo do trabalho colaborativo é incentivar o desenvolvimento de atividades científicas e didáticas na área, identificando a falta de conhecimento e estimulando a construção de projetos de pesquisa.

Fundamental à segurança alimentar, conservação do meio ambiente e manutenção do equilíbrio dos ecossistemas, o trabalho desses insetos vai além dos alimentos, eles também estão ligados à produção de medicamentos, fibras usadas na indústria, biocombustíveis e materiais de construção. Além de possuírem uma relação com o homem que remonta ao Egito Antigo, há 2.400 anos antes de Cristo.

No Brasil, as abelhas chegaram pelas mãos dos jesuítas, no século 18, nas áreas que hoje são o noroeste do Rio Grande do Sul. Hoje, o Sul e o Nordeste são as principais regiões produtoras de mel e também produzem pólen, própolis, cera e apitoxina, um composto ativo presente no veneno das abelhas, cujos efeitos são benéficos à saúde em tratamentos odontológicos.

Por isso, a próxima vez que ver uma abelha voando por aí, não precisa matar a coitada. Sem elas, quem morre somos nós.

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