ODS nº01: 10 tendências tecnológicas que irão impactar a justiça social em 2018

O texto de hoje inicia uma série de conteúdos no Inova Social sobre os ODS. Mas, afinal, o que é isso?! Em setembro de 2015, líderes mundiais reuniram-se na sede da ONU, em Nova York, e decidiram um plano de ação para erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir que as pessoas alcancem a paz e a prosperidade. Esse plano ficou conhecido como Agenda 2030 e é onde estão definidos os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS).

Neste texto vamos falar sobre o ODS nº 01 – Erradicação da Pobreza. De acordo com Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), “erradicar a pobreza em todas as suas formas segue sendo um dos principais desafios que enfrenta a humanidade. Enquanto o número de pessoas vivendo em extrema pobreza caiu mais da metade em 1990 e 2015 – de 1.9 bilhão para 836 milhões – muitos ainda sofrem para satisfazer necessidades básicas.”

Já de acordo com a plataforma Agenda 2030 (do PNUD), “em um mundo confrontado pelos crescentes desafios para o desenvolvimento, a Agenda 2030 reconhece que a erradicação da pobreza, em todas as suas formas, é o maior desafio global para atingirmos o desenvolvimento sustentável. Por isso, a grande prioridade do desenvolvimento sustentável deve ser os mais pobres e vulneráveis: ninguém será deixado para trás!”

Você pode conferir as metas do objetivo nº01 neste link.

Uma das fundações que têm buscado a diminuição da desigualdade é a Ford Foundation. Segundo a fundação, “acreditamos na dignidade inerente de todas as pessoas. No entanto, em todo o mundo, bilhões de pessoas são excluídas da plena participação nos sistemas políticos, econômicos e culturais que moldam suas vidas. Para abordar e responder a esses fatores, trabalhamos e fazemos doações em sete áreas interconectadas que, juntas, acreditamos que podem ajudar a combater a desigualdade: engajamento cívico e governamental; criatividade e livre expressão de imagem; futuro do trabalho; justiça de gênero, racial e étnica; internet livre; cidades e regiões; e mudanças climáticas e recursos naturais.”

No último mês de março, Wilneida Negrón, PhD em políticas comparativas, especialista em implicações sociais e políticas em tecnologias emergentes na Ásia leste e América Latina, e membro do time de justiça de gênero, racial e étnica, listou 10 tendências tecnológicas que irão impactar a justiça social em 2018¹. Confira:

1. Aumento das batalhas pelos direitos de privacidade digital no âmbito local, nacional e global

Os direitos digitais, incluindo proteção à privacidade e liberdade de expressão, estão sendo discutidos em todos os níveis do governo. A União Europeia, por exemplo, irá implementar novas leis de privacidade. Já nos EUA, a Suprema Corte está revisando os direitos à privacidade digital devido ao caso Carpenter, considerado um dos mais importantes casos de privacidade eletrônica do século XXI.

Ainda por lá, o fim da neutralidade da rede mudou para o nível estadual (Califórnia, Nova York, Oregon, Illinois, Maryland, Minnesota, Montana e Nova Jersey seguem na vanguarda deste quesito) e a legislação busca responsabilizar os provedores de serviços de Internet (ISPs) por práticas discriminatórias no campo social. Cada uma dessas lutas será fundamental para preservar os direitos digitais.

Já no cenário mundial, o caso da Cambridge Analytica e o download de 87 milhões de perfis do Facebook deve apimentar as discussões sobre privacidade digital.

2. Segurança digital se torna algo politicamente notável

O ano de 2017 marcou algumas das maiores violações de segurança de dados, incluindo os vazamentos de dados da Equifax, Yahoo, o vírus WannaCry, violação de dados biométricos de 1.2 bilhões de indianos e outros tantos casos. Eles demonstraram a gravidade dos riscos de segurança cibernética, bem como a falha dos governos e dos setores privados em proteger os cidadãos.

Com a ameaça de mais ataques cibernéticos patrocinados por Estados, violações de dados de eleitores, sistemas de registro online passíveis de ser hackeados e o primeiro censo digital de 2020, o público pode em breve começar a exigir maior responsabilidade e proteção dos governos e do setor privado.

3. Maior foco na responsabilidade corporativa digital

Mudanças recentes no ecossistema das mídias digitais que dependem cada vez mais de bots, “bolhas de filtros” e manipulação de mecanismos de busca, e casos crescentes de assédio, preconceito e desinformação digital, destacaram as vulnerabilidades das sociedades democráticas na era digital.

Embora exista a necessidade de encontrar soluções técnicas, jurídicas e políticas para esses crescentes problemas sociais e técnicos, as empresas de tecnologia irão enfrentar uma pressão crescente para trabalhar junto com a sociedade civil para monitorar, prevenir e resolver esses problemas. Portanto, em 2018, acionistas e reguladores do governo podem inaugurar uma nova era de responsabilidade corporativa digital.

Durante as eleições presidenciais de 2014, os robôs também chegaram a gerar mais de 10% do debate. – Robôs, redes sociais e política no Brasil – FGV DAPP (acesse aqui)

4. Olhar crítico para o engajamento cívico e a construção de poder na era digital

A tecnologia tornou-se essencial para campanhas eleitorais, movimentos sociais e mudanças legislativas. Ações como #KnockEveryDoor, #MeToo, #TimesUp e #NiUnaMas, assim como muitas outras, mostram como espaços para mudanças políticas também se tornaram incubadoras de tecnologias, inovação e prototipagem.

No entanto, em vez de abraçar uma era de inovação contínua, em 2018, a sociedade civil pode ter um olhar mais crítico no impacto dessas plataformas e modelos de engajamento cívico orientados para a tecnologia na construção e sustentação do poder político na era digital. As próximas eleições presidenciais em países como o Egito, o México e o Brasil, fornecerão oportunidades para analisar criticamente o papel da tecnologia política nas campanhas eleitorais.

5. Maior transparência e responsabilização das negociações governamentais de tecnologias do setor privado

Governos de todo o mundo estão cada vez mais comprando e confiando em tecnologias criadas pelo setor privado e baseadas em dados. Essas tecnologias estão sendo usadas para tudo, desde bem-estar e entrega de benefícios ao policiamento, imigração e monitoramento das fronteiras. Embora essas tecnologias possam oferecer maior eficiência e eficácia, elas também estão aumentando a vigilância e a censura em 2017.

Este ano, continuaremos a ver soluções de tecnologia e fornecedores de análise de dados vendendo novos serviços e ferramentas para o governo e o setor público. Enquanto isso, mobilizações em âmbito municipal e estadual para aumentar a transparência das aquisições governamentais no campo das tecnologias podem oferecer lições fundamentais neste cenário social.

6. Maior foco em propriedade de dados e governanças sobre sistemas de previsão e automação

Em 2018 veremos a expansão da automação e da previsão por meio do uso de análises preditivas, inteligência artificial, internet das Coisas (IoT) e outras infraestruturas inteligentes, além de aumentar a conscientização sobre os vastos ecossistemas do setor público e privado por meio dos quais nossos dados pessoais são coletados, vendidos e usados por plataformas de mídia social, governos e empresas terceirizadas.

Como resultado, veremos um foco crescente na governança de dados, incluindo uma maior necessidade de definir direitos e proteções para comunidades vulneráveis e novos sistemas para regulamentar a coleta de dados no front-end e seu uso no back-end.

7. Uma internet alternativa, descentralizada e colaborativa

Duas tendências estão atualmente se fundindo e prometem implicações para o futuro da internet. De um lado, o fim da neutralidade e os modelos de mídias sociais impulsionados pelo lucro e a desinformação online.

Do outro, grupos que estão experimentando maneiras de permitir novos modelos descentralizados de internet e de colaboração (P2P) por meio de blockchain. Uma certeza é que 2018 será um ano de pesquisa e experimentações que podem fornecer alternativas para um ambiente menos centralizado e monopolista.

8. As tecnologias biométricas são integradas e tornam-se normais

As tecnologias biométricas, como o reconhecimento facial, são atualmente usadas por governos em todo o mundo. Seja no policiamento, fiscalização de fronteiras, imigração, sistemas nacionais de identificação e/ou prestação de serviços públicos. Mais recentemente, nos EUA, a JetBlue e a Delta testaram sistemas biométricos como forma de substituir os cartões de embarque.

No Brasil, o cadastro biométrico já virou realidade em muitas cidade e será usado nas eleições deste ano. As formas – aparentemente inofensivas – em que as tecnologias biométricas estão sendo implementadas na vida cotidiana estão normalizando sua prática e uso no âmbito social.

9. A academia abordando temas referentes à inteligência artificial para o bem social

Embora a maioria das organizações e empresas ainda esteja no começo das pesquisas no campo da inteligência artificial, líderes do setor privado e grupos da sociedade civil estão começando a explorar os riscos e o potencial para o bem social dessas tecnologias.

Em 2017, mais e mais instituições acadêmicas lançaram centros de pesquisa focados em fomentar explorações interdisciplinares sobre as implicações sociais dessas tecnologias, bem como desenvolver propostas de políticas e melhores práticas específicas do setor para orientar o uso e a implantação delas. Em 2018, continuaremos vendo o crescimento em pesquisas desta área, bem como começaremos a ver como legisladores e ativistas se aproveitam delas.

10. Impacto da tecnologia no mercado de trabalho e no futuro do trabalho

O crescimento da automação e das plataformas digitais na força de trabalho e nos mercados de trabalho traz a promessa de maior eficiência, produtividade e oportunidade. No entanto, necessidades mais específicas onde essas tecnologias são implantadas, tais como, estagnação salarial, fissuração, desigualdade e imigração, devem ser examinadas de perto, precisam ser observadas de perto.

Ajudar as sociedades a se adaptarem à natureza mutável do trabalho exigirá compromissos de múltiplos entre legisladores, pesquisadores, empresas de tecnologia, sociedade civil e o público em geral. Essas áreas de trabalho estão começando a ser definidas e, em 2018, podemos ver o início das principais propostas políticas.

¹Texto originalmente publicado no Ford Foundation Ideas.

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