Meio ambiente é essencial no desenvolvimento de cidades inteligentes, afirma IESE

Com a possível junção do ministério do Meio Ambiente com o da Agricultura, caso o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, se eleja presidente, o tema meio ambiente voltou às discussões dentro de alguns grupos. O fato é que o meio ambiente é uma questão muito mais ampla, do que – simplesmente – desmatamento e/ou plantar árvores. Aqui mesmo, no InovaSocial, já questionei o impacto da poluição e a ausência do tema nos debates políticos.

No texto de hoje, trago uma análise do estudo IESE – Cidades em Movimento, um dos mais completos sobre smart cities, visto sob a ótica da importância do meio ambiente para que uma cidade seja realmente inteligente.

Antes de entrarmos no estudo, vale ressaltar um ponto interessante. No começo do mês (8), foi anunciado que Paul M. Romer e William D. Nordhaus foram os premiados com o Nobel de Economia 2018. De acordo com o anúncio dos organizadores do prêmio, ambos projetaram métodos que abordam algumas das questões mais fundamentais e urgentes do nosso tempo: crescimento sustentável a longo prazo na economia global e o bem-estar da população mundial. Ou seja, existe uma importância direta do meio ambiente na economia.

Voltado ao IESE – Cidades em Movimento 2018, o estudo analisou nove dimensões de 165 cidades pelo mundo e identificou fatores importantes na relação entre meio ambiente e cidades inteligentes. O uso da tecnologia é vital para uma cidade se tornar inteligente, uma vez que a automatização de processos, a ampliação de acessos e a geração de dados são importantes para melhorar a qualidade de vida da população. Entretanto, há muitos outros aspectos que devem ser levados em consideração quando se trata de democratizar o uso dos serviços públicos e prover uma gestão urbana eficiente.

O estudo, realizado pela IESE – Business School da Universidade de Navarra (Espanha), chega a sua 5.ª edição e usa como base 83 indicadores divididos em nove dimensões para classificar o índice de inteligência de 165 cidades de todo o mundo.

As nove dimensões analisadas na pesquisa da IESE incluem indicadores relacionados ao capital humano, aspectos sociais, economia, governança, meio ambiente, mobilidade e transporte, planejamento urbano, acesso a serviços internacionais e tecnologia. “Capital humano é a primeira dimensão tratada no estudo exatamente porque as pessoas são essenciais para tornarem uma cidade inteligente. A participação do cidadão é o que vai fazer a diferença para encontrar as soluções mais efetivas para problemas comuns. Também vale citar que a educação exerce um papel importante nesse cenário: um nível maior de escolaridade ajuda no entendimento da sociedade e nos direitos e deveres individuais e coletivos”, ressalta o diretor técnico do Instituto das Cidades Inteligentes (ICI), Fernando Matesco.

Na área de tecnologia, o estudo abrange indicadores como o índice de inovação da cidade (classificação realizada pelo Programa de Cidades Inovadoras), quantidade de casas com acesso à internet e até quantos habitantes estão inscritos em redes sociais como Twitter, LinkedIn e Facebook. Segundo o diretor técnico do ICI, essas inclusões podem gerar estranhamento em algumas pessoas, entretanto, elas são importantes para destacar a liberdade de expressão e acesso à informação. “As redes sociais são canais livres de comunicação. Qualquer um pode gerar conteúdo e divulgá-lo mundo afora. Essa inclusão é interessante porque ressalta exatamente como essas cidades permitem que as pessoas se comuniquem”, finaliza.

Segundo Matesco, esse é um dos mais completos estudos sobre a área porque considera o planejamento estratégico dos centros urbanos como um todo. Para Matesco, um dos destaques do material é a inclusão de fatores ambientais como primordiais para elevar a classificação de uma cidade como inteligente. Entre os itens da dimensão estão a emissão de CO2 e metano, o acesso à água, a quantidade de partículas no ar, o nível de poluição, a previsão de aumento de temperatura e até o volume de lixo gerado por pessoa. “O desenvolvimento tem que ser sustentável. Não adianta apenas ter tecnologia. É importante que as cidades estejam preparadas para serem globais e inovadoras, mas respeitando seus limites e também os limites do meio ambiente”, destaca o diretor.

Os benefícios de manter e ampliar áreas verdes numa cidade avançam também para a área da saúde: em palestra ministrada no IX Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), a pesquisadora sueca Matilda Van den Bosch afirmou que a interação das pessoas com o meio ambiente melhora fatores como estresse, depressão e doenças mentais. Além disso, as mudanças climáticas apresentam riscos à saúde e a manutenção de áreas verdes nas cidades é essencial para reverter esse quadro negativo do aquecimento global. Ela alertou: “Podemos nos adaptar a um aumento de temperatura, mas sempre há um limite humano e algumas cidades sofrerão muito com isso futuramente”.

Fatores Ambientais como ponto estratégico

Para o biólogo Fabiano Melo, doutor em Ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, pós-doutor pela University of Wisconsin (EUA) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, o meio ambiente é essencial para uma cidade ser considerada inteligente. “Há uma infinidade de benefícios e vantagens, em maior ou menor escala. Os diversos benefícios que isso pode trazer incluem o bem-estar humano; a qualidade de vida atrelada a uma rotina mais saudável; serviços ecossistêmicos prestados pela natureza, como a manutenção da qualidade do ar em bons níveis (minimamente toleráveis e adequados), a polinização de hortas e jardins (em especial de árvores frutíferas que mantemos em nossos quintais), entre outros”, explica.

Segundo o especialista, muitas cidades ainda não colocam o cuidado com o meio ambiente como um fator vital de desenvolvimento. A falta de reciclagem e otimização de recursos é um dos exemplos. A ampliação de áreas verdes e dos próprios espaços entre residências é outro. “Em países desenvolvidos, é comum ter jardins e bons espaços entre as residências de bairros de classe média/alta. Aqui no Brasil, mesmo os condomínios de classe alta, que estão sendo consolidados recentemente, apresentam imóveis pequenos, com espaços estreitos entre as casas e que acabam não permitindo uma arborização adequada. Sem falar em outros tipos de loteamentos que consomem áreas verdes; um completo absurdo e contrassenso”, analisa.

O biólogo ainda reforça a importância de pensar no meio ambiente para possibilitar mais qualidade de vida aos cidadãos. “Plantas, áreas verdes, florestas em geral e cursos d’água potável são sonhos de consumo aqui no Brasil e devem compor a demanda futura por cidades inteligentes. Se isso não ocorrer, não conseguiremos acompanhar essa nova demanda e adoeceremos com as próprias cidades, uma vez que não teremos condições de manter altos e bons níveis de saúde, seja pelo ar poluído, pelo estresse do trânsito caótico, pela combinação de infraestrutura e falta de escoamento de água da chuva (com enchentes e alagamentos), com a manutenção de velhos problemas de saúde, como transmissão de zoonoses bem conhecidas por nós”, conclui.

De acordo com o ranking 2018 do IESE – Cidades em Movimento, Nova York é a cidade mais inteligente (no ranking geral) com 100 pontos. Em segundo lugar vêm Londres, com 99.27, seguida de Paris com 90.20 pontos.

No Brasil, São Paulo lidera o ranking com 44.63 pontos, ficando em 116ª posição no ranking geral, seguida por Rio de Janeiro (41.89), Curitiba (37.09), Brasília (36.05), Salvador (31.65) e Belo Horizonte (30.21).

Já no ranking por dimensão, Londres lidera o item “Capital Humano”, Helsinque (Finlândia) lidera o item “Aspectos Sociais”, Nova York ficou com o primeiro lugar em duas categorias: “Economia” e “Planejamento Urbano”. Já Bern (Suíça) lidera no quesito “Governança”, Reykjavík (Islândia) lidera o item “Meio Ambiente”, Paris também ficou em primeiro lugar em dois quesitos “Mobilidade e Transporte” e “Acesso a Serviços Internacionais”, e Hong Kong lidera em “Tecnologia”.

Créditos: Imagem destaque – Chris Barbalis

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