O que é matéria animada e como ela pode mudar a lógica da construção e do reparo urbano

O que é matéria animada e como ela pode mudar a lógica da construção e do reparo urbano
  • O problema real é o reparo tardio: a cidade costuma agir quando a trinca já virou buraco, a infiltração já virou obra e o custo já explodiu em transtorno, imposto e desperdício de material.
  • O que é matéria animada na prática: materiais projetados para perceber sinais precoces de dano e reagir antes do colapso, como asfalto com nanopartículas aquecidas por campo magnético, bio-concreto com bactérias que selam fissuras e plásticos programados para se degradar sem virar microplástico.
  • O desafio é transformar exceção em regra: não basta funcionar no laboratório; é preciso virar padrão com detecção precoce, rotina de microreparos, normas de confiança e um modelo que valorize o ciclo de vida, e não apenas o menor preço da obra.

O problema sobre o qual vamos falar hoje é algo que você não precisa ser engenheiro para entender. É só dirigir pelas ruas esburacadas de uma cidade em um dia de chuva; ou (e aqui vai um breve relato pessoal) ver toda a bebida do pedido que você acabou de comprar no drive-thru depois de um dia exaustivo espirrar pelo carro por causa dos chacoalhões; ou ter seu ambiente sonoro em um momento de descanso ser invadido pelo barulho de uma obra na rua que parece ser refeita a cada dois meses. E, em um desses momentos (ou algum outro similar), você provavelmente já se pegou fazendo uma pergunta: Por que parece que eu vivo em uma cidade que está sempre consertando as mesmas coisas?

A verdade é que a cidade não quebra de repente, ela vai se desgastando. E mais: nós até construímos bem, mas reparamos mal. Primeiro vem a trinca, depois a infiltração, depois a corrosão. Quando alguém nota, já não é mais um reparo pequeno: é obra, interdição, caminhão, custo extra e uma nova rodada de cimento e asfalto.

É nesse incômodo cotidiano que ganha força uma ideia com cara de ficção científica, a “matéria animada” (ou animate matter). Embora o nome pareça teatral, ele foi formalizado por instituições de peso, como a Royal Society no Reino Unido, em um relatório de 2021 que buscou definir essa nova fronteira da ciência. O termo descreve uma classe de materiais projetados por humanos para agir mais como um organismo do que como um tijolo. Em vez de aceitar que a infraestrutura vai se desmanchar e pronto, a proposta – liderada por nomes como o cientista Mark Miodownik, do Institute of Making na University College London (UCL) – é desenhar ruas, pontes e edifícios capazes de perceber sinais de dano, reagir ao ambiente e ativar mecanismos de autocura. Não é apenas um “material inteligente”, mas algo mais próximo de um tecido vivo, que sente, responde e se reorganiza.

Para entender essa revolução, vale dar um passo atrás. Nós, como espécie, somos obcecados por fazer coisas. Ferramentas, roupas, casas, pontes, carros, celulares. A história da civilização é basicamente a história dos materiais que aprendemos a dominar: Idade da Pedra, do Bronze, do Ferro. A gente sempre avançou quando aprendeu a transformar a matéria.

O problema é que ficamos muito bons em fazer coisas, mas não tão bons em cuidar delas. Quase tudo o que construímos compartilha a mesma lógica: nasce sólido, vai se desgastando e, quando falha, a gente substitui. Funciona assim com a rua do seu bairro, com o prédio público, com o celular e com a ponte. Faz, usa, desgasta, troca. O ciclo se repete e o entulho cresce. Para se ter uma ideia, a produção de materiais hoje responde por cerca de 40% das emissões globais de gases de efeito estufa.

A matéria animada tenta quebrar essa lógica. O que ela propõe não é um “supermaterial” indestrutível, mas outra arquitetura interna. Na natureza, os materiais não são apenas sólidos organizados; eles são sistemas conectados por fluxos de informação. Pense no seu corpo: se você se corta, as escalas conversam entre si. Moléculas ativam processos dentro das células, células organizam tecidos, tecidos fecham a ferida. O que define a vida não é só a matéria, mas a conexão entre esses níveis.

Quando cientistas falam em “escala”, estão falando do lugar onde o problema começa. Um buraco na rua parece um evento grande, mas quase sempre nasce microscópico. A matéria animada quer entrar justamente nesse intervalo chato entre o “ainda é nada” e o “agora é tarde”.

Por isso, a Royal Society definiu três níveis para esses materiais: eles podem ser Ativos (quando usam energia do entorno para agir), Adaptativos (quando sentem mudanças e se ajustam) ou Autônomos (quando decidem e iniciam o reparo sozinhos, sem intervenção humana). É uma diferença sutil, mas que muda tudo: em vez de depender da prefeitura perceber o problema, o material tenta se antecipar.

Do dano invisível ao reparo antecipado

Na prática, onde isso fica concreto (perdão pelo trocadilho, ele se escreveu sozinho)? Comecemos pela estrada. O buraco que faz a bebida voar pelo carro começa na fronteira entre o ligante do asfalto (a “cola”) e as pedrinhas. Pesquisadores como Miodownik e o consórcio do projeto “Self-Repairing Cities” (liderado pela Universidade de Leeds) estão testando o uso de nanopartículas magnéticas misturadas ao asfalto. A ideia deles é genial: quando microfissuras surgem, um campo magnético externo (aplicado por um veículo de manutenção ou drone) aquece essas nanopartículas. Esse calor amolece o ligante, que volta a fluir e sela a trinca antes que ela vire uma cratera. Na Holanda, testes com tecnologias similares já mostraram que estradas assim podem exigir até 30% menos manutenção.

O concreto entra por outro caminho. Ele trinca, e isso abre porta para a água corroer o aço interno. O chamado “bio-concreto”, desenvolvido originalmente pelo professor Henk Jonker na Universidade Técnica de Delft, na Holanda, usa micro-organismos (como o Bacillus subtilis) em estado dormente. Quando uma rachadura surge e a água entra, essas bactérias “acordam”, consomem nutrientes como o lactato de cálcio e excretam calcita (carbonato de cálcio). Esse mineral preenche a trinca, devolvendo até 90% da força original do material. É um sistema imunológico para prédios e pontes, e já existem empresas, como a Basilisk, comercializando esses aditivos biológicos.

Há também o desafio dos plásticos. A pesquisadora Ting Xu, da UC Berkeley, desenvolveu uma forma de embutir enzimas comedoras de polímeros dentro do plástico, protegidas por uma “capa” especial de polímeros aleatórios (RHPs). Quando esse plástico vai para a compostagem e encontra calor e água, as enzimas são liberadas e “devoram” o material de dentro para fora, transformando-o em nutrientes para o solo em poucos dias, sem deixar microplásticos.

O mais interessante é que isso não exige imaginar uma cidade futurista, cheia de superfícies brilhantes e robôs passando o dia inteiro pela rua. A mudança principal é bem mais discreta: sair do “conserta quando quebra” para o “cuida quando dá sinal”. E a cidade dá sinal o tempo todo. O problema é que ela dá sinal em lugares que a gente não enxerga: no microtrincado que ainda não virou buraco, na rachadura que ainda não virou infiltração, na corrosão que ainda não virou risco. Materiais animados tentam transformar esses sinais em resposta antes da fase em que todo mundo percebe. Para quem vive a cidade, isso não é luxo tecnológico. É chegar em casa sem o desvio de sempre, não perder uma manhã em obra, não gastar com o reparo do carro porque a via decidiu “abrir” um buraco justo na faixa do ônibus.

Só que existe uma camada de realidade que o laboratório não resolve sozinho. Para esse tipo de solução funcionar em escala, a cidade precisa ter o básico do básico: detecção, rotina e decisão. Detecção para enxergar o problema cedo (sensores, inspeção, imagem, gente treinada). Rotina para intervir sem drama (microreparos em vez de cirurgia urbana). E decisão para bancar o custo de prevenção mesmo quando ela não rende foto, inauguração ou placa. É por isso que matéria animada não é só ciência de materiais; ela é também gestão pública, planejamento e incentivo. A pergunta deixa de ser “dá para fazer?” e passa a ser “dá para fazer virar padrão?”.

O obstáculo não é apenas técnico, é o contrato

Até aqui, parece que tudo está resolvido. Mas a ironia é que o grande obstáculo não está mais apenas no laboratório, mas sim no modelo econômico.

Uma obra barata que precisa ser refeita rápido nunca é, de fato, barata. Ela só espalha o custo: parte vai para o imposto, parte para o seu pneu furado, parte para o meio ambiente. A matéria animada exige pensar no valor do ciclo de vida. Significa aceitar pagar um pouco mais agora para gastar muito menos depois, com menos barulho e menos desperdício. Para isso, precisamos de novas normas, novos testes de confiança e, principalmente, uma mudança na forma como as cidades planejam seu futuro.

No fundo, a pergunta “por que a cidade está sempre consertando as mesmas coisas?” tem uma explicação bem prática: a manutenção quase sempre entra tarde na história. A gente reage quando o problema já ficou visível e caro, em vez de agir quando ainda era pequeno e barato. Não é conspiração. É modelo. É o jeito como priorizamos orçamento, contrato e urgência.

A matéria animada não promete o fim do desgaste, mas promete antecipar a reação, trazendo o reparo para antes de o problema virar obra, desvio e barulho. É uma lógica muito próxima da saúde preventiva: cuidar antes de adoecer custa menos do que tratar quando o quadro já se agravou. Se você quiser aprofundar essa ideia aplicada ao impacto social, vale a leitura do artigo “Lições da saúde preventiva para o setor de impacto social”, que explora exatamente essa mudança de mentalidade.

E se o normal fosse o cuidado, e não o remendo? Se, em vez de aceitar a reforma eterna como parte da paisagem, a gente começasse a exigir que a cidade aprendesse a se preservar? A cidade em que você vive hoje foi construída para funcionar. A questão é se a próxima será construída também para durar.


Créditos: Imagem Destaque – VTT Studio/Shutterstock

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