Categories Investimento Social PrivadoPosted on 25/02/202624/02/2026Blended finance: como o financiamento misto pode destravar projetos de impacto • Blended finance combina recursos públicos e filantrópicos com investimento privado para viabilizar projetos de impacto. • A estrutura divide o risco em “camadas”, o que ajuda a atrair investidores mais conservadores. • Com menos risco percebido, fica mais fácil captar com juros menores e prazos mais longos. Em algum momento, toda conversa séria sobre clima, saúde, educação, saneamento ou bioeconomia cai na mesma pergunta: como pagar a conta? Não a conta do piloto bem-sucedido, do projeto que funciona em um bairro, do programa que dá certo com verba de edital por 12 meses. A conta de verdade. Aquela que envolve manter a operação, expandir para outros territórios, lidar com riscos, medir resultado e continuar de pé quando o ciclo de notícias muda. Hoje, o blended finance (ou “financiamento misto”) entra justamente nessa fresta entre intenção e escala. Apesar do nome em inglês, a lógica não tem mistério: usar uma parte pequena de recursos públicos ou filantrópicos para reduzir riscos e atrair uma parte grande de capital privado para projetos que geram benefício social e ambiental. Em vez de escolher entre “dinheiro público” ou “dinheiro do mercado”, o blended finance cria um arranjo em que ambos participam, cada um cumprindo um papel que faz sentido para o seu mandato. Pra ilustrar essa ideia melhor ainda, imagine uma ponte. De um lado, temos governos, bancos de desenvolvimento e fundações que podem aceitar retornos mais baixos, prazos mais longos e risco mais alto quando isso compra impacto. Do outro, estão os investidores e instituições financeiras que têm muito capital disponível, mas precisam de previsibilidade e segurança para entrar. O blended finance é a estrutura que faz essa travessia acontecer sem exigir que todos pensem igual. Você provavelmente tem ouvido falar cada vez mais sobre o termo (e, se não ouviu, está no lugar certo) porque os desafios ficaram grandes e urgentes. A distância entre o que precisamos fazer (reduzir emissões, ampliar acesso a serviços, proteger territórios, fortalecer cadeias produtivas sustentáveis) e o que conseguimos financiar com instrumentos tradicionais aumentou. Mesmo quando há boa intenção, orçamento público não é infinito, filantropia não tem escala para tudo, e muitos projetos que fazem sentido para o país parecem “arriscados demais” para o mercado. Porque, mesmo quando o impacto é claro, a previsibilidade financeira nem sempre é. E, quando falta previsibilidade, o capital se retrai. Por isso, o blended finance surgiu como resposta prática: um jeito de reduzir a fricção do risco, melhorar condições e deixar o projeto financiável, sem transformar tudo em subsídio permanente. A lógica central: reduzir medo, aumentar confiança Blended finance não é “trocar” investimento privado por dinheiro público. O objetivo é o inverso: usar recursos públicos e filantrópicos como alavanca. Esse recurso entra com uma postura mais flexível (aceita condições que o mercado não aceitaria sozinho) para destravar um volume maior de capital comercial. Podemos traduzir essa flexibilidade em três funções simples: 1. Amortecer risco: O recurso catalítico entra para segurar parte do risco que afugenta investidores, como inadimplência, sazonalidade, variação de receita ou incerteza regulatória. 2. Melhorar as condições: Às vezes, não é só risco: é custo. Um arranjo de blended finance pode reduzir juros, alongar prazos, criar carência ou ajustar o fluxo de pagamentos para caber no ritmo real do projeto. 3. Preparar o projeto para receber investimento: Muitos projetos de impacto não falham por falta de propósito; falham por falta de estrutura. Assistência técnica (para estudos, governança, métricas, compliance, monitoramento) é o tipo de recurso que parece bastidor, mas é o que transforma boa ideia em operação financiável. Camadas de capital no blended finance Cada fatia de capital assume um nível diferente de risco. Quando a base absorve as primeiras perdas, o topo entra com mais confiança e o projeto capta com condições melhores. Previsibilidade Risco Camada 4 | Topo Capital comercial Bancos e investidores conservadores. Camada 3 Capital privado de impacto Investidores que aceitam risco moderado. Camada 2 Condições facilitadas Juros menores, prazos mais longos ou carência. Camada 1 | Base Capital catalítico Recursos públicos ou filantrópicos que assumem mais risco. Primeira perda Esta camada absorve o prejuízo primeiro, protegendo as restantes. O que não é blended finance Blended finance costuma ser confundido com Parceria Público-Privada (PPP) porque, à primeira vista, os dois colocam atores públicos e privados no mesmo tabuleiro. Mas aí a semelhança termina. PPP é um modelo de contrato para entregar um serviço ou uma obra; blended finance é o jeito como o dinheiro é organizado para viabilizar um projeto. Ele pode aparecer dentro de uma PPP, claro, mas não depende dela e nem se limita a infraestrutura tradicional. Serve para montar fundos, financiar empresas de impacto, apoiar cooperativas, destravar cadeias produtivas, dar escala a inovação e sustentar transições que precisam de capital paciente, como a climática. Outra confusão comum é achar que blended finance é filantropia repaginada. Às vezes entra doação, entra recurso público, entra banco de desenvolvimento, mas a intenção não é “substituir” o mercado com boa vontade. É usar esse dinheiro mais flexível como alavanca para puxar outros recursos que, sozinhos, não chegariam. Quando funciona, o efeito é simples de enxergar: entra capital novo onde antes só havia projeto bom sem financiamento, ou financiamento pequeno demais para sair do lugar. Onde a teoria bate na realidade Blended finance deixa de parecer uma ideia distante quando a conversa encosta em duas coisas bem concretas: quanto custa captar dinheiro e o quanto o investidor tolera de incerteza. Em um país com volatilidade econômica e desigualdades profundas, dá para ter um projeto excelente e, ainda assim, travar na hora de financiar. Propósito ajuda, mas não fecha conta. O que destrava mesmo é o desenho: como o risco é distribuído, quais garantias existem, que prazos cabem na realidade e como a execução será acompanhada. É por isso que estruturas híbridas vêm ganhando espaço. Não para “enfeitar” um projeto, e sim para torná-lo financiável. Quando o risco fica mais legível, o capital aparece. E, quando o capital aparece, dá para sair do piloto e construir continuidade. Nos últimos anos, o BNDES sinalizou esse caminho ao estimular arquiteturas de blended finance voltadas a temas como bioeconomia, economia circular e desenvolvimento urbano. A mudança de chave é importante: em vez de ser apenas fonte de recursos, o banco atua como indutor de estruturas capazes de atrair outros financiadores, combinar instrumentos e dividir o risco. O objetivo é aumentar escala sem depender exclusivamente do orçamento público. Outro exemplo útil é o Eco Invest, que parte de um obstáculo que costuma passar na frente de qualquer tese: o câmbio. Para quem investe em moeda forte, a variação do real pode pesar tanto quanto a qualidade do projeto. Ao endereçar esse risco de forma mais direta, a estrutura aumenta previsibilidade e melhora as condições para que capital internacional entre com horizonte de longo prazo. No fundo, essa conversa é sobre capacidade de execução e sobrevivência. Projetos fundamentais costumam morrer naquele limbo entre a boa intenção de todos e o bolso fechado de cada um. O blended finance serve para atravessar esse vale, especialmente em temas como clima e saneamento, que não se resolvem no tempo de um edital curto ou de um investidor apressado. Se a inovação social quer escala sem perder a essência, ela precisa aprender a falar a língua dos contratos e da governança. Não é um atalho nem uma solução mágica, mas é o jeito mais pragmático de garantir que boas iniciativas saiam do estágio de piloto e aguentem o tranco do mundo real. Créditos: Imagem Destaque – ADragan/Shutterstock Compartilhe esse artigo: