Por que o trabalho virou cenário de terror e ficção científica?

Por que o trabalho virou cenário de terror e ficção científica?

Distopia corporativa: Obras pop como “Ruptura” refletem a ansiedade real de um mercado em que o controle excessivo por métricas sufoca a autonomia humana.

Gestão algorítmica: Decisões sobre escalas, desempenho e avaliações passam a ser automatizadas por sistemas opacos, ampliando estresse e insegurança.

Hiperconexão e vigilância: Fronteiras entre vida e expediente ficam cada vez mais frágeis, reforçando a necessidade de limites éticos e regulatórios para proteger a saúde mental.

Em “Ruptura” (Apple TV), funcionários passam por uma cirurgia que separa as memórias do trabalho e da vida pessoal. Quem entra no escritório não sabe o que existe do lado de fora. Quem sai não lembra de uma única reunião, tarefa ou conversa vivida lá dentro.

A ideia parece assustadora e, ao mesmo tempo, tentadora. Nada de responder WhatsApp na hora do jantar ou começar a temer a segunda-feira quando o sol se põe ao domingo. O expediente ficaria trancado no prédio. Só que alguém ainda teria de viver aquelas oito horas, e esse alguém seria uma versão de você sem casa, passado ou escolha de ir embora.

Dan Erickson, o criador da série, disse que chegou à premissa enquanto trabalhava num escritório e desejava poder pular o restante do dia. É um exagero que nasceu de um incômodo comum e me fez pensar: por que muitas pessoas têm uma vida profissional que oferece tanto material para o terror e a ficção científica?

Isso não significa que trabalhar hoje seja pior do que no início da industrialização, claro. Em muitos países, houve avanços concretos: direitos foram conquistados, jornadas passaram a ter limites e abusos podem ser punidos.

A mudança que interessa aqui é outra. A ficção continua encontrando no trabalho situações capazes de produzir medo, mas agora também dispõe de novos elementos: uma nota calculada por um sistema, um ranking de desempenho, uma rota definida por aplicativo ou uma mensagem que chega depois do expediente.

A velha máquina ganhou uma tela

Em “Metropolis”, filme de 1927, trabalhadores vivem debaixo da cidade e mantêm máquinas gigantescas em funcionamento. Seus corpos acompanham ponteiros, alavancas e engrenagens até parecerem parte do equipamento. A distopia industrial de Fritz Lang tornava visível quem ditava o ritmo: a máquina estava diante do operário.

Décadas depois, “Brazil: O outro lado do sonho”, Terry Gilliam imagina uma sociedade dominada por repartições, formulários e procedimentos absurdos. Um funcionário público acaba envolvido numa sequência de erros provocada por uma falha burocrática aparentemente banal. O sistema é confuso, mas tem poder real sobre a vida das pessoas. É daí que vem boa parte do incômodo do filme.

Medir o trabalho é uma prática antiga. Fábricas contavam peças e minutos; escritórios registravam presença, vendas e entregas. Havia, em geral, sinais mais fáceis de reconhecer: a esteira, o relógio, o supervisor, a planilha.

Hoje, parte desse controle acontece por sistemas que acompanham a atividade e ajustam a rotina quase em tempo real. O resultado pode aparecer numa escala pronta, numa rota menos vantajosa ou numa avaliação que caiu sem muita explicação.

Em quase todo emprego, existem elementos que a ficção pode levar ao limite: alguém organiza os horários, distribui tarefas e decide se o resultado foi bom o bastante.

Para a maioria das pessoas, sair de um ambiente ruim não é simplesmente abrir a porta. Há salário, benefícios, carreira e contas no fim do mês. Na vida real, leis, contratos, sindicatos e canais de contestação impõem limites a essa autoridade – embora nem sempre funcionem como deveriam – , mas no horror esses limites podem desaparecer por completo.

Em 2023, um livro inteiro foi dedicado a uma pergunta que o cinema já explorava havia décadas: como o trabalho também pode produzir medo? Em “Labors of Fear”, Aviva Briefel e Jason Middleton analisam filmes em que a ameaça nasce não só de monstros, mas também de empresas, chefes, rotinas e relações profissionais.

O trabalho organizado pela tela

Um motorista de aplicativo pode passar o dia inteiro sem encontrar um chefe. Mesmo assim, preço, rota, nota e oferta de corridas chegam definidos pela tela. Em escritórios, galpões, hospitais e centrais de atendimento, sistemas também já distribuem tarefas, montam escalas, acompanham atividades e transformam desempenho em rankings ou alertas.

Existe um nome para isso: gestão algorítmica.

Apesar do nome futurista, ela nem sempre envolve inteligência artificial (IA). Muitas vezes são programas, criados e configurados por pessoas, que assumem algumas funções antes concentradas na chefia.

Em uma pesquisa com mais de 70 mil trabalhadores da União Europeia, 37% disseram ter o horário monitorado digitalmente. Para 24%, sistemas participavam da distribuição do tempo de trabalho; 13% relataram avaliações e recompensas automáticas.

É nessa parte que o assunto começa a conversar melhor com a ficção.

Uma nota cai

A escala muda.

Uma tarefa desaparece.

A pessoa enxerga o resultado sem necessariamente saber como aquela decisão foi tomada.

Uma análise de 94 pesquisas sobre monitoramento eletrônico associou essas práticas a mais estresse e não encontrou uma melhora geral de desempenho. Sistemas mais transparentes e menos invasivos foram mais bem recebidos.

Claro, monitorar pode servir para registrar jornada, melhorar a segurança ou coordenar operações. Mas faz sentido o incômodo crescer quando não fica claro o que está sendo medido, para quê e como questionar o resultado.

No Brasil, essa conversa envolve diretamente os cerca de 1,7 milhão de trabalhadores que atuavam por plataformas e aplicativos em 2024. Um motorista pode escolher a hora de abrir o aplicativo. Não escolhe, porém, todas as regras que vão organizar o dia depois disso.

Trabalho, vida pessoal e a sensação de ser substituível

“Ruptura” criou uma ficção científica a partir de um desejo bastante simples: sair do trabalho e não levar nada dele consigo (e mostrou que esse não é um desejo tão simples assim). Hoje, uma mensagem de trabalho consegue acompanhar alguém até a mesa do jantar, mas isso não torna toda conexão fora do expediente necessariamente ruim.

Uma revisão de 38 pesquisas encontrou mais conflito entre trabalho e vida pessoal, mas também ganhos de flexibilidade em alguns contextos. A diferença passa por elementos como carga de trabalho, autonomia e pelas expectativas da própria equipe.

Desligar as notificações resolve pouco se responder uma mensagem às dez da noite virou sinal de comprometimento.

O trabalho também pode exigir uma determinada versão de quem trabalha. “Desculpe Incomodar” acompanha um jovem negro que consegue emprego num call center e descobre que vende mais quando adota uma “voz branca” ao telefone. O diretor Boots Riley já havia trabalhado com telemarketing, e levou para o filme experiências desse universo, transformadas depois em sátira e ficção científica.

No Brasil, a NR-17 para teleatendimento tenta colocar limites justamente em alguns desses pontos. Entre outras coisas, ela prevê que:

Indicadores de chamadas não devem ser usados com a finalidade de acelerar o trabalho.

O operador não é obrigado a seguir o roteiro de forma rígida ou mecanizada.

Escutas e gravações só podem acontecer com o conhecimento prévio de quem está sendo monitorado.

A IA acrescenta outra ansiedade a essa história. A OIT estima que um em cada quatro trabalhadores esteja em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa. Isso não significa que um quarto dos empregos vá desaparecer. Na maior parte dos casos, a tendência é que tarefas mudem antes que profissões inteiras deixem de existir.

No fundo, o que essas histórias fazem é pegar elementos bastante concretos do trabalho e levá-los até o limite.

A meta vira obsessão. A avaliação vira vigilância. A flexibilidade vira disponibilidade permanente. O sistema que ajuda a organizar tarefas passa a decidir demais. E o medo da substituição ganha clones, cópias e trabalhadores descartáveis.

O trabalho sempre ofereceu bons materiais para a ficção: hierarquia, rotina, avaliação, dependência. O que mudou foi a quantidade de ferramentas capazes de transformar essas relações em números, alertas e decisões automáticas. E é justamente aí que o terror contemporâneo encontra espaço: não porque a realidade tenha virado distopia, mas porque muitas das suas regras ficaram menos visíveis para quem precisa segui-las.

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